Boa Noite! Hoje é 03 de Setembro de 2010
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Entrevistas
O que significa celebrar a festa de Corpus Christi
FESTA DE CORPUS CHRISTI de Junho de 2010   O que significa celebrar a festa de Corpus Christi ou de celebrar a Eucaristia? Quais são suas conseqüências?   1. A festa de Corpus Christi é a festa de caridade, porque a eucaristia significa também o maior amor, a maior generosidade e a maior entrega de Cristo. Honrar o Corpo de Cristo significa também aproximar-se do irmão com o maior respeito e disponibilidade, porque ele também é o Corpo de Cristo (Igreja é o Corpo de Cristo e o Cristo sua cabeça). O Corpo de Cristo é partido em nossos altares para saciar nossas fomes de sentido, mas também para termos mais consciência de sermos mais generosos a exemplo de Cristo.   2. A eucaristia é uma ceia fraterna na qual todos são tratados como irmãos e irmãs. A ceia fraterna não pode ser entendida sem comunhão fraterna, sem convivência com o Senhor e com os demais comensais ou com as demais pessoas. É certo que a Eucaristia constrói ou edifica a Igreja, mas a constrói ou edifica como comunidade que compartilha. Compartilhar é mais do que repartir o que temos, é mudar nossa forma de pensar e de viver para fazer possível uma convivência fraterna e solidária. Como dizia João Paulo II: “Nossa união com Cristo na Eucaristia deve manifestar-se, no dia de hoje, em nossa existência: em nossas atividades, em nossa conduta, em nosso estilo de vida e na relação com os demais”. Não é possível celebrar ou participar da Eucaristia sem a vivencia do amor fraterno, da caridade mútua e da solidariedade. Um escritor francês disse: “Não se pode crer impunemente”, isto é, não se pode crer sem que tenha conseqüências em nossa vida. Não se pode comungar o Corpo de Cristo sem que tenha conseqüências em nossa vida. Compartir o pão com os irmãos, especialmente com os necessitados é comungar com Cristo. Não tomaremos a sério a comunhão se não tomarmos a sério a vida, a justiça, a fraternidade e a honestidade.   3. O Corpo de Cristo significa o Pão que partimos, o pão da vida (Jo 6,52). Mas quando a comunhão é entendida como “minha comunhão”, assunto privado entre Jesus Cristo e minha vida, o Corpo de Cisto que é a Igreja se desintegra: cada um come seu próprio pão e este já não é “pão que partimos”. Não podemos pertencer à Igreja de Cristo como se pertencesse a um clube somente para utilidade própria. A comunhão somente é autêntica quando não se privatiza e se apropria. Comungar Cristo significa comungar com os demais como irmãos porque Jesus Cristo entregou sua vida para a salvação de todos. São Paulo destaca a exigência de unidade que brota da Eucaristia. Todos os que comungam o Corpo e o Sangue de Cristo se fazem com ele um só corpo. A unidade de alimento produz também unidade entre os membros da comunidade que o assimila. As diferenças que humilham uns irmãos contradizem o amor a Cristo e a unidade entre os membros da comunidade. Por isso, hoje é o dia oportuno para uma revisão de nossa vida comunitária vivida na comunhão e na fraternidade que dimana da Eucaristia.   4. Comer o Corpo e beber o Sangue do Senhor significa comer e beber o amor à vida e todo o que se refere à vida: liberdade, justiça, participação, fraternidade, igualdade. Uma Eucaristia que fica reduzida a um mero ato litúrgico é uma traição à última Ceia de Jesus da qual nasceu a Igreja. Trata-se de uma Igreja de irmãos, de apóstolos (enviados), de testemunhas, de mártires. Comer e beber a carne e o sangue de Jesus significa alimentar-se e alimentar uma humanidade necessitada de Jesus, Pão da Vida. É uma humanidade que para poder ser chamada de cristã precisa fazer desaparecer a injustiça, o ódio, a vingança, a discriminação, o racismo e assim por diante. Comungar com Cristo é comungar com sua causa. Todos somos chamados a seguir a Jesus Cristo, a ter fé nele, a caminhar pelo seu caminho. Todos nós sabemos que em Cristo temos o Caminho, a Verdade e a Vida. Na última Ceia Jesus nos recomendou: “Fazei isto em minha memória”. Toda Eucaristia é memorial que faz presente a entrega à morte do Mestre. Na Eucaristia, é o amor no Filho que se entregou para que possamos ter a vida eterna. Quem descobre o amor de um Deus que amou tanto os homens (cf. Jo 3,16), experimenta a chamada para difundir entre os homens este mesmo amor. Não se pode comungar com o gesto supremo de amor e ao mesmo tempo continua odiando, desprezando os outros.   5. A eucaristia é o alimento do povo de Deus que peregrina neste mundo. É o Pão do céu que gera a vida além da morte. Precisamente como peregrinos a Eucaristia se torna para nós o viático com o qual o cristão ganha sua força para poder passar deste mundo para a casa do Pai. O viático dá ao cristão a garantia de que sua morte não será o término e sim transito para a vida eterna, vida gloriosa.   A partir destes pensamentos e de outros tantos referentes a esta festa, vem a pergunta para cada um de nós: “Comungo o Corpo do Senhor apenas para cumprir o preceito ou tenho consciência de que ao comungar o Corpo do Senhor devo ser outro Cristo para os demais?”.  
 
Deus quer nos renovar no seu Santo Espírito
                                                                                                                                                                                                             DEUS QUER NOS RENOVAR  NO SEU SANTO ESPÍRITO At 2,1-11; Rm 8,8-17; Jo 20,19-23            Neste dia celebra-se a festa de Pentecostes, a festa do Espírito Santo. É o dia do aniversário da Igreja. É o início de sua missão com Igreja. O Concílio Vaticano II descreve o sentido de Pentecostes ao dizer: “Para completar sua obra, Cristo enviou o Espírito Santo da parte do Pai, a fim de que, interiormente, operasse sua obra de salvação e propagasse a Igreja... No dia de Pentecostes, ele desceu sobre os discípulos para permanecer eternamente com eles; a Igreja foi manifestada publicamente ante a multidão; e, pela pregação, iniciou-se a difusão do Evangelho entre as nações” (Ad Gentes, 4).          Sobre a importância do papel do Espírito Santo na vida da Igreja como toda e na vida de cada cristão, em particular, Inácio de Laodicéia escreveu: “Sem o Espírito Santo, Deus se torna longínquo; Cristo fica no passado; o Evangelho vira letra morta; a Igreja, uma simples organização; a autoridade, uma opressão; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o comportamento cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, Cristo está presente; o Evangelho é poder de vida; a Igreja torna-se comunhão trinitária; a autoridade, um serviço libertador; a missão, um Pentecostes; a liturgia, um memorial e uma antecipação da glória; e o comportamento torna-se divino”.          Pentecostes era uma festa agrícola que se celebrava para agradecer a Deus pela colheita (Ex 34,22; Nm 28,26). No século I Pentecostes se transformou em festa que celebrava o dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus.        Ao colocar nesta festa o dom do Espírito Santo, Lucas quer nos dizer que o Espírito Santo é a lei da nova aliança. E a Lei do Espírito Santo é o coração novo, é a vida de Deus que, quando penetra no ser humano o transforma e produz naturalmente as obras de Deus. Quando o homem é permeado pelo Espírito Santo, nele acontece algo inaudito: ama com o mesmo amor de Deus. João chega a dizer que o homem animado pelo Espírito Santo é simplesmente incapaz de pecar: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (1Jo 3,9). E o amor é a linguagem que todos entendem (At 2,7-11).        Na festa de Pentecostes a Igreja celebra o Espírito Santo como o dom de Deus dado aos homens: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Somente com o Espírito de Deus, com o Espírito de amor é que a comunidade pode se tornar viva, recriada, nova, renovada e unida. E com a força do amor a comunidade é capacitada para superar seus medos e limitações para viver e testemunhar os ensinamentos de Cristo (veja o discurso de Pedro e seus frutos em At 2,14-41). O Espírito Santo dá vida: “Deus insuflou em suas narinas (do homem) um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7; cf. Jo 20,22). O Espírito Santo renova e transforma o homem/face da terra (cf. Sl 104,30; veja At 2,1ss), constrói comunidade e faz nascer o homem novo (cf. Gl 5,22-23).          Além de tudo que foi dito acima, vamos refletir sobre outros elementos desta festa a partir das leituras deste dia.   1. O Espírito Santo é um dom de Deus que nos convida a vivermos na gratidão          “De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde os discípulos se encontravam... Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,2. 4; cf. Jo 20,20).          O fato de tudo isso “vir do céu” indica que o Espírito Santo não é uma invenção dos cristãos, mas um dom que lhes foi dado, conforme a promessa de Jesus (Jo 14,15-17).  Ele é uma força irresistível que foge ao controle e às manipulações humanas. Ele sopra para onde quer (cf. Jo 3,8)          Ao dizer que o ES é o dom o texto quer nos dizer que estamos no Reino da Graça. Vivemos simplesmente por causa da graça de Deus: “Pela graça de Deus sou o que sou”, diz São Paulo (1Cor 15,10). Como dom, Deus derrama seu Espírito e seus dons sobre o seu povo, não como promoção por suas realizações, mas na liberdade de sua misericórdia e graça. Deus não exige um pagamento velado em troca de seus dons. O Dom do Espírito Santo, então, nos faz lembrar que não estamos vivendo num mundo calculista de benefícios conferidos em proporção às condições atendidas, mas no reino de um Pai gracioso, que derrama generosamente seu Espírito, em graça livre e incondicional para todos nós.          Quando tivermos a plena consciência de que vivemos no mundo da graça, porque tudo que somos e temos é o puro dom de Deus, nós viveremos como pessoas agradecidas. A pessoa agradecida é interiormente rica. Quanto mais grata for uma pessoa, maior riqueza interior possui. Mesmo em condições momentaneamente difíceis, uma pessoa agradecida não se sente infeliz, porque descobre sempre mil razões para agradecer a Deus. Crer em Deus significa, neste sentido, receber com gratidão o amor auto-revelado de Deus. A gratidão nos torna sensível e perspicaz. A gratidão faz do cristão um ser eucarístico.          Ao contrário, o ingrato é um ser mesquinho e isolado. Ele pode até ter sua aparente satisfação, mas no fundo, é um infeliz. Pela ingratidão, o homem perde o paraíso da reciprocidade das boas relações. Para o ingrato, a verdadeira beleza e preciosidade dos bens terrenos permanecem escondidas. A festa do Espírito Santo quer convidar cada um de nós a voltar a viver na gratidão pela qual seremos todos felizes novamente.   2. Quem se deixa guiar pelo Espírito Santo é capacitada a criar relações e a superar o gueto          “Então apareceram línguas como de fogo... e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas...” (At 2,3-4).          “O vento de tempestade” e “o fogo” são símbolos que evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem porque quer se comunicar com o homem. A “língua” neste relato não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo humano ou de uma nação, mas ela significa também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade.          “Falar outras línguas”, por isso, significa criar inclusão e relações baseadas sobre o amor. Somente ao criar relações é que o homem pode superar o gueto, o egoísmo, o sectarismo, a divisão, o racismo, a marginalização, a exclusão, e assim por diante, para formar uma convivência fraterna. Por isso, o texto nos relatou a reação positiva dos ouvintes dos discípulos de Jesus guiados pelo Espírito Santo: “... todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” (At 2,11). Os que se deixam guiar pelo Espírito Santo falam uma língua que todos entendem e a todos une: a linguagem do amor. E os que se amam, se entendem. E o amor é o único meio que em si tem capacidade de convencer os ateus, os pagãos, os decepcionados, os pessimistas e os desesperados sobre a existência de Deus.   3. O Espírito Santo traz união e comunhão fraterna          Os Atos dos Apóstolos contam que os discípulos foram tocados por línguas de fogo. Com esse toque todos os ouvintes entendiam o que os discípulos pregavam (cf. At 2,1-11). O pano de fundo deste texto é a descrição do AT sobre a construção da torre de Babel (cf. Gn 11,1-9). Por causa do seu progresso, os homens acreditavam que pela força das construções e planejamentos, eles podiam se transformar em divindade. Mas os homens não percebem que ao se procurar somente a si mesmo, a busca termina na oposição radical em que ninguém mais entende os outros, termina com o fim da compreensão mútua. O egoísmo não permite compreender a necessidade e os direitos dos outros. Devido à divinização de si mesmo, o homem fica contra o outro e entra na perspectiva falsa, de modo que o homem acaba não entendendo nem a Deus, nem o próximo e nem a si mesmo.          