O cristianismo foi iluminado e convencido pelos ensinamentos do Senhor Jesus, Filho de Deus, de que o ser humano não foi criado apenas para viver um tempo limitado na vida terrena, mas para viver uma outra forma de vida, após sua morte: uma vida eterna.
Foi iluminado e convencido, também, de que a vida que se inicia com a morte, terá um, de dois destinos diferentes: ou a felicidade gerada pela posse plena e definitiva de Deus, que chamamos de Céu, ou a infelicidade gerada pela perda culposa da presença de Deus para sempre, que se chama inferno. São inúmeras as citações bíblicas comprobatórias dessa verdade.
A própria vinda do Salvador, a centralidade de sua doutrina, a instituição da Igreja com todos os seus instrumentos sacramentais, doutrinários e espirituais, têm essa finalidade: levar o ser humano a crer em Deus e na vida eterna, e por isso a viver de tal forma segundo os ensinamentos divinos que chegue a “conquistar” a sua felicidade celeste. Vale a pena buscar na parábola do “Pobre Lázaro e do Rico Epulão” a profundidade do ensino de Jesus a respeito dessas verdades (Lc 16,19-31).
Tais verdades de fé levaram os cristãos, desde os primeiros anos após Pentecostes, quando, aliás, se iniciaram os martírios e a morte natural dos fiéis, a prestarem um culto aos falecidos. Não apenas um culto de memória, de saudade, de admiração, de gratidão, de imitação de suas virtudes, mas também de oração e de celebrações e ofertas do santo Sacrifício Eucarístico, como forma de beneficiá-los para sua nova vida. Essa prática religiosa, baseada na fé cristã, prossegue até os nossos dias.
Purgatório
Para que orar, celebrar Santas Missas, realizar atos de caridade, alcançar indulgências etc. em favor dos falecidos? Faz sentido? Eles são realmente beneficiados? Os que vão para o Céu já estão na plena felicidade e os que vão para o inferno, já não há o que fazer por eles, pois o inferno é eterno, como o Céu. Então, para que orar pelos mortos?...
Baseada na Sagrada Escritura, iluminada pelo Espírito Santo e pela reflexão teológica, a Igreja – desde os primórdios – tem a certeza da existência do purgatório, ou seja, de um período de purificação para aqueles que morreram na amizade de Deus (em estado de graça), mas que levam consigo “impurezas, imperfeições” que precisam ser “purificadas”, para poderem entrar no céu.
Eis o ensinamento da Igreja: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna, passam, após a morte, por uma purificação, a fim de terem uma santidade necessária para entrarem na alegria do Céu”. “A Igreja denomina “Purgatório” esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados”. (Leia mais no Catecismo da Igreja ns. 1030-31-32) Nesse texto está uma certeza fortemente iluminadora: todos os que estão no purgatório “estão salvos e irão para o Céu”.
Na Bíblia não ocorre o nome “purgatório”, mas sim a realidade da “purificação”. Já no A.T., no segundo livro dos Macabeus conhecemos essa prática de “purificação dos falecidos”.
Após uma grande batalha onde morreram muitos de seus soldados, o general Judas Macabeu, animado por sua fé, assim fez: “No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais.(...) Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas”. (Cf. 2Mc 12, 39. 43-46) Saboreie o leitor atentamente a riqueza desse texto... (Cf. também Mt 12, 31; 1Cor 15; 1Pd 1,7)
Purificação
Purificar de quê? 1.Dos pecados veniais não perdoados antes da morte. 2. Das seqüelas que permaneceram na pessoa, por causa dos pecados mortais perdoados em vida, ou de todos os outros pecados veniais perdoados. “Todo pecado, mesmo venial, acarreta um apego prejudicial às criaturas, que exige purificação, quer aqui na terra, quer depois da morte, no purgatório” (CIC n.1472). Um exemplo: alguém pratica adultério, ou prostituição, ou relações sexuais de solteiros. Arrepende-se e confessa sinceramente seus pecados. A culpa é perdoada, mas permanece a experiência erótica que muitas vezes grita para voltar ao prazer. Essa seqüela precisa ser “purificada”, ou antes da morte ou no purgatório. Outros levam consigo, na morte, ressentimentos, mágoas, sentimentos de vingança; outros, apegos fortes a bens materiais; outros, tropeços na fé causados pelo busca de soluções de problemas em falsas religiões; outros por más ações ou intenções no exercício de sua profissão etc. Todas as seqüelas “sujas” dos pecados, mesmo perdoados, precisam ser “purgadas”, para se poder entrar na visão beatífica.
