
Viver feliz plenamente
VIVER COM DEUS PARA VIVER FELIZ PLENAMENTE
Jr 17,5-8; 1Cor 15,12. 16-20; Lc 6,17.20-26
Nós vivemos em prol da felicidade. E por isso mesmo, podemos ir de decepção em decepção. Todas as criaturas, como nós, seres humanos, são submetidas à relatividade e, portanto, à imperfeição e à limitação. Mas, por outro lado, a Palavra de Deus nos convida à verdadeira felicidade. É patrimônio de quem confia no Senhor. A verdadeira felicidade se experimenta na pobreza, isto é, na abertura total do coração a Deus. Há que fundar, por isso, a vida no Absoluto, no Senhor. Quem funda a vida no Absoluto, no Senhor, nenhuma decepção da vida lhe defrauda. Deus não decepciona. As coisas relativas, com seu valor relativo, nunca são fundantes. É prudente, por isso, aquele que edifica sua casa sobre a rocha, sua vida sobre a Palavra de Deus (cf. Mt 7,24-25). O homem de fé aquilata a perspectiva exata da realidade.
O homem que cumpre a Palavra de Deus, verdadeira sabedoria da vida, consegue a autentica felicidade, tal como expressam Jeremias na primeira leitura e o Salmo responsorial: “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos... mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar” (Sl 1,1ss). Os livros sapienciais acentuam o valor da Palavra de Deus como fonte da felicidade humana. A pobreza interior, a humildade e a confiança no Senhor são o fundamento de uma vida autenticamente feliz. Os hebreus, que entendiam o homem como uma unidade psicofísica, tinham uma concepção ampla da felicidade humana sem fazer uma cortante distinção entre a felicidade humana e a felicidade celestial. Ser feliz era, simplesmente, viver o mais intensamente possível segundo os mandamentos do Senhor.
Jesus recorre à velha temática do homem bíblico e praticamente inaugura sua pregação com um discurso cujo eixo central é a felicidade humana. Desde então ele mesmo se apresenta como fonte de felicidade para quem escuta sua Palavra, para quem crê nele, o segue e espera seu dia.
No entanto, a mensagem de Jesus rompe decididamente com os esquemas de felicidade do “mundo”: a felicidade não se cifra no poder, nem na riqueza ou no dinheiro e sim em uma conduta cuja essência é o serviço à comunidade para que todos vivam na fraternidade. Se um membro da comunidade não servir o outro, haverá espaço para a rivalidade, para as comparações injustas até para a inimizade. A eucaristia não é para os inimigos ou rivais e sim para os reconciliados (cf. Mt 5,23-24).
Por isso, o código de felicidade de Jesus é tremendamente paradoxal e ele mesmo em pessoa será o expoente dessa paradoxal felicidade: na morte de cruz encontrará sua vida plena de ressuscitado. Desde então, Jesus Cristo determina um ponto de vista novo e original que não somente consegue que o homem possa ter momentos de felicidade e sim que possa dar sentido para sua vida. Sem dar sentido à vida, não se pode falar da felicidade. Quem encontra o sentido da vida é feliz.
A Palavra de Deus neste dia nos coloca diante das propostas de Deus para nossa plena existência, por um lado, e a tendência ou a tentação para o egoísmo e a auto-suficiência que resultam na desorientação para nossa vida e nossa convivência com os demais, por outro lado.
O profeta Jeremias, na primeira leitura, fala dos auto-suficientes e que como tais prescindem de Deus (Jr 17,5-8). Eles olham para a vida somente no seu aspecto material. Adoram as coisas e esquecem-se do Criador das coisas. Por isso, o profeta Jeremias nos recorda que prescindir de Deus significa morte e a perda da felicidade plena e eterna. Mas aqueles que confiam em Deus experimentarão a ressurreição, vida que não acaba com a morte, como enfatiza São Paulo na segunda leitura (1Cor 15,12. 16-20). Por esta razão é que Jesus proclama “felizes” àqueles que vivem sua vida de acordo com os valores propostos por Deus: viver na simplicidade, na humildade, na justiça, na solidariedade, na honestidade, na caridade, na verdade e assim por diante. E Jesus proclama infelizes os que constroem a vida sobre o egoísmo, a arrogância e a auto-suficiência (Lc 6,17. 20-26).