O Espírito Santo traz compreensão porque é o amor que vem da cruz, da renúncia de Jesus a si mesmo. A partir do momento em que soubermos renunciar aos nossos próprios interesses, ao nosso egoísmo fatal, enxergaremos melhor a presença dos outros e compreenderemos melhor sua necessidade e seus direitos. Com essa nova compreensão conviveremos como irmãos e irmãs. As pessoas que se deixam guiar pelo Espírito Santo formam uma fraternidade de pessoas. O ES produz unidade e ao mesmo tempo, promove diferentes maneiras de servir, (1Cor 12,3-7.12-13). Ele é a força criadora de diferenças e de comunhão entre as diferenças. É ele que suscita entre as pessoas os mais diversos dons e nas comunidades os mais diferentes serviços e ministérios, como se ensina nas cartas aos Romanos (Rm 12) e aos Coríntios (12). O Espírito Santo interfere para melhorar e não para atrapalhar a comunicação da Igreja de Jesus Cristo. A verdadeira Igreja guiada pelo Espírito Santo é um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação, de unidade, de acolhimento.   4. O Espírito Santo transforma os cristãos em missionários da paz          Como dom, o Espírito Santo possibilita a confissão de fé em Jesus Cristo e faz compreender o que aconteceu com Jesus Cristo: seu ensinamento, seus sinais, sua vida, sua morte e sua ressurreição. Ele concede diversos dons para o bem de toda a comunidade.          Mas não há dom do Espírito Santo que crie o homem novo e a nova comunidade, sem envio, sem missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). E para realizar essa missão, o Senhor ressuscitado transmite aos discípulos o Espírito Santo: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-23). Este envio se faz num contexto em que se dá e se comunica a paz. A paz que se concede à comunidade cristã é um dom precioso que devemos transmitir e comunicar a todos os homens. O homem e a comunidade no Espírito estão reconciliados consigo mesmo, e por isso são enviados fundamentalmente numa missão de paz. Não há nada que seja melhor para o mundo atual do que a paz. O homem precisa reconciliar-se consigo próprio, com Deus, e com os outros. Os cristãos são enviados para facilitar o alcance deste objetivo.  A Igreja recebe o poder de perdoar, de colocar o homem novamente de pé. Mas a paz que provém do Espírito de Jesus não pode cobrir ou justificar o mal ou a injustiça. A paz é o oferecimento de perdão sem limites onde se reconhece o mal. Não se constrói a paz sem a verdade e a justiça.          Os cristãos da comunidade primitiva antes de receber o dom do Espírito Santo eram uma comunidade débil, cheios de medo, calados e fechados. Assim que receberam o Espírito Santo, os que estavam calados começaram a anunciar a Boa Nova de Jesus apesar das proibições. A comunidade se plenificou de iniciativas, e os cristãos se decidiram a atuar com entusiasmo pelo bem de todos.           E você? Você tem consciência de que realmente recebeu o dom do Espírito Santo? O que mudou na sua vida como cristão/cristã? Que o Espírito Santo que nos reuniu nesta celebração para nos alimenta com a Palavra de Deus e com o Pão eucarístico nos fortaleçam para sermos verdadeiras testemunhas dos ensinamentos de Jesus Cristo, e missionários da paz. Assim seja!     Pe. Silvester Anas  
 
Ascensão do Senhor Ressuscitado
                Cristo Ressuscitado quer tornar-se mais presente por meio dos cristãos             A Igreja celebra neste domingo a solenidade da ascensão do Senhor. A ascensão nos ensina a vermos a vida com os olhos da esperança. Um caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até as últimas conseqüências pode até encontrar o sofrimento, a perseguição, o ódio etc., mas jamais será uma vida fracassada e sim será uma vida de comunhão com Deus. Por causa desta certeza enfrentaremos com serenidade todos os limites humanos. A Ressurreição-Ascensão do Senhor nos dá espaço e oportunidade para vivermos a vida como dom e doação para o bem do próximo como Jesus a viveu. Cristo é glorificado por causa do sacrifício total de si mesmo, na entrega radical de si na cruz por amor cujo abraço é suficientemente amplo para abraçar e proteger cada um de nós. Por isso, para nós, cristãos, a vida se torna simultaneamente, como dom e missão. Por esta razão, esta festa quer reacender o nosso ardor missionário para que nossa vida se torne um dom vivido na doação e assim Cristo falará através de nós que ele realmente está vivo e vive entre nós. Todo aquele que acredita em Jesus ressuscitado é chamado a traduzir a esperança que Jesus nos deixou em empenho e testemunho. Para que possamos ser testemunhas de Cristo e de seu evangelho precisamos ter experiência existencial com ele.            Não é por acaso que o texto nos relatou que antes da sua Ascensão Jesus ergueu as mãos e abençoou os discípulos (Lc 24,50). Os discípulos, abençoados com toda a bênção espiritual, recebem a missão de comunicar a bênção da fé, da conversão e da salvação a todas as nações: “... no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24,47).          Em cada celebração eucarística, cada cristão participante é abençoado e é também enviado. Em cada eucaristia nós somos abençoados pela experiência da comunhão fraterna, pela Palavra de Deus proclamada e meditada, pelo Pão da vida, o Pão eucarístico. Por isso nós recebemos também uma missão: transformarmo-nos em fonte de bênção para o próximo. Cada um de nós seja uma bênção para os outros. Isso é explicitado no rito final da Missa através desta frase: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!” Ao sair da celebração cada um é enviado para viver o amor de Deus no serviço do bem. O amor e o serviço são inseparáveis, pois um amor sem serviço seria ilusório, e um serviço sem amor seria servilismo ou escravidão. Cristo quer tornar-se sempre presente em cada cristão através do amor vivido no serviço do bem. A ascensão do Senhor nos convoca para a missão na construção de um mundo novo onde habitam a justiça, a verdade e a defesa pela vida, pois a vida é dada a um ser humano certamente no momento em que ele não pode pedi-la.         Por isso, o sentido fundamental da Ascensão não está apenas na admiração pela vida glorificada de Jesus. A festa da Ascensão nos convida a seguirmos o caminho de Jesus e a vivermos o estilo de sua vida. Jesus nos encarregou de continuarmos a tornar realidade o seu projeto de libertar os homens de todos os tipos de escravidão para que todos possam viver como verdadeiros irmãos em Jesus Cristo. Como se Jesus quisesse dizer a cada um de nós na sua Ascensão: “Faça você alguma coisa para o bem do próximo, nem que seja uma pequena coisa!”. Descobrir a própria missão significa trazer mais de você mesmo para o trabalho e concentrar-se nas coisas que você sabe fazer melhor e dar sempre o melhor de você para os outros sem esperar nada em troca, como elogios e reconhecimento. Uma vida significativa é feita de uma série de pequenos atos diários de decência e bondade, que quando somados no final, resultam, paradoxalmente, em algo grandioso. Com efeito, a vida não é uma luta para superar os outros, mas uma missão a ser exercida para dar o melhor de nós para a humanidade conforme os talentos recebidos de Deus com os quais exercemos a nossa missão nesta terra. As pessoas de alma grande simplesmente fazem as coisas certas, boas, honestas, justas e corretas para o bem de todos. Todos nós necessitamos ascender e superar nossos níveis baixos de nossa vida humana e espiritual. Necessitamos perspectivas para ver tudo com mais verdade e com justa proporção. Para isso, é urgente ascender na fé, na esperança e no amor. Paradoxalmente, ascenderemos melhor quando descendermos/descermos mais; somos cidadãos do céu quando na terra caminharmos comprometidos nas exigências do Evangelho. E Jesus nos garante, através de sua Ascensão, que uma vida vivida na fidelidade do projeto da vida de Deus é uma vida destinada à glorificação. O cristão é aquele que vê a terra no céu e o céu na terra.          Por tudo isto, é bom mantermos viva a seguinte pergunta: “Como será o destino da minha vida? Será uma vida glorificada como a de Jesus?”.        
 
A Morte De Jesus E Seu Sentido
  Reflexão do Domingo de Ramos 28 de Março de 2010 A MORTE DE JESUS E SEU SENTIDO   Nossa reflexão para preparar esta celebração e dar início à Semana Santa destaca a Cruz de Jesus, reconhecendo na Cruz a verdadeira identidade de Jesus. Fazemos isso quando o governo o presidente da República  (que fez estrada escondendo-se em nossas sacristias e sendo apoiado por tantos bispos e padres) assina o decreto para tirar das repartições públicas símbolos religiosos, principalmente a Cruz. Alega-se que a Cruz atenta aos Direitos Humanos e, por isso, não poderá estar em locais públicos para inspirar justiça, acolhimento digno e respeitoso, como se esperaria que repartições públicas oferecessem a seus cidadãos. Nós que nascemos com o nome de Terra de Santa Cruz, não poderemos mais mostrar a Cruz, porque a Cruz fere os Direitos Humanos. Há cinismo nesse governo que se benze com o Sinal da Cruz, mas a retira por ferir os Direitos Humanos.          Isto não acontece somente no Brasil. A comissão de justiça da União Européia mandou que a Itália retirasse das escolas e das repartições públicas as cruzes, porque uma senhora finlandesa se sentia ultrajada com símbolos e sinais religiosos. Não consideraram que aquela senhora finlandesa ofendia a cultura italiana, tão acostumada aos sinais religiosos nas escolas. Lá como aqui, o que está por trás é a mentalidade atéia e a intenção de banir a religião da sociedade, com a acusação que a religião fere os Direitos Humanos. É a investida da mentalidade cientificista e tecnologista que vê na ética e na moral, defendidas pelas religiões, um entrave para fazerem o que querem em nome da liberdade e do progresso científico. Esquecem que os Direitos Humanos, bem antes de assim se chamar, são contemplados em todos os Livros Sagrados.          É um assunto para ser pensado e para ser colocado em público, principalmente neste ano de eleição. — Por que um governo que vivia ao lado da Igreja agora pretende tirar sinais religiosos do meio do povo? Claro que se desculparão dizendo que a intenção não é esta e, arranjarão escusas e argumentos de toda sorte; mas, como demonstram os escândalos palacianos, é difícil crer e confiar no que dizem e no que fazem.              A liturgia deste último Domingo da Quaresma nos - convida a contemplar a face de Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor. Com a chegada de Jesus a Jerusalém e os acontecimentos da semana santa, chegamos ao fim do “caminho” começado na Galileia. Em Jerusalém, Jesus vai realizar o último ato do seu programa de vida e missão anunciado em Nazaré, que do seu amor afirmado até à morte, vai nascer o Reino de homens novos, livres, onde todos serão irmãos no amor; e, de Jerusalém, partirão as testemunhas de Jesus, a fim de que esse Reino se espalhe por toda a terra e seja acolhido no coração de todos os homens. A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida. Desde cedo, Jesus apercebeu-Se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar a Boa Nova aos pobres, sarar os corações feridos, pôr em liberdade os oprimidos. Para concretizar este projeto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham o coração mais disponível para acolher o Reino; e avisou os “ricos”, os poderosos, os instalados, de que o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte. O projeto libertador de Jesus entrou em choque – como era inevitável – com a atmosfera de egoísmo, de má vontade, de opressão que dominava o mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostos a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. Por isso, prenderam Jesus, julgaram-n’O, condenaram-n’O e pregaram-n’O na cruz. A morte de Jesus é a conseqüência lógica do anúncio do Reino: resultou das tensões e resistências que a proposta do “Reino” provocou entre os que dominavam este mundo.      Contemplar a cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias. Significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens. Significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição. O texto que ouvimos da Paixão de Jesus, narrado por São Lucas traz um fato interessante, que conclui minha reflexão. São Lucas demonstra que aquele que chamamos de Bom Ladrão foi capaz de entender o Mistério de Deus presente na Cruz de Jesus. Ele reconhece que Jesus era o justo e até mesmo reza para participar do Reino de Jesus. O Bom Ladrão assume a atitude religiosa do temor a Deus e assim respeita Jesus no momento de sua morte. É esta mesma atitude do Bom Ladrão, do temor a Deus e do respeito pela morte de Jesus, que o Evangelho recomenda a cada um de nós diante da Cruz de Jesus. A Cruz de Jesus não fere os direitos humanos e nem agride quem não comunga da mesma fé que nós. A Cruz de Jesus é a grande representação do Mistério de Deus, mas somente quem for capaz de considerá-lo com respeito e com devoção irá, pouco a pouco, compreendendo que ali se manifesta o amor divino em forma de doação plena para que todos sejamos salvos, para que todos tenhamos vida em abundância.