Sofrimento
Os falecidos que estão no purgatório sofrem. A tradição da Igreja descreve, desenha e pinta o purgatório como “um lugar cheio de chamas de fogo purificador”. É evidente que se trata apenas de “dar uma idéia material, visual” daquele sofrimento. O sofrimento purificador é causado principalmente pelo fato de a pessoa estar ali pertinho de Deus e do Céu e ainda não poder entrar, “por própria culpa”, por causa de seus pecados. O desejo de estar com Deus, com os Anjos e os Santos é tão profundo, tão intenso, que a espera e a demora causam “sofrimento”, como um “fogo” na alma. Tal desejo da posse do Céu vai intensificando na pessoa o amor por Deus. E é esse amor que “purga”, limpa o coração para a posse plena e eterna de Deus.
O sofrimento do purgatório é tão intenso e profundo exatamente por causa da intensidade do desejo de querer entrar no Céu, e “ainda não poder”. Tal sofrimento não deixa a pessoa infeliz, revoltada, por três razões: 1. Porque sabe que o seu Céu está garantido e que vai chegar sua hora de possuí-lo. 2. Porque sabe que a “espera e a demora” foram causadas por suas próprias culpas. 3. Porque sabe que a Igreja e seus amigos vivos podem e irão socorrê-los, apressando sua purificação e sua entrada no Céu.
Socorro purificador
Após o que foi escrito acima, fica muito fácil compreender o significado e a importância de socorrer espiritualmente os falecidos que se encontram na purificação.
Todo sufrágio que realizarmos pelos falecidos tem como objetivo alcançar-lhes o perdão divino e a purificação plena, a fim de que o mais depressa possam sair do sofrimento e entrar na glória dos Céus.
O objetivo de “tirarmos do sofrimento” e de “levarmos para o Céu” o mais depressa possível os nossos entes queridos falecidos, deveria induzir-nos a realizar de imediato o maior número possível daqueles auxílios espirituais mais perfeitos e apropriados, a eles aplicáveis. Por que deixá-los sofrer, se podemos levá-los para a felicidade do Céu? Por que deixá-los esperar no sofrimento, talvez por muito tempo, se podemos socorrê-los rapidamente?
Os socorros mais indicados são: A celebração da Santa Missa oferecida pelos que partiram. Todas as orações dirigidas a Deus em sufrágio dos que partiram. Obras de generosidade e caridade realizadas e oferecidas a Deus, pelos falecidos. As indulgências aplicáveis aos falecidos, como aquelas dos dias de finados.
Façamos o melhor
A melhor de todas, a mais apreciada por Deus, a que maior poder possui para purificar os falecidos é, sem dúvida, a Santa Missa oferecida por eles. Isso porque na Santa Missa se torna realmente presente o “Santo Sacrifício de Jesus, oferecido na cruz”. O sacrifício da vida de Jesus, oferecido na cruz, é tão meritório e poderoso que pôde salvar a humanidade toda. Ora, por vontade expressa de Jesus, seu sacrifício oferecido na cruz se torna realmente presente em cada Santa Missa celebrada. Oferecer uma Santa Missa por um falecido é como “fazer uma troca” com Deus Pai. Nós lhe entregamos o Corpo sacrificado e o Sangue derramado, com todo o amor com que Jesus se imolou, para que “em troca”, o Pai perdoe e purifique o falecido, e o leve para o Céu. O que de mais eficaz poderíamos fazer por um falecido?...
Quem compreende o que está dito acima, vai “superar a tradição” de apenas oferecer missas de 7º, 30º e de aniversário de morte. Por que não oferecer Santas Missas no 1º, no 2º, no 3º, no 4º dia, todos os dias, por muitas semanas e até meses seguidos? Se, por nossa falta de fé e de piedade, não conseguirmos tirar da purificação nosso ente querido na missa de 7º dia, vamos deixá-lo sofrer e esperar nosso socorro até a Missa de 30º dia?... Ou até a Missa de um ano depois de sua morte?
Leitor, deu para compreender?...
Pe. Alírio José Pedrini scj
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Padre Alírio pertence à Congregação Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos). Segundo ele próprio afirma em sua autobiografia, encontrou grande riqueza espiritual para a sua vida cristã, consagrada, sacerdotal e apostólica na Renovação Carismática. Cabe destacar que é um dos primeiros sacerdotes a aderirem à RCC no Brasil. Tem diversas obras literárias publicadas e atualmente possui um blog, no qual evangeliza publicando seus artigos:
http://www.dehonbrasil.com/padrealirio/inicial.html
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