As bem-aventuranças resumem, na verdade, o ensinamento de Jesus e o sentido de sua vida. E por isso também elas são a explicação do que significa ser cristão. As bem-aventuranças contrastam com os valores limitados que estão em uso nas sociedades humanas. As bem-aventuranças nos descobrem que a vida dos homens tem uma dimensão escondida que não pode ser descoberta por aquele que vive unicamente para si mesmo, pois requer um vasto horizonte. As bem-aventuranças pontualizam atitudes humanas fundamentais, o caminho para construir o Reino de Deus, o caminho da nova humanidade. São um programa completa de vida dos que querem de verdade ser seguidores de Cristo. Para construir seu Reino Deus atua nos pobres, nos que tem fome de justiça, nos que choram para defender sua dignidade, nos perseguidos por ser solidários.
Mas é importante observar que o que se declara bem-aventurado são as pessoas e não as situações. A observação é importante porque isto significa que as bem-aventuranças não convalidam ou consagram situações sociológicas de injustiça e de dor por falta de respeito pela dignidade humana. As bem-aventuranças não estão de acordo com a alienação, a miséria ou a marginalização. Quem favorece ou consciente a fome, a incultura, a injustiça, a mentira, a opressão e assim por diante, não é cristão. Jesus não dá felicitação àqueles que não são respeitados em sua dignidade humana, porque isso é uma injustiça. As bem-aventuranças estão nas antípodas de pretender a construção de uma sociedade injusta. São bem-aventurados os que lutam por uma sociedade melhor para todos e por isso, tem que sofrer.
E Lucas completa as bem-aventuranças com umas maldiçoes com as quais nos alerta a não pormos o coração nos prazeres sem limites, nos poderes e na dominação pela riqueza, pois tudo isto cega o homem.
Quem são os ricos, os saciados (os que têm fartura), os que riem, os que buscam apenas os elogios para os quais Jesus lança os ais ou para os quais Jesus proclama infelizes no evangelho deste dia?
São os que colocam seu coração em si mesmos e em suas coisas, os que vivem em função de seu prestigio e de seu ego. São os que não têm necessidade de nada, nem de Deus, ainda que falem d’Ele, porque têm “tudo”. Os que só pensam em ser mais importantes do resto. Os que não temem nada porque crêem que com o dinheiro podem resolver “tudo”, mas que se esquecem de que diante do leito da morte riqueza nenhuma tem poder de solução, pois com o dinheiro alguém pode comprar tudo menos a vida eterna. São os que dão daquilo que lhes sobra; os que guardam as aparências por medo ao que os outros dizem, são os que pertencem a uma religião ou crença, mas vivem sem nenhum compromisso com a vida. Em outras palavras, são os que têm horizonte muito vulnerável, reduzido e de precária realidade; horizonte curto como curta é a vida do homem sobre a terra. Uma pessoa, que contempla todas as coisas deste mundo, fechada à transcendência não tem nada mais no futuro do que a morte eterna. Ai radica a imensa tragédia do homem fechado ao infinito e à plenitude.
Nestas respostas inclui qualquer um de nós e por isso, estas respostas servem para qualquer um de nós refletir sobre como vive sua vida na sua relativa curta duração sobre a terra. Quais são os caminhos que escolhemos na vida para saber aonde chegaremos. Escolher o caminho é escolher o endereço. O endereço determina o caminho que devemos escolher para ser trilhado. O endereço nos faz caminho certo, mesmo que fiquemos perdidos momentaneamente, mas o endereço fica na nossa memória que nos faz voltarmos para o caminho certo a fim de chegarmos ao endereço desejado e sonhado.
A palavra de Deus é o próprio caminho para chegar à felicidade plena. Basta lê-la e meditá-la diariamente para orientar nossa conduta de cada dia. “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos... mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar”. Esta é a mensagem que devemos guardar. A felicidade radica em um constante crescimento, no desenvolvimento da liberdade, da justiça, do amor, mas em um processo de luta, de morte do egoísmo, de perpétua mudança interior, de revisão constante de si mesmo.

Chamados Por Cristo a Salvar a Humanidade Toda
CHAMADOS POR CRISTO A SALVAR A HUMANIDADE TODALc 5,1-11(Is 6,1-2a.3-8; 1Cor 15,1-11)
A primeira leitura e o evangelho de hoje, narram duas vocações: a de Isaías, escolhido para ser profeta e a dos apóstolos, transformados por Cristo em pescadores de homens.