 
Viver feliz plenamente
VIVER COM DEUS PARA VIVER FELIZ PLENAMENTE Jr 17,5-8; 1Cor 15,12. 16-20; Lc 6,17.20-26   Nós vivemos em prol da felicidade. E por isso mesmo, podemos ir de decepção em decepção. Todas as criaturas, como nós, seres humanos, são submetidas à relatividade e, portanto, à imperfeição e à limitação. Mas, por outro lado, a Palavra de Deus nos convida à verdadeira felicidade. É patrimônio de quem confia no Senhor. A verdadeira felicidade se experimenta na pobreza, isto é, na abertura total do coração a Deus. Há que fundar, por isso, a vida no Absoluto, no Senhor. Quem funda a vida no Absoluto, no Senhor, nenhuma decepção da vida lhe defrauda. Deus não decepciona. As coisas relativas, com seu valor relativo, nunca são fundantes. É prudente, por isso, aquele que edifica sua casa sobre a rocha, sua vida sobre a Palavra de Deus (cf. Mt 7,24-25). O homem de fé aquilata a perspectiva exata da realidade.   O homem que cumpre a Palavra de Deus, verdadeira sabedoria da vida, consegue a autentica felicidade, tal como expressam Jeremias na primeira leitura e o Salmo responsorial: “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos... mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar” (Sl 1,1ss). Os livros sapienciais acentuam o valor da Palavra de Deus como fonte da felicidade humana. A pobreza interior, a humildade e a confiança no Senhor são o fundamento de uma vida autenticamente feliz.  Os hebreus, que entendiam o homem como uma unidade psicofísica, tinham uma concepção ampla da felicidade humana sem fazer uma cortante distinção entre a felicidade humana e a felicidade celestial. Ser feliz era, simplesmente, viver o mais intensamente possível segundo os mandamentos do Senhor.   Jesus recorre à velha temática do homem bíblico e praticamente inaugura sua pregação com um discurso cujo eixo central é a felicidade humana. Desde então ele mesmo se apresenta como fonte de felicidade para quem escuta sua Palavra, para quem crê nele, o segue e espera seu dia.   No entanto, a mensagem de Jesus rompe decididamente com os esquemas de felicidade do “mundo”: a felicidade não se cifra no poder, nem na riqueza ou no dinheiro e sim em uma conduta cuja essência é o serviço à comunidade para que todos vivam na fraternidade. Se um membro da comunidade não servir o outro, haverá espaço para a rivalidade, para as comparações injustas até para a inimizade. A eucaristia não é para os inimigos ou rivais e sim para os reconciliados (cf. Mt 5,23-24).   Por isso, o código de felicidade de Jesus é tremendamente paradoxal e ele mesmo em pessoa será o expoente dessa paradoxal felicidade: na morte de cruz encontrará sua vida plena de ressuscitado. Desde então, Jesus Cristo determina um ponto de vista novo e original que não somente consegue que o homem possa ter momentos de felicidade e sim que possa dar sentido para sua vida. Sem dar sentido à vida, não se pode falar da felicidade. Quem encontra o sentido da vida é feliz.   A Palavra de Deus neste dia nos coloca diante das propostas de Deus para nossa plena existência, por um lado, e a tendência ou a tentação para o egoísmo e a auto-suficiência que resultam na desorientação para nossa vida e nossa convivência com os demais, por outro lado.   O profeta Jeremias, na primeira leitura, fala dos auto-suficientes e que como tais prescindem de Deus (Jr 17,5-8). Eles olham para a vida somente no seu aspecto material. Adoram as coisas e esquecem-se do Criador das coisas. Por isso, o profeta Jeremias nos recorda que prescindir de Deus significa morte e a perda da felicidade plena e eterna. Mas aqueles que confiam em Deus experimentarão a ressurreição, vida que não acaba com a morte, como enfatiza São Paulo na segunda leitura (1Cor 15,12. 16-20). Por esta razão é que Jesus proclama “felizes” àqueles que vivem sua vida de acordo com os valores propostos por Deus: viver na simplicidade, na humildade, na justiça, na solidariedade, na honestidade, na caridade, na verdade e assim por diante. E Jesus proclama infelizes os que constroem a vida sobre o egoísmo, a arrogância e a auto-suficiência (Lc 6,17. 20-26).   As bem-aventuranças resumem, na verdade, o ensinamento de Jesus e o sentido de sua vida. E por isso também elas são a explicação do que significa ser cristão. As bem-aventuranças contrastam com os valores limitados que estão em uso nas sociedades humanas. As bem-aventuranças nos descobrem que a vida dos homens tem uma dimensão escondida que não pode ser descoberta por aquele que vive unicamente para si mesmo, pois requer um vasto horizonte. As bem-aventuranças pontualizam atitudes humanas fundamentais, o caminho para construir o Reino de Deus, o caminho da nova humanidade. São um programa completa de vida dos que querem de verdade ser seguidores de Cristo. Para construir seu Reino Deus atua nos pobres, nos que tem fome de justiça, nos que choram para defender sua dignidade, nos perseguidos por ser solidários.   Mas é importante observar que o que se declara bem-aventurado são as pessoas e não as situações. A observação é importante porque isto significa que as bem-aventuranças não convalidam ou consagram situações sociológicas de injustiça e de dor por falta de respeito pela dignidade humana. As bem-aventuranças não estão de acordo com a alienação, a miséria ou a marginalização. Quem favorece ou consciente a fome, a incultura, a injustiça, a mentira, a opressão e assim por diante, não é cristão. Jesus não dá felicitação àqueles que não são respeitados em sua dignidade humana, porque isso é uma injustiça. As bem-aventuranças estão nas antípodas de pretender a construção de uma sociedade injusta. São bem-aventurados os que lutam por uma sociedade melhor para todos e por isso, tem que sofrer.   E Lucas completa as bem-aventuranças com umas maldiçoes com as quais nos alerta a não pormos o coração nos prazeres sem limites, nos poderes e na dominação pela riqueza, pois tudo isto cega o homem.   Quem são os ricos, os saciados (os que têm fartura), os que riem, os que buscam apenas os elogios para os quais Jesus lança os ais ou para os quais Jesus proclama infelizes no evangelho deste dia?   São os que colocam seu coração em si mesmos e em suas coisas, os que vivem em função de seu prestigio e de seu ego. São os que não têm necessidade de nada, nem de Deus, ainda que falem d’Ele, porque têm “tudo”. Os que só pensam em ser mais importantes do resto. Os que não temem nada porque crêem que com o dinheiro podem resolver “tudo”, mas que se esquecem de que diante do leito da morte riqueza nenhuma tem poder de solução, pois com o dinheiro alguém pode comprar tudo menos a vida eterna. São os que dão daquilo que lhes sobra; os que guardam as aparências por medo ao que os outros dizem, são os que pertencem a uma religião ou crença, mas vivem sem nenhum compromisso com a vida. Em outras palavras, são os que têm horizonte muito vulnerável, reduzido e de precária realidade; horizonte curto como curta é a vida do homem sobre a terra. Uma pessoa, que contempla todas as coisas deste mundo, fechada à transcendência não tem nada mais no futuro do que a morte eterna. Ai radica a imensa tragédia do homem fechado ao infinito e à plenitude.   Nestas respostas inclui qualquer um de nós e por isso, estas respostas servem para qualquer um de nós refletir sobre como vive sua vida na sua relativa curta duração sobre a terra. Quais são os caminhos que escolhemos na vida para saber aonde chegaremos. Escolher o caminho é escolher o endereço. O endereço determina o caminho que devemos escolher para ser trilhado. O endereço nos faz caminho certo, mesmo que fiquemos perdidos momentaneamente, mas o endereço fica na nossa memória que nos faz voltarmos para o caminho certo a fim de chegarmos ao endereço desejado e sonhado.   A palavra de Deus é o próprio caminho para chegar à felicidade plena. Basta lê-la e meditá-la diariamente para orientar nossa conduta de cada dia. “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos... mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar”. Esta é a mensagem que devemos guardar. A felicidade radica em um constante crescimento, no desenvolvimento da liberdade, da justiça, do amor, mas em um processo de luta, de morte do egoísmo, de perpétua mudança interior, de revisão constante de si mesmo.                   