Isaías, quando ouviu a voz do Senhor, teve a nítida e profunda percepção da própria fraqueza. Como poderiam os seus lábios impuros falar em nome de Deus? Pedro chamado por Jesus para ser pescadores de homens, sentiu-se, como Isaías, indigno e pecador diante da pesca milagrosa. Contudo, Deus quis servir-se deles para cumprir e realizar a sua missão.
A pesca milagrosa e a vocação dos primeiros discípulos, que o texto do evangelho de hoje nos relatou, fazem parte da atividade de Jesus na Galiléia. Meditemos apenas alguns pontos deste relato, pois a Palavra de Deus é densa de conteúdo para ser meditada em poucas linhas e palavras.
1. Todos são alcançados pela Palavra de Deus
Jesus não ensina mais na sinagoga, como fez até agora, mas proclama a Palavra de Deus no ar livre. Se na sinagoga os leprosos e outros doentes graves, os impuros não podem entrar, aqui, no ar livre, eles podem ter o acesso à Palavra de Deus para escutar e meditá-la. Neste lugar eles podem encontrar-se com Deus e Deus encontra-se com eles. E certamente Deus quer encontrar as pessoas no seu próprio lugar, ali onde se encontram, numa situação comum, honesta ou honraria ou numa situação desonrada e moralmente difícil para fortalecê-los. Jesus vai de um ao outro e os chama, porque ele quer libertá-los, pois ele os ama. Quando Deus se aproxima do homem é para salvá-lo. Não há outro objetivo. Conseqüentemente quando um seguidor de Jesus se aproximar dos outros é para transformá-los em irmãos, e não para explorá-los.
Além disso, o anúncio da Palavra de Deus, conforme o Evangelho deste domingo, não acontece no contexto da liturgia do Sábado, mas no decurso de um dia da semana, quando os homens dedicam ao próprio trabalho, quando estão suando para ganhar o próprio sustento. Isto significa que Deus nos acompanha no nosso dia-a-dia, pois ele é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20b). Além disso, a Palavra de Deus não pode ser circunscrita apenas aos ambientes e lugares sagrados. Ela deve ser proclamada em todos os lugares, mesmo os que consideramos profanos, pois a Palavra de Deus ilumina, inspira, transforma e orienta todas as atividades humanas. A Palavra de Deus deve ser critério de nossa conduta e de nosso agir diariamente, independentemente das circunstâncias em que vivemos e trabalhamos. Quando a Palavra de Deus se tornar carne e sangue em nós, seremos modelados totalmente por Cristo a fim de sentirmos o que Jesus sentia e fazermos o que Jesus fazia, a exemplo de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Deus é aquele que põe Seu coração em nossa pequenez para nos engrandecer e para que possamos engrandecer os outros: “De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10).
2. Deus vem para renovar nossas forças e nosso ânimo.
A vida é bela, pois ela é o maior de todos os dons que o ser humano recebeu de Deus. Os outros dons existem em conseqüência do dom da vida. Mas muitas vezes não nos comportamos bem diante da vida que nos torna cruz para nós mesmos e para os outros. Mesmo assim Deus não quer que fiquemos desanimados diante do nosso fracasso, pois Deus continua nos dando chances para concertarmos o que faltou. Acertamos ou não a finalidade desta vida, Deus nunca nos despoja das dificuldades e dores, mas em troca Ele nos dá força e coragem para recomeçar e para crescer. Sofrimento e alegria são companheiros freqüentes de quem persevera no caminho do crescimento. Aquele que quer crescer continuamente tem coragem e humildade de abandonar o que se passou para apreciar o que o dia de hoje (Deus) lhe tem a oferecer. O caminho do crescimento é sempre um êxodo, uma saída de si mesmo a um algo novo mais rico do que antes.
Pedro é especialista na pescaria, mas frustrado pelo insucesso da noite inteira. Jesus não é pescador, mas é o Criador das coisas (Jo 1,1ss). Ele disse a Pedro: “Avança para as águas mais profundas e lança redes para a pesca” (v.4). No momento de frustração Pedro precisa escutar a Palavra de Deus. Certamente, o fundamento de todo apostolado é “a fé que nasce daquilo que se escuta” (Rm 10,17). Escutar é abrir-se a alguma coisa que vem de fora, algo que pode, inicialmente, parecer estranho ou perturbar nossa maneira de pensar, mas, ao longo prazo, provocar mudanças radicais em nós. Por isso, uma verdadeira escuta exige humilde coragem. Precisamos escutar a Palavra de Deus, pois ela é mais do que a expressão de um pensamento ou de um sentimento; ela é Vida. A Palavra de Deus é sopro de vida (cf. Sl 32,6). Ela tem o poder de tocar os corações e de curá-los (cf. Lc 4,32; 6,19).