 
Chamados Por Cristo a Salvar a Humanidade Toda
CHAMADOS POR CRISTO A SALVAR A HUMANIDADE TODALc 5,1-11(Is 6,1-2a.3-8; 1Cor 15,1-11)                A primeira leitura e o evangelho de hoje, narram duas vocações: a de Isaías, escolhido para ser profeta e a dos apóstolos, transformados por Cristo em pescadores de homens. Isaías, quando ouviu a voz do Senhor, teve a nítida e profunda percepção da própria fraqueza. Como poderiam os seus lábios impuros falar em nome de Deus? Pedro chamado por Jesus para ser pescadores de homens, sentiu-se, como Isaías, indigno e pecador diante da pesca milagrosa. Contudo, Deus quis servir-se deles para cumprir e realizar a sua missão.          A pesca milagrosa e a vocação dos primeiros discípulos, que o texto do evangelho de hoje nos relatou, fazem parte da atividade de Jesus na Galiléia. Meditemos apenas alguns pontos deste relato, pois a Palavra de Deus é densa de conteúdo para ser meditada em poucas linhas e palavras.   1. Todos são alcançados pela Palavra de Deus          Jesus não ensina mais na sinagoga, como fez até agora, mas proclama a Palavra de Deus no ar livre. Se na sinagoga os leprosos e outros doentes graves, os impuros não podem entrar, aqui, no ar livre, eles podem ter o acesso à Palavra de Deus para escutar e meditá-la. Neste lugar eles podem encontrar-se com Deus e Deus encontra-se com eles. E certamente Deus quer encontrar as pessoas no seu próprio lugar, ali onde se encontram, numa situação comum, honesta ou honraria ou numa situação desonrada e moralmente difícil para fortalecê-los. Jesus vai de um ao outro e os chama, porque ele quer libertá-los, pois ele os ama. Quando Deus se aproxima do homem é para salvá-lo. Não há outro objetivo. Conseqüentemente quando um seguidor de Jesus se aproximar dos outros é para transformá-los em irmãos, e não para explorá-los.            Além disso, o anúncio da Palavra de Deus, conforme o Evangelho deste domingo, não acontece no contexto da liturgia do Sábado, mas no decurso de um dia da semana, quando os homens dedicam ao próprio trabalho, quando estão suando para ganhar o próprio sustento. Isto significa que Deus nos acompanha no nosso dia-a-dia, pois ele é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20b). Além disso, a Palavra de Deus não pode ser circunscrita apenas aos ambientes e lugares sagrados. Ela deve ser proclamada em todos os lugares, mesmo os que consideramos profanos, pois a Palavra de Deus ilumina, inspira, transforma e orienta todas as atividades humanas. A Palavra de Deus deve ser critério de nossa conduta e de nosso agir diariamente, independentemente das circunstâncias em que vivemos e trabalhamos. Quando a Palavra de Deus se tornar carne e sangue em nós, seremos modelados totalmente por Cristo a fim de sentirmos o que Jesus sentia e fazermos o que Jesus fazia, a exemplo de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Deus é aquele que põe Seu coração em nossa pequenez para nos engrandecer e para que possamos engrandecer os outros: “De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10).   2. Deus vem para renovar nossas forças e nosso ânimo.          A vida é bela, pois ela é o maior de todos os dons que o ser humano recebeu de Deus. Os outros dons existem em conseqüência do dom da vida. Mas muitas vezes não nos comportamos bem diante da vida que nos torna cruz para nós mesmos e para os outros. Mesmo assim Deus não quer que fiquemos desanimados diante do nosso fracasso, pois Deus continua nos dando chances para concertarmos o que faltou. Acertamos ou não a finalidade desta vida, Deus nunca nos despoja das dificuldades e dores, mas em troca Ele nos dá força e coragem para recomeçar e para crescer. Sofrimento e alegria são companheiros freqüentes de quem persevera no caminho do crescimento. Aquele que quer crescer continuamente tem coragem e humildade de abandonar o que se passou para apreciar o que o dia de hoje (Deus) lhe tem a oferecer. O caminho do crescimento é sempre um êxodo, uma saída de si mesmo a um algo novo mais rico do que antes.          Pedro é especialista na pescaria, mas frustrado pelo insucesso da noite inteira. Jesus não é pescador, mas é o Criador das coisas (Jo 1,1ss). Ele disse a Pedro: “Avança para as águas mais profundas e lança redes para a pesca” (v.4). No momento de frustração Pedro precisa escutar a Palavra de Deus. Certamente, o fundamento de todo apostolado é “a fé que nasce daquilo que se escuta” (Rm 10,17). Escutar é abrir-se a alguma coisa que vem de fora, algo que pode, inicialmente, parecer estranho ou perturbar nossa maneira de pensar, mas, ao longo prazo, provocar mudanças radicais em nós. Por isso, uma verdadeira escuta exige humilde coragem. Precisamos escutar a Palavra de Deus, pois ela é mais do que a expressão de um pensamento ou de um sentimento; ela é Vida. A Palavra de Deus é sopro de vida (cf. Sl 32,6). Ela tem o poder de tocar os corações e de curá-los (cf. Lc 4,32; 6,19).          Simão Pedro, especialista na pescaria, que até então não conhecia bem quem era Jesus, respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos” (v.5). Como se ele quisesse dizer a Jesus: “Não adianta Mestre! Se durante a noite não pescamos nada, imagine durante o dia!” Mas Pedro se esquece de que Jesus é a Luz do mundo que ilumina tudo (cf. Jo 8,12; 1,4-5.9). Simão Pedro precisa trabalhar com a ajuda da luz divina para não sofrer a frustração. Simão Pedro é convidado a pôr em jogo a própria pessoa, a própria vida e o próprio futuro confiando apenas na Palavra de Deus. Apesar de todas as objeções que um profissional poderia levantar contra ela, a Palavra de Jesus tem mais força para Simão Pedro do que sua longa experiência de pescador. Simão Pedro é convidado a superar a própria desconfiança. A palavra de Deus é poderosa, mas é preciso que seja posta em prática para que desenvolva sua força.          Simão Pedro cumpre a palavra de Jesus imediatamente: “Na tua palavra lançarei a rede” (v.5). Notemos quanto há de profundo neste “na tua palavra” porque é a expressão que, na Bíblia, especialmente nos Salmos, designa a atitude de fé do homem diante de Deus. “Confio na Tua Palavra, é Tua Palavra que me dá vida, Senhor”. Simão Pedro sai dos próprios cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. De fato, o fruto desta obediência incondicional, desta fé na Palavra do Senhor é o milagre da pesca no pleno dia. O poder da Palavra de Deus se manifesta para quem lhe obedece. O poder da Palavra de Deus se manifesta em nós a partir do momento em que nós lhe obedecemos, pois toda força, todo poder vem de Deus. Certamente, na força da Palavra de Deus e na obediência a ela, os apóstolos encontram a vida ali onde tudo parecia morto; messe abundante onde tudo parecia vazio; abertura onde tudo parecia fechado. Com Deus podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça ou amor onde outros dizem que não adianta tentar, podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única lei que funciona. É a lição da pesca milagrosa.          Jesus nunca permite o aborrecimento pelo insucesso no nosso trabalho. Não cabe a cada um de nós calcularmos o último resultado. Cada um deve trabalhar empenhar-se todo, confiando unicamente na Palavra do Senhor. Empenhar-se significa dar tudo, experimentar tudo, estudar, corrigir, mudar, procurar ser melhor cada dia e recomeçar. Nós somos aquilo que somos e aquilo que nos falta. Por mais que cada um tente ser melhor, mesmo assim sempre falta algo na nossa vida. Nunca chegaremos à maturidade completa nesta terra; estamos sempre em processo de amadurecimento. Somos convidados para o algo mais de nossa existência. É permitir dar um passo adiante no próprio caminho existencial. Porém, a eficácia de nossa ação está na obediência à Palavra de Deus. Se agirmos em nome próprio, nossos esforços serão estéreis. A Palavra de Deus é a semente que tem em si uma força criadora, uma potência enorme, no entanto, precisamos vivê-la no nosso dia a dia.    Observação: Vamos rezar pelos nossos sacerdotes (ano sacerdotal). Oração Pelos Padres e Bispos                                                                             Senhor Deus e Pai, nossa Igreja está promovendo, desde julho de 2009, um ano Sacerdotal. Temos rezado e refletido sobre a vida e o ministério dos padres e bispos. Suplicamos-vos Deus para eles a graça de uma frutuosa renovação interior a fim de que possam manter-se fieis, segundo a fidelidade do próprio Cristo, vosso Filho.  Obrigado Senhor, pelos sacerdotes, por suas fadigas, por seu serviço incansável, por sua caridade. Daí força aos sacerdotes idosos, doentes, ofendidos ou perseguidos. Que eles não desanimem. Daí-nos, oh Deus bondoso, mais sacerdotes santos. Amem.    
 
AQUELE QUE VEM PARA SALVAR POR AMOR É REJEITADO
AQUELE QUE VEM PARA SALVAR POR AMOR É REJEITADO REVER O NOSSO CAMINHAR COMO CRISTÃOS Lc 4,21-30(Jr 1,4-5.17-19; 1Cor 12,31-13,13)              O texto do evangelho deste domingo é a continuação do evangelho do domingo anterior. Estamos ainda no discurso programático de Jesus em Nazaré e as reações diante do mesmo. Coloco aqui apenas alguns pontos do texto para nossa reflexão.   1. A atualidade da Salvação: Jesus está presente no hoje            Depois que Jesus fez a leitura do livro do profeta Isaías que contém promessa de salvação para o povo (Is 61,1-2a), Jesus diz: “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. O advérbio “hoje” (sèmeron) é usado aqui para enfatizar a atualidade da salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo. Este termo é encontrado também em outras partes do evangelho de Lucas. No nascimento de Jesus, o anjo diz aos pastores: “... Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,11). Na última etapa da sua subida a Jerusalém, Jesus diz a Zaqueu: “Zaqueu, desce depressa. Hoje eu devo ficar na tua casa” (Lc 19,5). E no fim da visita onde se relata a conversão de Zaqueu, Jesus diz: “Hoje a salvação entrou nesta casa...” (Lc 19,9). E pouco antes de morrer, a penúltima palavra dita por Jesus na cruz foi a que disse a um dos dois criminosos crucificados ao lado de Jesus: “Hoje tu estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).          Palavra característica da soteriologia lucana “hoje” significa que a profecia de Isaías se torna realidade: aquele de quem falava outrora o profeta chegou. Ele está ai e, com ele, começou o Reino de Deus. Os últimos tempos da história da salvação estão abertos, inaugurados oficialmente pela vinda de Jesus a Nazaré. É um “hoje” de Deus no tempo humano, isto é, um momento excepcional de “graça” (kairos) no desenrolar-se da história dos homens (kronos), um momento decisivo na história da salvação. Por isso, “hoje” não tem dimensão puramente cronológica. Dizer que “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura...” não somente significa que uma antiga promessa se cumpre ou que um texto toma vulto repentinamente, mas, sobretudo, que a humanidade encontrou Deus em Jesus Cristo. Ele é o Emanuel, Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Ele é o Messias, Palavra do Deus vivo. Para acolher a Palavra do Deus vivo e deixar-se modelar por ela, importa apenas seguir Jesus, pois ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Jesus é o único caminho que pode fazer o homem chegar à sua verdadeira dignidade.          “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Lucas lê sempre a Escritura na dimensão do presente e desta maneira a atualiza. Segundo Lucas, não podemos ler o Evangelho como se fosse uma coisa do passado. Temos que lê-lo na fé. A leitura da Palavra de Deus na fé significa escutar a Deus que nos diz: “Hoje...”. Deus não se situa nem no passado nem no futuro. Ele nos chama hoje e hoje nos salva. E o Hoje de Deus está cheio de força e de conteúdo particular, pois ele nos chama à salvação. Com efeito, o Evangelho não é uma expressão bela que se fica no ar e sim é uma chamada à vida, e à transformação do coração. Por isso, é um Hoje que define nosso tipo de existência; portanto, é um Hoje no qual encontramos nossa identidade. É o Hoje de um nascimento como pessoas e como comunidades responsáveis. A Palavra de Deus é o critério que estabelece o limite, o alcance, o sentido e o objetivo de nosso fazer. Por isso, precisamos escutá-la no nosso hoje, pois, segundo São Paulo, para podermos anunciá-la, precisamos escutá-la primeiro (cf. Rm 10,14-16).   2. Hoje Ele vem nos mostrar o caminho do amor          Jesus Cristo é o amor encarnado do Pai. Ele vem para realizar a missão do amor. São João expressa muito bem este pensamento ao dizer: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8. 16). Jesus foi enviado para ensinar a humanidade a amar com palavras, gestos e ações concretas. Tudo que Jesus diz e faz na Bíblia é movido por um amor desinteressado. Se ele cura é curar por amor. Se ele perdoa é perdoar por amor. Se Ele chama atenção com palavras duras é movido por amor. Se ele liberta os cativos é libertá-los por amor e para o amor (cf. Lc 4,18-19).          Se tudo que Jesus Cristo, nosso Mestre, disse e fez era movido por amor, conseqüentemente todos os seus seguidores devem viver a mesma missão: fazer e dizer tudo por um amor desinteressado. O amor cristão é sempre um amor que procura o bem do outro por pura gratuidade a exemplo de Cristo. O amor desinteressado, segundo São Paulo (1Cor 13,1-13), é a essência da experiência cristã. Por isso, ele repete como refrão esta frase: “Se não tivesse caridade, eu não seria nada” (1Cor 13,1-3) O amor gratuito faz nascer uma comunidade de irmãos e une seus membros. O amor gratuito é o único capaz de acabar com ciúmes, rivalidades egoístas, e lutas de interesses. Na medida em que o nosso viver não é/não for amor, trairemos a nossa própria fé, atentaremos contra a nossa própria essência ou nosso próprio ser. Para um cristão viver sem amor é um “suicídio” contra a vida cristã. É recusar Jesus, o Amor Encarnado do Pai que faz tudo por nós até aceitar ser crucificado por amor.          O amor gratuito, o amor cristão é a única coisa perfeita e por isso, permanece para sempre: “As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá, pois o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. Mas a caridade não acabará nunca” (1Cor 13,8-9). Por isso, se praticarmos a caridade como estilo de vida, então, estaremos vivendo a eternidade já aqui neste mundo. O amor gratuito vivido na sua profundidade nos dá capacidade de penetrar na essência das coisas para tirar delas o seu sentido. O grande milagre que se espera dos cristãos e de pessoas de boa vontade é caridade. Além disso, nós cristãos somos chamados a reconhecer e a nos alegrar de tantos sinais de bondade que encontramos entre os homens, independentemente de sua crença, entre aqueles que não pensam como nós, porque toda esta bondade é um sinal de que Deus opera neles a salvação e, conseqüentemente somos chamados a dar graças a Deus por esta bondade.   3. A Presença Salvífica Baseada no Amor é Recusada: Um Deus que busca os homens comprometidos com Sua causa            O caminho de amor oferecido por Deus em Jesus Cristo foi recusado pelos nazarenos. Eles querem somente um Deus milagreiro.          O evangelho da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2) registra respostas e reações diferentes de pessoas diante do mistério e da experiência da Encarnação. João Batista ainda no ventre de sua mãe, Isabel, pulou e dançou de alegria no encontro com Jesus que estava no ventre de Maria (Lc 1,44). Os pastores e os magos adoraram e prestaram homenagem ao recém-nascido, Jesus Cristo (Lc 2,8-20; Mt 2,1-12). O velho Simeão e a profetisa Ana encontraram o menino Jesus e o chamaram de Redentor e profetizaram sobre ele (Lc 2,22-38). Mas Herodes e sua corte tremeram de medo diante das notícias do nascimento de Jesus e planejaram matar a criança (Mt 2,13-23). As mais espantosas e dramáticas reações diante da Encarnação partiram dos próprios conterrâneos de Jesus, os nazarenos. O evangelista João, no prólogo do seu evangelho, resume de maneira precisa essas reações negativas ao dizer: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Mas a todos aqueles que O receberam, aos que crêem em seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,11-12).          Em Nazaré Jesus coloca seu programa de ação, no qual coloca os menos favorecidos em primeiro lugar (cf. Lc 4,18-19). Jesus quer mostrar o caminho de amor, único capaz de transformar todos em irmãos, mas os nazarenos não aceitam esse caminho. Os nazarenos esperavam um messias espetacular e poderoso capaz de ações mágicas e miraculosas. Eles queriam apenas milagres. Eles querem somente um Deus milagreiro. Os nazarenos querem que Jesus faça milagres em sua terra: “Faz também aqui na terra o que ouvimos falar que fizestes em Cafarnaum”. Esta é a atitude de quem procura Jesus para ver o seu espetáculo ou para resolver os seus probleminhas pessoais, sem se comprometer com a causa de Jesus. Mas Jesus se recusa a ser ídolo de abundância, do prestígio, do poder e da riqueza (cf. Lc 4,1-12), pois como diz São Paulo: “Tudo cessará” (cf. 1Cor 13,1ss). Ele não é um exibicionista que esteja querendo se afirmar para ganhar prestígio. Em Nazaré ele não faz milagres porque os nazarenos não reconhecem a pessoa que ele é.          Os nazarenos julgam conhecer Jesus porque o viram crescer no meio deles, sabem identificar a sua família e os seus amigos, mas eles não perceberam a profundidade do seu mistério. Eles são incapazes de ver no aspecto cotidiano da vida a presença de Deus no meio deles. Trata-se de um conhecimento superficial, teórico que não leva a uma verdadeira adesão à proposta de Jesus.          A partir deste pensamento precisamos responder as seguintes perguntas: O que motiva você a procurar Jesus? Você lida com Jesus todos os dias, fala alguns minutos diariamente com ele e sobre ele. Mas, será que a proposta de Jesus tem impacto em você e transforma a sua existência? Que tipo de Deus em quem você supostamente acredita: Um Deus de quem você espera espetáculo em seu favor, ou um Deus que em Jesus Cristo o apresenta uma proposta séria de salvação que é preciso concretizar na sua vida de cada dia?   4. O profeta vive de olhos postos em Deus e na realidade vivida no momento          ”Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24), diz Jesus. As palavras de Jesus aqui e em 13,34 refletem uma tradição judaica segundo a qual Israel de rotina rejeitava e perseguia os profetas (2Cr 36,15-16; Sl 78; 105; 106; Lm 4,13; At 7,51-53).          No AT os profetas se apresentam como guias espirituais suscitados por Deus para levar o povo à fidelidade à aliança. A vocação de um profeta é um encontro com Deus e com Sua Palavra (cf. Jr 1,4). A Palavra de Deus marca a vida do profeta e passa a ser a única coisa decisiva na sua vida. O profeta é aquele que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo. É uma pessoa atenta diante de Deus e do mundo. Por isso, um profeta é jamais uma pessoa isolada de Deus nem dos acontecimentos do mundo. Ele vive em comunhão com Deus e intui o projeto que Deus tem para o mundo e confronta esse projeto com a realidade dos homens. Sua função é além de anunciar a Palavra de Deus, também despertar a consciência do povo de que estão sendo infiéis do caminho de Deus. Se o profeta se dirige ao povo infiel, sua primeira palavra será de denúncia.  O profeta se distancia da situação e abre os olhos para a verdade do momento. E sendo extremamente fiel à aliança feita outrora com Deus, o profeta é profundamente inovador, pois transmite a palavra do Deus vivo e exige a transformação. A denúncia profética implica a perseguição, o sofrimento, a marginalização e muitas vezes, a própria morte. Por isso, ele é mais facilmente aceito por quem está fora do sistema vigente. Ele nunca é um personagem aplaudido e elogiado pelas multidões, e menos ainda pelos que retém em suas mãos o poder, porque o profeta contempla o mundo com os olhos de Deus.            Jesus é o Messias – profeta, e morreu por ter sido como Messias - profeta. Cada cristão é um profeta, uma função que ele recebeu no batismo, pois Jesus desempenhou também o papel profético. Temos consciência desta vocação? Temos coragem de orientar e de corrigir e de aceitar a orientação e a correção dos outros?  Temos medo de dizer a verdade e temos a coragem de aceitar a verdade? Muitos sabem que estão errados, mas querem defender seus erros por causa dos seus interesses ou vantagens pessoais. Mas diante de Deus a verdade triunfa e por isso, a verdade nos libertará.        