Simão Pedro, especialista na pescaria, que até então não conhecia bem quem era Jesus, respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos” (v.5). Como se ele quisesse dizer a Jesus: “Não adianta Mestre! Se durante a noite não pescamos nada, imagine durante o dia!” Mas Pedro se esquece de que Jesus é a Luz do mundo que ilumina tudo (cf. Jo 8,12; 1,4-5.9). Simão Pedro precisa trabalhar com a ajuda da luz divina para não sofrer a frustração. Simão Pedro é convidado a pôr em jogo a própria pessoa, a própria vida e o próprio futuro confiando apenas na Palavra de Deus. Apesar de todas as objeções que um profissional poderia levantar contra ela, a Palavra de Jesus tem mais força para Simão Pedro do que sua longa experiência de pescador. Simão Pedro é convidado a superar a própria desconfiança. A palavra de Deus é poderosa, mas é preciso que seja posta em prática para que desenvolva sua força.
Simão Pedro cumpre a palavra de Jesus imediatamente: “Na tua palavra lançarei a rede” (v.5). Notemos quanto há de profundo neste “na tua palavra” porque é a expressão que, na Bíblia, especialmente nos Salmos, designa a atitude de fé do homem diante de Deus. “Confio na Tua Palavra, é Tua Palavra que me dá vida, Senhor”. Simão Pedro sai dos próprios cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. De fato, o fruto desta obediência incondicional, desta fé na Palavra do Senhor é o milagre da pesca no pleno dia. O poder da Palavra de Deus se manifesta para quem lhe obedece. O poder da Palavra de Deus se manifesta em nós a partir do momento em que nós lhe obedecemos, pois toda força, todo poder vem de Deus. Certamente, na força da Palavra de Deus e na obediência a ela, os apóstolos encontram a vida ali onde tudo parecia morto; messe abundante onde tudo parecia vazio; abertura onde tudo parecia fechado. Com Deus podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça ou amor onde outros dizem que não adianta tentar, podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única lei que funciona. É a lição da pesca milagrosa.
Jesus nunca permite o aborrecimento pelo insucesso no nosso trabalho. Não cabe a cada um de nós calcularmos o último resultado. Cada um deve trabalhar empenhar-se todo, confiando unicamente na Palavra do Senhor. Empenhar-se significa dar tudo, experimentar tudo, estudar, corrigir, mudar, procurar ser melhor cada dia e recomeçar. Nós somos aquilo que somos e aquilo que nos falta. Por mais que cada um tente ser melhor, mesmo assim sempre falta algo na nossa vida. Nunca chegaremos à maturidade completa nesta terra; estamos sempre em processo de amadurecimento. Somos convidados para o algo mais de nossa existência. É permitir dar um passo adiante no próprio caminho existencial. Porém, a eficácia de nossa ação está na obediência à Palavra de Deus. Se agirmos em nome próprio, nossos esforços serão estéreis. A Palavra de Deus é a semente que tem em si uma força criadora, uma potência enorme, no entanto, precisamos vivê-la no nosso dia a dia.
Observação: Vamos rezar pelos nossos sacerdotes (ano sacerdotal).
Oração Pelos Padres e Bispos
Senhor Deus e Pai, nossa Igreja está promovendo, desde julho de 2009, um ano Sacerdotal. Temos rezado e refletido sobre a vida e o ministério dos padres e bispos.
Suplicamos-vos Deus para eles a graça de uma frutuosa renovação interior a fim de que possam manter-se fieis, segundo a fidelidade do próprio Cristo, vosso Filho.
Obrigado Senhor, pelos sacerdotes, por suas fadigas, por seu serviço incansável, por sua caridade. Daí força aos sacerdotes idosos, doentes, ofendidos ou perseguidos. Que eles não desanimem. Daí-nos, oh Deus bondoso, mais sacerdotes santos. Amem.

AQUELE QUE VEM PARA SALVAR POR AMOR É REJEITADO
AQUELE QUE VEM PARA SALVAR POR AMOR É REJEITADO
REVER O NOSSO CAMINHAR COMO CRISTÃOS
Lc 4,21-30(Jr 1,4-5.17-19; 1Cor 12,31-13,13)
O texto do evangelho deste domingo é a continuação do evangelho do domingo anterior. Estamos ainda no discurso programático de Jesus em Nazaré e as reações diante do mesmo. Coloco aqui apenas alguns pontos do texto para nossa reflexão.