 
Festa de Bodas de Caná e seu sentido
FESTA DE BODAS EM CANÁ E SEU SENTIDO                                                                                                                        Jo 2,1-11          O texto do evangelho deste domingo é rico demais para poder se falar em poucas páginas. Por esta razão nesta reflexão encontram-se apenas alguns pontos da riqueza do texto.   1. O Evangelho que nos ensina a irmos além das aparências          O evangelho de João foi escrito em torno dos anos 90-100. Por isso, evangelista João é o autor mais tardio do NT. Por essa razão, ele oferece à Igreja uma das reflexões mais maduras sobre a pessoa e as obras do Senhor. Precisamos, portanto, prestar bastante atenção para os detalhes de cada relato no seu evangelho.          O evangelista João jamais emprega a palavra milagre (dýnamis, grego: ato de poder e de força) que aparece com muita freqüência nos sinóticos. Em vez disso, ele usa o termo “sinal” (seméion, grego. Cf. Jo 2,1-11; 4,46-54; 5,1-9; 6,1-15; 6,16-21; 9,1-41; 11,1-44). Este termo pertence ao vocabulário técnico do quarto evangelho, onde aparece 17 vezes, sobretudo na primeira metade. Em João, “sinal” é ação/obra realizada por Jesus que, sendo visível, leva por si ao conhecimento de realidade superior. O “sinal” remete a outra coisa, designa um acontecimento que não pertence ao mundo empírico. O “sinal” visa a outra realidade além de si mesmo. Os “sinais joaninos”, porém, não somente apontam para uma realidade que está além da coisa ou acontecimento visível, mas contém já em si mesmos a realidade significada. Eles são, de certo modo, uma manifestação da “glória” de Jesus.  Este termo joanino inclui sempre dois aspectos: demonstrativo, o sinal suscita a fé dos discípulos em Jesus (cf. Jo 2,11b; 4,53b; 6,14; 9,33. 35-37; 11,45) e expressivo, ele manifesta a glória daquele que o opera.          Por estar cheio de sinais e por ser tão profundo, o quarto evangelho é considerado como evangelho para os cristãos maduros. E para esse evangelho um dos sinais da maturidade é a capacidade de ir além das aparências para descobrir seu verdadeiro significado. A capacidade de penetrar na essência das coisas ou dos acontecimentos nos evita qualquer precipitação nas nossas conclusões e nos nossos julgamentos e pré-julgamentos sobre os outros ou acontecimentos.  A capacidade de penetrar na essência das coisas e acontecimentos freia nosso olhar crítico e nos veste de paciência, de compreensão e de olhar de Deus. A precipitação é o inimigo da perfeição e do amor. Quantas vezes erramos ou complicamos a nossa vida e a dos outros por causa de nossa incapacidade de frear nossos julgamentos e pré-julgamentos. Poderíamos evitar tantas desgraças na nossa vida, se soubéssemos aprender a fazer uma leitura fria, sob a luz divina, dos acontecimentos. Se ficarmos apenas nas aparências, provavelmente somos ainda pessoas superficiais, incapazes de mergulhar na profundeza dos acontecimentos, no seu significado.  O quarto evangelho quer nos dizer: “Antes de sua decisão, de seu julgamento, peça a Deus para que você possa captar o significado de todos os sinais de Deus na sua vida e na vida dos outros. Somente assim você o irmão dos outros”.    2. O nosso Deus é aquele nos mostra logo a vitória final          O texto diz: “No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galiléia” (v.1). Precisamos entender o sentido do “terceiro dia” neste texto.         A expressão “no terceiro dia” não funciona apenas para ligar a nova cena a cena anterior, mas para o evangelista é muito mais do que isso. O “terceiro dia” aqui está relacionado também com o “terceiro dia” da Ressurreição de Cristo (veja Jo 2,19-22 em que Jesus usará a expressão “em três dias” = “terceiro dia” para falar de sua Ressurreição; cf. também 1 Cor 15,3-4). O sentido da ressurreição do “terceiro dia” está relacionado com a “Hora de Jesus”: “Mulher... a minha hora ainda não chegou” (v.4). A “Hora de Jesus” para o quarto evangelho designa, como uma realidade única, paixão-morte-ressurreição de Cristo (para ter mais informações detalhadas sobre o sentido da expressão “no terceiro dia”, leia: Maria em Caná e Junto à Cruz, de A. M. Serra, da ed. Paulinas [antiga), uma obra traduzida de italiano: Maria a Cana e Presso La Croce).          O evangelista João faz uma ligação entre o primeiro sinal de Jesus e sua ressurreição. Jesus começa sua atividade para mostrar logo o fim vitorioso: seu mistério pascal entendido com paixão-morte-ressurreição de Cristo. Desde o início Jesus até o fim Jesus mostra a sua vontade à vontade de Pai e por isso, terminará com a ressurreição- glorificação.          Tudo isto quer nos dizer que precisamos experimentar, em todos os momentos de nossa vida, a presença de Jesus ressuscitado em nossa vida. Experimentar o poder e a força da ressurreição significa ter força mais do que suficiente para encarar a “falta de vinho”, aquilo que nos dá alegria para viver como filhos e filhas de Deus. Para isso, precisamos ser fiéis ou ser justos até o fim a exemplo de Jesus Cristo para merecermos um dia a glorificação.   3. O nosso Deus é Aquele que nos plenifica com seu amor           O primeiro sinal de Jesus acontece num casamento/bodas. Não se pode falar de um casamento sem se falar do amor e da fidelidade. Na linguagem bíblica, o casamento é símbolo da aliança com Deus, sublinhando a relação de amor e fidelidade entre Deus e o povo (Is 49,14-26; 54,48; 62,4-5; Jr 2; Ez 16). A eleição do povo e a aliança foram expressão do amor de Deus por ele (Dt 4,37; 7,7s; 10,15).  Os profetas usaram muitas vezes a imagem de casamento para falar do amor mútuo entre Deus e Israel (Is 62,4-5; Os 2,18-22). Portanto, o casamento em Caná é simbólico. O verdadeiro esposo da humanidade é Jesus (3,29). E toda a Igreja é uma esposa.          Nas bodas de Caná “estava ali a mãe de Jesus”. Para o evangelista João, a figura da mãe de Jesus é central, pois a partir dela é que a atenção se projetará sobre Jesus. A manifestação da glória de Cristo passa através da mãe. (No evangelho de João a mãe de Jesus aparece somente duas vezes, mas nos momentos mais importantes. Em primeiro lugar, Maria atua na realização do primeiro sinal de Jesus, no momento em que Jesus inaugura sua missão pública(Jo 2,1-11). Em segundo lugar, Maria permanece ao pé da cruz, no momento da morte de Jesus, no final de sua missão nesse mundo(cf. Jo 19,25-27). O evangelista João quer nos dizer que Maria tem um lugar especial no seu evangelho, pois ela se faz presente nos momentos mais importantes da vida e da missão de Jesus. Tudo que se prefigura no primeiro sinal se cumpre na cena da mãe de Jesus ao lado da cruz).            Nessa festa a Mãe de Jesus percebe a falta de vinho. O vinho, na Bíblia, simboliza o amor (cf. Ct 1,2; 7,10; 8,2). A antiga aliança, portanto, não tem mais sentido, pois o amor foi substituído pela Lei. Os seis enormes potes de pedra que serviam para os ritos de purificação (v.6) representam a falta de amor na relação com Deus. Além disso, estão vazios, ou seja, não têm mais nada a dar.          “Eles não têm mais vinho”, são as palavras da Maria dirigidas ao seu Filho, Jesus Cristo. A expressão é semelhante à expressão usada pelos apóstolos antes do milagre da multiplicação dos pães: “Eles não têm mais nada para comer” (cf. Mc 8,2; Mt 15,32; Jo 6,1ss).           Quem são “eles” neste contexto?  São aqueles que basearam a relação com Deus numa série de regras, tornando-a fria e paralisada. Ama menos quem se preocupa somente com a regra. Todas as leis devem submeter-se à Lei maior que é o Amor (cf. Jo 15,12). O amor é o vinho da nova e definitiva aliança. Os dirigentes judeus vão responder ao amor pregando Jesus na cruz. Mas o amor é mais forte que a morte. O ódio é vencido em seu próprio terreno por amor.          “Eles não têm mais vinho”. O vinho era essencial para as bodas na época.  Por isso, a expressão, “Eles não têm mais vinho” expressa a carência do essencial na vida do homem que cria o mal-estar e desorientação ou confusão. Quando perdermos o essencial na nossa vida ou quando não vivermos mais de acordo com aquilo que é essencial para uma vida digna de um ser humano, aquilo que dá sentido para nossa vida, o resultado só pode ser uma desorientação total e uma complicação para nossa própria vida e a daqueles com quem convivemos.          Diante da carência do vinho, essencial para as festas, Jesus transforma a água em vinho. Se o vinho simboliza o amor que é essencial na vida de um ser humano, isto quer nos dizer que Jesus é Aquele que transforma os homens da lei, que costumam usar a linguagem de julgamento e de condenação, em homens de amor, dos cumpridores das regras em homens enamorados. No evangelho de João Jesus é apresentado como aquele que coloca o serviço de amor como sua missão essencial: “... sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Por isso, o maior mandamento que Jesus deixou é amor: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus nos revelou através de sua vida que a missão de cada cristão não é outra a não ser uma ativação desse amor único à escala da humanidade. O amor é essencial na Igreja, nos grupos, nas pastorais e nos movimentos, já que sem amor não existiria a Igreja e outros grupos. Se o vinho da nova e definitiva aliança é o amor, a missão de cada cristão deve ser como serviço do amor. O amor é essencial à Igreja porque, sem o amor, a Igreja seria nada (cf. 1Cor 13,1ss).   4. É preciso viver aquilo que Jesus ensinou para ter uma vida em abundância             “Fazei tudo o que ele vos disser”, são palavras da Mãe de Jesus aos servidores da festa do casamento em Caná. Como se Maria quisesse lhes dizer: “Vocês querem que aconteçam os milagres na sua vida? Observem, então, as palavras de Jesus! Não tenham medo de fazer aquilo que Jesus manda fazer!”. Pela sua atitude e pelas suas palavras, Maria é modelo para todos os que fazem parte do novo Povo de Deus. Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem o que Deus lhe pede. A perfeita discípula e seguidora de Jesus se torna mestra e guia dos cristãos. Sua frase continua atual. Ela continua nos dizendo hoje: “Vale a pena buscar a vontade de Jesus, ouvir suas palavras e tomar atitudes concretas para que a vida de vocês se torne uma vida feliz e alegre, pois Deus estará sempre ao seu lado”. Maria estimula os seguidores de Jesus a realizarem a vontade de Jesus. Ela ajuda os seguidores a terem fé em Jesus e ficarem junto dele.       Sobre tantos cristãos consagrados no sacramento do matrimônio, sobre tantos religiosos que já perderam o ardor da primeira vocação, sobre tantos sacerdotes que já esqueceram o santo estremecer do dia do chamado por Cristo, sobre tantos casais que não sentem mais o sabor da vida conjugal, precisamos pedir a Maria que interceda por nós todos para que cada vocação, cada profissão seja vivida no amor e com amor.          Revivendo hoje o momento em que o Filho de Deus transforma a água em vinho, precisamos estar conscientes de uma das mais exaltantes mensagens do cristianismo é a mensagem de alegria. Temos que proclamar as razões da alegria, não da tristeza; temos que apontar os motivos do otimismo, não do pessimismo; temos que promover a vida, não a morte; temos que usar a linguagem de amor, não a do julgamento e da condenação. A alegria deveria ser característica de quem vive na fé e caminha para o Reino de Deus. É claro que a fé não nos põe a salvo do sofrimento e dos vários motivos de tristeza. Contudo, é preciso deixar transparecer a certeza de que toda nossa dor se transformará em alegria, pois Deus nos ama. É o testemunho que o mundo espera de nós.  
 
Viver o presente com a lição do passado.
VIVER O PRESENTE COM A LIÇÃO DO PASSADO CRIANDO UM FUTURO MELHOR 1Jo 2, 18-21; Jo 1, 1-18            Hoje é o ultimo dia do ano no calendário civil. E o evangelho nos mostra Jesus como ponto de referência único da história. Hoje podemos falar de que todo nosso tempo, na vida humana e na fé, tem um único centro e critério: Jesus.          O evangelho nos convida a contemplar este Jesus: nele está toda a graça e o amor de Deus por cada um de nós. Podemos dar graças pelo ano que está terminando, pela salvação que Deus nos dá continuamente; e pedir perdão por tudo que é “anticristo” em nós: somos anticristos, se tivermos critérios de “mentira”, critérios que não são os de Jesus.          Neste último dia do ano, nós como cristãos devemos viver esta mudança de ano a partir de uma triple atitude:          (1). A primeira atitude é a de ação de graças pela vida. Finalizamos mais um ano de nossa vida. E a vida é um dom e uma dádiva de Deus pela qual devemos dar graças. Muitas vezes nos faz falta a vivência de sentir nossa própria vida como uma dádiva que Deus nos fez. Se olharmos para nossa vida a partir do ponto de vista de dádiva, chegaremos a dizer “Como é belo viver!”. Temos que dar graças por um ano vivido na graça de Deus.          (2). A segunda atitude é a de pedir perdão por nossas limitações e debilidades durante o ano que está terminando. É pedir o perdão pela falta de amor nas nossas conversas e em tudo que fizemos. Cada um de nós recebeu um número de talentos, mas nem todos conseguiram render os talentos. Martin Buber dizia: “A grande culpa do homem não é o pecado. A grande culpa do homem consiste em que em todo momento pode se converter, mas não o faz”. "O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer." (Albert Einstein)          (3). A terceira atitude é a de saber que tenho uma missão a cumprir neste ano novo que começa. O mesmo Martin Buber dizia: “Todos nós somos chamados a levar algo à plenitude no mundo”. A partir deste pensamento sabemos que sempre espera em alguma parte deste mundo alguma missão que tenho que realizar. Sempre há alguém em alguma parte deste mundo esperar que eu possa dar-lhe uma esperança nova. Sempre espera em alguma parte deste mundo uma dor que possa morrer em meu amor. Sempre espera em alguma parte da sociedade meu Deus em quem acredito, que me pede o amor para poder encarar tudo na vida, inclusive a dor da perda.          No tempo, existem dois dias acerca dos quais não podemos fazer nada: ontem e amanhã. O passado é observável, mas não é modificável por mais que alguém o tente. O futuro é modificável, mas não é observável, pois ninguém sabe o que vai acontecer amanhã. Os eventos passados contribuem, sim, para o nosso agora. O nosso presente nos ajudará, sim, a determinar o nosso futuro. Porém, não podemos fazer nada a respeito deles, pois ambos estão fora de nosso alcance. A única realidade que temos é o presente. Este instante é tudo que temos. Só podemos agir no momento presente ou nunca mais. E não há como apressar a chegada do próximo instante. É possível que tenhamos tido tempos no passado que foram especiais ou ruins para nós; pode ser que o futuro nos reserve momentos preciosos. Porém, o único tempo realmente “nosso” é este instante em que estamos agora. Cabe a nós decidir o que fazer com ele. Cada momento é meu para torná-lo belo ou doloroso de acordo com minha escolha. Vitus Gustama, SVD  
 
A Sagrada Familia de Nazaré.
A SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ DEVE SER O ESPELHO DE QUALQUER FAMÍLIA HUMANA (2009)     Eclo 3,33-7.14-17a; Cl 3,12-21; Mt 2,13-15.19-23            A Igreja celebra nesta final de semana, a festa da SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ.          Vamos meditar sobre alguns pontos desta festa como mensagens para nós e para as famílias de todos os tempos olhando para a Sagrada Família de Nazaré.    1. A Presença de Jesus no seu meio enobrece e transcende qualquer Família          A família é uma realidade cardinal na vida. Por isso, João Paulo II disse: “A família é patrimônio da humanidade, porque através dela, de acordo com o desígnio de Deus, se deve prolongar a presença do homem no mundo” (No encontro com as famílias no Rio de Janeiro). A família é o lugar onde, por vontade de Deus e pela natureza se assegura a continuidade de uma humanidade. Além disso, a família é a manifestação de um amor que, tendo sua fonte em Deus, através da comunhão conjugal alcança este mundo e o enriquece.          A família não somente cumpre a missão transcendental de transmitir a vida e prolongar assim a humanidade, mas também é motor da humanidade: “Longe de ser um obstáculo para o desenvolvimento e crescimento da pessoa, a família é o âmbito privilegiado para fazer crescer todas as potencialidades pessoais e sociais que o ser humano leva inscritos em seu ser”, disse João Paulo II no mesmo encontro. A família é o ambiente em que cada um dos filhos descobre e inicia a caminhada de sua vocação humana e cristã. A experiência de comunhão e participação que caracteriza a vida diária da família representa sua primeira e fundamental contribuição à humanização e socialização da pessoa. A família é primeira e insubstituível escola criadora de humanidade, exemplo e estímulo para as relações comunitárias mais amplas, mediante a transmissão de virtudes e valores. Numa sociedade que corre o perigo de ser cada vez mais despersonalizada e massificada, e, portanto, inumana e desumanizadora, a família possui e comunica, portanto, hoje energias formidáveis capazes de tirar o homem do anonimato, de mantê-lo consciente de sua dignidade pessoal, de enriquecê-lo com profunda humanidade. Através das relações que se vivem no seio da família, se desperta a experiência da paternidade de Deus e da fraternidade de Cristo.          Por isso, a família, ainda que relativizada, mantém todo seu valor singular e intercambiável. Diversos fatos contemporâneos o confirmam. A experiência dos países onde se levaram ao máximo a socialização e os estudos psicanalíticos mostram a decisiva transcendência que para toda a vida tem a relação paterno-filial.                     A fé cristã nos apresenta a família como o primeiro lugar e a primeira experiência da vocação que todos nós seres humanos temos: a construir e integrar-nos na grande família humana (Gaudium et Spes, 2), isto é, a grande família dos filhos de Deus.          A festa de Natal nos recorda que Cristo, o Filho de Deus, escolheu uma família para fazer presente sua Encarnação e sua Boa Notícia no meio da família humana. Para Jesus uma família foi o espaço físico e humano onde consolida e desenvolve sua humanidade: “Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens” (cf. Lc 2,52). Maria e José foram testemunhas e promotores do crescimento vital e pessoal do Filho de Deus encarnado na humanidade e que eles servem de guia para os esposos e as famílias para que sua caminhada alcance a plenitude de sua vocação. O mistério da Encarnação está associado com a vida de uma família concreta, e partir dela com todas as famílias que com sua entrega e testemunho enriquecem a humanidade.          A vida familiar é um valor importantíssimo, mas não absoluto. A encarnação de Deus no seio de uma família quer nos dizer que para que uma família possa chegar à sua plenitude, à sua felicidade completa Jesus deve ser um dos membros permanentes da família. Por isso, mais tarde ele vai nos dizer: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Jesus buscou, antes de tudo, a vontade de seu Pai. Os laços familiares estavam subordinados à missão que ele recebeu do Pai.          Por isso, a família deve ser amada, apreciada, estimada e recordada porque ela é o lugar de Deus e dos homens. A família não se mede pelo número de pessoas, mas pela paz aí reinante. Quando os pais e os filhos não se amam, a casa se torna um hotel. A família- hotel é um lar de desconhecidos. Os hotéis enchem-se de hóspedes, mas nem sempre são amigos. No hotel estão próximos apenas por causa das paredes, mas suas almas estão isoladas e fechadas. Uma família- hotel é o lugar onde ninguém se interessa pelas pessoas, apenas pelo negócio rendoso.   2. A Sagrada Família ensina cada família a deixar-se conduzir por Deus          Natal é um tempo familiar. E isto tem uma importância religiosa e psicológica: necessitamos voltar às origens, às raízes, à nossa família. Os valores recebidos na família são os valores vividos na convivência com os demais, fora da família. No plano espiritual fazemos isto em nossas celebrações litúrgicas, renovando nossas “origens sagradas” quando celebramos o nascimento do Senhor. Todos são chamados a valorizar e a salvar sua família a exemplo da Sagrada Família de Nazaré.          A figura de José na fuga para o Egito ocupa um dos lugares importantes no relato. O Egito era o lugar idôneo de refúgio político. Nos primeiros anos da era cristã calculava Filón em um milhão os judeus que viviam no Egito. O Egito era província romana governada por um prefeito e fora da jurisdição de Herodes.          Herodes faz planos para tirar a vida do Menino Jesus do seio da família de Nazaré. E José se levanta e faz tudo o que o anjo do Senhor disse no Sonho para fugir ao Egito. Somente uma pessoa muito exercitada na busca da vontade de Deus em sua vida, como São José, pode levar à prática uma ordem como a que José recebeu. O texto quer nos dizer que José está plenamente orientado para Deus. Por isso, o Deus-Pai pode atuar facilmente e ser escutado. É o que acontece sempre com uma pessoa cheia do Espírito de Deus. O anjo do Senhor não indica a José sobre quanto tempo deve ficar no Egito. O anjo o deixa na incerteza. José tem que se limitar em fazer aquilo que lhe é indicado em cada momento. É assim que Deus atua na vida de cada um de nós. Cada um tem que saber o momento de Deus sem pressa, pois o tempo é de Deus. O importante é que cada um esteja sempre em sintonia com Deus e seus planos, como São José. Muitas vezes somos tentados a interpretar Deus e sua vontade de acordo com nossos próprios interesses. Para conhecer os planos de Deus sobre o mundo em geral e sobre cada família em particular são necessárias a plena disponibilidade, a oração e a meditação da Palavra de Deus, o estudo das Escrituras e o silêncio. Não há obra prima e perfeita que não seja fruto de um silêncio. De tudo isto brota a verdadeira ação cristã. Ação que nos levará constantemente ao estudo e à oração no silêncio interior e vice-versa.          Além de refletir sobre a obediência de José, também somos chamados a contemplar o silêncio de Maria e José neste relato. Na vida não basta contemplarmos somente o que as pessoas fazem e falam, mas também o seu silêncio, aquilo que elas não falam, mas dizem muito. Para entender o silêncio do outro é necessário criar o próprio silêncio. Neste relato Maria e José não falam, mas fazem tudo em silêncio. Dizem que quem faz muito barulho porque faz muito pouco ou talvez nada faça. A presença de Maria é sublinhada quatro vezes no relato. Ela é denominada, significativamente, não pelo seu nome próprio, mas como mãe: “o menino e sua mãe” (cf. Mt 2,13. 14.20.21). A vida e a história, a vocação e a missão de Maria são inseparáveis das de Jesus. E José? É ele quem recebe a ordem de fugir para o Egito e de voltar para a terra de Israel (vv.13.19-10); é ele quem as executa pronta e fielmente (vv.14.21.23). É ele quem protege Jesus dos que o buscam para matá-lo e que o traz de volta para a Galiléia. O que é que o silêncio produtivo de Maria e de José diz para nós?          Em Maria e José podemos também ver o rosto de todas as mães e pais que cuidam e criam os filhos com muito sacrifício, muita dedicação por causa do amor que eles têm por eles.  Tudo isso nos faz lembrar de tantas mães que muitas vezes não dormem a noite inteira para estar com o filho doente ou ficam impotentes perante a doença incurável de um filho que está à beira da morte ou as mães que enfrentam uma fila enorme nos hospitais para evitar o filho da ameaça da morte. O Natal certamente é um momento oportuno para ver o nosso natal (nascimento) pelo qual podemos ver os nossos pais e seus sofrimentos ao nos criarem e a dívida que temos por eles.  
 
Natal e suas mensagens.