1. A atualidade da Salvação: Jesus está presente no hoje
Depois que Jesus fez a leitura do livro do profeta Isaías que contém promessa de salvação para o povo (Is 61,1-2a), Jesus diz: “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. O advérbio “hoje” (sèmeron) é usado aqui para enfatizar a atualidade da salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo. Este termo é encontrado também em outras partes do evangelho de Lucas. No nascimento de Jesus, o anjo diz aos pastores: “... Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,11). Na última etapa da sua subida a Jerusalém, Jesus diz a Zaqueu: “Zaqueu, desce depressa. Hoje eu devo ficar na tua casa” (Lc 19,5). E no fim da visita onde se relata a conversão de Zaqueu, Jesus diz: “Hoje a salvação entrou nesta casa...” (Lc 19,9). E pouco antes de morrer, a penúltima palavra dita por Jesus na cruz foi a que disse a um dos dois criminosos crucificados ao lado de Jesus: “Hoje tu estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).
Palavra característica da soteriologia lucana “hoje” significa que a profecia de Isaías se torna realidade: aquele de quem falava outrora o profeta chegou. Ele está ai e, com ele, começou o Reino de Deus. Os últimos tempos da história da salvação estão abertos, inaugurados oficialmente pela vinda de Jesus a Nazaré. É um “hoje” de Deus no tempo humano, isto é, um momento excepcional de “graça” (kairos) no desenrolar-se da história dos homens (kronos), um momento decisivo na história da salvação. Por isso, “hoje” não tem dimensão puramente cronológica. Dizer que “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura...” não somente significa que uma antiga promessa se cumpre ou que um texto toma vulto repentinamente, mas, sobretudo, que a humanidade encontrou Deus em Jesus Cristo. Ele é o Emanuel, Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Ele é o Messias, Palavra do Deus vivo. Para acolher a Palavra do Deus vivo e deixar-se modelar por ela, importa apenas seguir Jesus, pois ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Jesus é o único caminho que pode fazer o homem chegar à sua verdadeira dignidade.
“HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Lucas lê sempre a Escritura na dimensão do presente e desta maneira a atualiza. Segundo Lucas, não podemos ler o Evangelho como se fosse uma coisa do passado. Temos que lê-lo na fé. A leitura da Palavra de Deus na fé significa escutar a Deus que nos diz: “Hoje...”. Deus não se situa nem no passado nem no futuro. Ele nos chama hoje e hoje nos salva. E o Hoje de Deus está cheio de força e de conteúdo particular, pois ele nos chama à salvação. Com efeito, o Evangelho não é uma expressão bela que se fica no ar e sim é uma chamada à vida, e à transformação do coração. Por isso, é um Hoje que define nosso tipo de existência; portanto, é um Hoje no qual encontramos nossa identidade. É o Hoje de um nascimento como pessoas e como comunidades responsáveis. A Palavra de Deus é o critério que estabelece o limite, o alcance, o sentido e o objetivo de nosso fazer. Por isso, precisamos escutá-la no nosso hoje, pois, segundo São Paulo, para podermos anunciá-la, precisamos escutá-la primeiro (cf. Rm 10,14-16).
2. Hoje Ele vem nos mostrar o caminho do amor
Jesus Cristo é o amor encarnado do Pai. Ele vem para realizar a missão do amor. São João expressa muito bem este pensamento ao dizer: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8. 16). Jesus foi enviado para ensinar a humanidade a amar com palavras, gestos e ações concretas. Tudo que Jesus diz e faz na Bíblia é movido por um amor desinteressado. Se ele cura é curar por amor. Se ele perdoa é perdoar por amor. Se Ele chama atenção com palavras duras é movido por amor. Se ele liberta os cativos é libertá-los por amor e para o amor (cf. Lc 4,18-19).