NATAL E SUAS MENSAGENS “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”   1. A encarnação é o mistério do amor apaixonado de Deus por nós           A encarnação do Filho de Deus desafia a lógica humana ou do mundo porque ela só poderá ser aceita a partir da fé no amor de um Deus que ama os homens até o extremo de se tornar igual a eles para que cada ser humano se torne um filho ou uma filha de Deus: “Deus tanto amou o mundo, que entregou seu Filho único, para que quem crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Fora do amor deste Deus apaixonado pela humanidade não entenderíamos nada da encarnação. A encarnação é uma mensagem forte do amor de Deus por nós todos. E Jesus levará seriamente este amor até aceitará ser crucificado na cruz. O mistério da encarnação é o mistério do amor de Deus que assume a condição humana para salvá-la e divinizá-la. O amor sempre fascina e atrai qualquer ser vivo e o transforma em criatura amigável e amável. O amor dá a segurança, facilita o crescimento humano e cria a harmonia entre as pessoas ou entre os seres vivos.   2. Na encarnação Deus se humaniza            No Natal celebramos a humanização de Deus. Na encarnação Deus introduziu o germe divino em nossa natureza mortal para que não ficássemos entregues à efemeridade e debilidade da natureza humana. Ao se encarnar Deus quer ensinar o ser humano a descobrir sua dignidade divina, pois Deus se torna um deles. O Papa Leão no seu sermão de Natal dizia: “Cristão, reconhece tua dignidade! Tomaste parte na natureza divina, não regresses à velha indigência, e não vivas abaixo de tua dignidade!” Isto nos desafia a viver de acordo com nossa dignidade divina.            A encarnação de Deus também nos ensina a sermos mais humanos. Para podermos servir bem os outros, para podermos trabalhar com muito ardor devemos ser muito humanos. A encarnação nos mostra como podemos nos tornar verdadeiramente humanos. Cristo desceu do céu até o nível da humanidade. Por isso, para sermos muito humanos o primeiro passo consiste em ter coragem para descer à nossa humanidade e terrenidade. Nós fomos tirados da terra. Cristo desceu até nós para que, por ele, como por uma escada, possamos subir até Deus. A meta desta descida é a nossa elevação pelo Espírito de Deus. Apenas quem aceita a sua humanidade é que pode subir ao céu. Se Deus não nascer em nós, permaneceremos alienados de nós mesmos e dos outros. Cristo pode nascer até mil vezes em Belém, mas se nenhuma vez em nós, em nosso coração, em nosso lar, permaneceremos eternamente perdidos e seremos muito desumanos para com os outros. Mas se Cristo nascer em nós, entraremos em contato com o nosso próprio ser, com a imagem intocada e genuína de Deus. Conseqüentemente, nossa vida ficará verdadeiramente nova, sã, iluminada e mais humana.       3. Deus se manifesta como uma criança               No Natal Deus vem ao nosso mundo como uma criança e não como um adulto. Ninguém resiste diante de uma criança. A criança é uma criatura frágil, desamparada, indefesa e dependente totalmente dos pais ou dos adultos. Por ser frágil não podemos agarrá-la com força. Ao contrário precisamos nos aproximar dela com carinho e mansidão. Para uma criança não fazemos discursos inteligentes, mas usamos somente palavras que vêm do coração ou alguns gestos carinhosos. A criança quer sempre aprender. Ela confia nos outros e se envolve. Vive o momento presente sem se preocupar o que vem a ser porque confia nos pais. Está sempre aberta ao novo. Quando duas crianças se brigam, em poucos minutos elas voltam a brincar juntas novamente como se nada acontecesse anteriormente.            Se Deus vem ao nosso encontro como uma criança é porque Ele quer nos libertar de nossa megalomania e de querermos ser sempre fortes e independentes. A nossa força tem limites, por isso nenhum ser humano pode ter pretensão de se sentir forte, dispensando a ajuda dos outros. O Natal pretende nos lembrar a criança divina em cada um de nós. No fundo do coração cada um carrega uma criança divina. Quando cada um entrar em contato com a criança dentro de si, sua vida ganha um pouco de leveza e se torna autêntica. O Natal, pela encarnação do Filho de Deus através de uma criança, nos ensina a olhar para dentro de nós. Dentro de nós não encontramos apenas problemas, divisão, confusão, desejos, ilusões frustradas, feridas e mágoas. Dentro de nós há também Cristo (cf. 1Cor 3,16s). Por isso, o que celebramos hoje não é um fato passado que dorme na história. O mistério do Deus-feito-homem tem lugar hoje, no agora da festa. Em cada Eucaristia entramos em comunhão com Ele e ao terminar a missa nós não vamos sair sozinhos, e sim nó vamos sair com ele, pois ele é o Deus-Conosco.   4. Pela encarnação aprendemos a encontrar Deus nas pequenas coisas          O nascimento de Jesus é atestado por Lucas quando escreve que Maria “envolveu seu filho em faixas” (v.7). Esse detalhe é tão realístico a ponto de o anjo do Natal divulgá-lo entre os pastores como sinal para poder reconhecer o filho de Maria (v.12). Graças a esse sinal que “os pastores, às pressas, vão vê-lo”, reconhecem e encontram o menino Jesus. O nascimento de Jesus, então, é descrito com a maior simplicidade.          Tudo isso é o mistério da nossa fé que proclamamos como cristãos: nas coisas pequenas revelam-se as grandes; no pequeno pão está presente o Filho de Deus. No cálice está presente o sangue de Jesus; na comunhão eucarística que recebemos, Deus nos abraça e vem ao nosso encontro; na doença que nos faz sofrer e na morte que nos impõe medo, há a presença misericordiosa do Filho de Deus que nos convida a entrarmos com ele em seu Reino. Em todas as circunstâncias da vida do dia-a-dia, mesmo as mais infelizes, mediante as incompreensões, as doenças, e a monotonia da vida, está sempre presente o lado amoroso, o lado da alegria, do Espírito Santo, da abertura do coração.  O fascínio do Natal, mais forte que todas as luzes multicoloridas acesas pelo consumismo, está aqui: encontra-se o sentido da vida, do homem, das coisas simples, sentido do qual ninguém deveria afastar-se, porque nele reside o verdadeiro, o autêntico. Quem souber olhar bem longe com os olhos do coração e com a inteligência da fé, ali encontrará um germe da Presença divina que situa o homem na plena verdade de si mesmo.          O Natal nos ensina a buscarmos e a vermos o inefável mistério divino não em coisas incomuns e maravilhosas, mas naquilo que tem aspecto cotidiano, simples e terreno. Isto quer dizer que, a partir do Natal, tudo que é humano simplesmente pode ser como que manifestação divina, sinal visível da presença de Deus. Minha relação com o aspecto cotidiano desta vida será o critério para saber se eu descobri ou não o sentido do Natal.  
 
Maria que nos traz o Salvador.
MARIA QUE NOS TRAZ O SALVADOR Lc 1,39-45            A figura de Maria, chamada por Isabel de “Mãe do meu Senhor” (Lc 1,43) está em destaque no quarto domingo do Advento. Maria, a Mãe do Senhor, é a terceira personagem do Advento (além de João Batista e o profeta Isaías). Nela culmina e adquire uma dimensão toda maravilhosa a esperança do messianismo. Maria espera a chegada do Senhor cooperando na obra redentora. De certo modo pode-se dizer que o Advento é o mês litúrgico mariano, pois neste tempo Maria aparece nos textos bíblicos, especialmente na última semana. Sua atitude de disponibilidade, de colaboração na obra redentora, de confiança incondicional em Deus e de esperança ativa é um modelo que merece ser seguido pelos cristãos.          O texto do evangelho para este domingo faz parte do “evangelho da Infância” com um gênero literário especial porque não pretende ser um relato fidedigno sobre acontecimentos, mas é uma catequese cuja finalidade é proclamar as realidades salvíficas: que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o Deus conosco. E dentro desse quadro teológico Maria tem sua participação ativa.   1. Maria que partiu “apressadamente”          A expressão “apressadamente” não descreve a presteza externa com que parte nem descreve o estado psicológico de Maria. Lc quer sublinhar a atitude interior de fé e de obediência de Maria. Sua “pressa” está dinamizada pelo fervor interior, pela alegria e, sobretudo, pela fé (cf. Lc 1,38. 45). “Apressadamente” significa, por isso, seriedade, empenho, solicitude, zelo, entusiasmo, ardor, prontidão etc.. No sentido teológico, então, a pressa de Maria é um reflexo da sua obediência, como serva e discípula fiel, em relação ao plano que lhe foi revelado pelo anjo, um plano que previa a gravidez de Isabel (cf. Lc 1,36).             Segundo M. Descalzo, a viagem de Maria para visitar Isabel foi “a primeira procissão do Corpus Christi”. O corpo de Maria foi o ostensório vivo e precioso que carrega por primeira vez o Corpo de Cristo. Mas se nos mergulharmos um pouco mais no mistério, descobriremos que, na verdade, Maria é levada por Aquele que ela leva no seu ventre.          Quando Jesus, Deus-conosco, entra e atua na história de uma pessoa e O tem realmente no coração, esse mesmo Jesus vai levar essa pessoa ao encontro dos outros, especialmente aos necessitados para partilhar a alegria e a esperança e irradiará e santificará os que dela se aproximarem. Jesus não deixa ninguém paralisado. Ele faz todos missionários.   2. Maria que “se põe a caminho” enfatiza o aspecto missionário da fé          O Evangelista Lc não descreve que Maria simplesmente “andou”, mas que ela “partiu” /põe-se a caminho”. Nos Evangelhos a idéia de viagem, de caminho, está intimamente ligada à obediência a Deus e ao discipulado de Jesus. O verbo “pôr-se a caminho” tem em Lucas o significado teológico de disponibilidade e obediência aos planos de Deus; pôr-se a caminho significa aceitar total e existencialmente o caminho proposto por Deus, pois esse caminho nos conduz sempre à felicidade embora tenhamos que atravessar vários obstáculos, mas no coração ressoa sempre uma certeza de que Deus está sempre caminhando conosco (Maria foi com Jesus no ventre).            Maria se põe a caminho significa que a partir daquele momento começou a sua vida como resposta à proposta ou aos planos de Deus.  É a resposta ao anúncio feito por Deus, que se funda, sobretudo, a leitura de Maria como modelo do discípulo perfeito, como a alma fiel por excelência.            A fé de Maria é uma fé missionária. Depois de dizer o seu “sim”, leva-o através dos caminhos do nosso mundo para suscitar a alegria e o louvor. A viagem de Maria à Judéia, por isso, é um símbolo do caminho da fé que precisa ser testemunhada, compartilhada, que precisa servir; porque a fé não é somente o dom de Deus, mas também é uma resposta humana, e com todo ato humano. Dessa fé é que faz encontro e serviço. E quando a Palavra de Deus é ouvida com autenticidade, como Maria, não pode deixar de ser profundamente criativa e dialogante.            E esta viagem interior, que é o caminho da fé, sempre se caracteriza por certa precariedade, mas esta precariedade nos leva a uma profissão da fé de que não há outras certezas ou outros absolutos nesta vida a não ser o Senhor que é fiel às suas promessas, pois ele é o nosso Deus caminha conosco, o Deus conosco e que para Deus nada é impossível (Lc 1,37).             E caminhar na fé implica mover-se na obscuridade, convencido das realidades que não se vêem (Hb 11,1). E aquele que acredita que existe o Absoluto e sabe aonde vai tem muitas possibilidades de ser feliz e de usufruir de todas as coisas boas que Deus lhe oferece diariamente. E cada felicidade que experimentamos é sempre um prelúdio da felicidade eterna que já deve começar aqui nesta terra.            Não é fácil acreditar, especialmente quando se exige de nós contrariarmos o nosso “bom senso”. Maria nos ensina que vale a pena confiar sempre constantemente nas Palavras do Senhor, “pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1,45), porque o nosso Deus é o Emanuel, o Deus conosco (cf. Mt 1,23).   3. Maria é a primeira discípula que sabe partilhar o que é salvífico          Na anunciação (cf. Lc 1,26-38), Maria se tornou a primeira discípula entre os primeiros cristãos, porque ela ouviu a Palavra de Deus e a aceitou incondicionalmente (Lc 1,38). Na Visitação, ela se apressa em partilhar esta palavra do evangelho com os outros e, no Magnificat, temos sua interpretação dessa palavra que se assemelha à interpretação que seu Filho tinha dado em seu ministério.          Maria é a arca da nova aliança, o lugar da presença de Deus no meio de nós. Como a arca da nova aliança, ela não é um lugar que encerra Deus e sim um lugar que O dá. Ela não é uma arca que esconde o mistério, mas uma arca que o irradia. Maria é Aquela que, habitada pelo mistério, o dá.          Quando na fé se dá espaço ao absoluto primado de Deus, a conseqüência lógica de ser habitado, de ser amado por Deus é sair de si, viver o êxodo sem regresso, que é o amor. O acolhimento da gratuidade do amor eterno torna-se a doação gratuita de tudo que se recebeu. Quem crê e vive da fé, tem capacidade de olhar para fora, aprecia o dom e o comunica. Certamente, respeitamos o dom de Deus quando nos tornamos arca irradiante e quando o restituímos a Deus, que nos estende a mão nos nossos irmãos.          Maria como a primeira discípula cristã exemplifica a tarefa essencial de um seguidor de Cristo. Depois de ouvir a Palavra de Deus e aceitá-la, devemos reparti-la com os outros, não simplesmente repetindo-a, mas interpretando-a, de modo que todos possam vê-la como uma Boa Notícia. O nome “Boa Notícia” traz em si a notícia alegre porque Deus está conosco e com Ele nossa vida tem futuro apesar de tudo.  
 
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