Se tudo que Jesus Cristo, nosso Mestre, disse e fez era movido por amor, conseqüentemente todos os seus seguidores devem viver a mesma missão: fazer e dizer tudo por um amor desinteressado. O amor cristão é sempre um amor que procura o bem do outro por pura gratuidade a exemplo de Cristo. O amor desinteressado, segundo São Paulo (1Cor 13,1-13), é a essência da experiência cristã. Por isso, ele repete como refrão esta frase: “Se não tivesse caridade, eu não seria nada” (1Cor 13,1-3) O amor gratuito faz nascer uma comunidade de irmãos e une seus membros. O amor gratuito é o único capaz de acabar com ciúmes, rivalidades egoístas, e lutas de interesses. Na medida em que o nosso viver não é/não for amor, trairemos a nossa própria fé, atentaremos contra a nossa própria essência ou nosso próprio ser. Para um cristão viver sem amor é um “suicídio” contra a vida cristã. É recusar Jesus, o Amor Encarnado do Pai que faz tudo por nós até aceitar ser crucificado por amor.
O amor gratuito, o amor cristão é a única coisa perfeita e por isso, permanece para sempre: “As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá, pois o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. Mas a caridade não acabará nunca” (1Cor 13,8-9). Por isso, se praticarmos a caridade como estilo de vida, então, estaremos vivendo a eternidade já aqui neste mundo. O amor gratuito vivido na sua profundidade nos dá capacidade de penetrar na essência das coisas para tirar delas o seu sentido. O grande milagre que se espera dos cristãos e de pessoas de boa vontade é caridade. Além disso, nós cristãos somos chamados a reconhecer e a nos alegrar de tantos sinais de bondade que encontramos entre os homens, independentemente de sua crença, entre aqueles que não pensam como nós, porque toda esta bondade é um sinal de que Deus opera neles a salvação e, conseqüentemente somos chamados a dar graças a Deus por esta bondade.
3. A Presença Salvífica Baseada no Amor é Recusada: Um Deus que busca os homens comprometidos com Sua causa
O caminho de amor oferecido por Deus em Jesus Cristo foi recusado pelos nazarenos. Eles querem somente um Deus milagreiro.
O evangelho da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2) registra respostas e reações diferentes de pessoas diante do mistério e da experiência da Encarnação. João Batista ainda no ventre de sua mãe, Isabel, pulou e dançou de alegria no encontro com Jesus que estava no ventre de Maria (Lc 1,44). Os pastores e os magos adoraram e prestaram homenagem ao recém-nascido, Jesus Cristo (Lc 2,8-20; Mt 2,1-12). O velho Simeão e a profetisa Ana encontraram o menino Jesus e o chamaram de Redentor e profetizaram sobre ele (Lc 2,22-38). Mas Herodes e sua corte tremeram de medo diante das notícias do nascimento de Jesus e planejaram matar a criança (Mt 2,13-23). As mais espantosas e dramáticas reações diante da Encarnação partiram dos próprios conterrâneos de Jesus, os nazarenos. O evangelista João, no prólogo do seu evangelho, resume de maneira precisa essas reações negativas ao dizer: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Mas a todos aqueles que O receberam, aos que crêem em seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,11-12).
Em Nazaré Jesus coloca seu programa de ação, no qual coloca os menos favorecidos em primeiro lugar (cf. Lc 4,18-19). Jesus quer mostrar o caminho de amor, único capaz de transformar todos em irmãos, mas os nazarenos não aceitam esse caminho. Os nazarenos esperavam um messias espetacular e poderoso capaz de ações mágicas e miraculosas. Eles queriam apenas milagres. Eles querem somente um Deus milagreiro. Os nazarenos querem que Jesus faça milagres em sua terra: “Faz também aqui na terra o que ouvimos falar que fizestes em Cafarnaum”. Esta é a atitude de quem procura Jesus para ver o seu espetáculo ou para resolver os seus probleminhas pessoais, sem se comprometer com a causa de Jesus. Mas Jesus se recusa a ser ídolo de abundância, do prestígio, do poder e da riqueza (cf. Lc 4,1-12), pois como diz São Paulo: “Tudo cessará” (cf. 1Cor 13,1ss). Ele não é um exibicionista que esteja querendo se afirmar para ganhar prestígio. Em Nazaré ele não faz milagres porque os nazarenos não reconhecem a pessoa que ele é.
Os nazarenos julgam conhecer Jesus porque o viram crescer no meio deles, sabem identificar a sua família e os seus amigos, mas eles não perceberam a profundidade do seu mistério. Eles são incapazes de ver no aspecto cotidiano da vida a presença de Deus no meio deles. Trata-se de um conhecimento superficial, teórico que não leva a uma verdadeira adesão à proposta de Jesus.
A partir deste pensamento precisamos responder as seguintes perguntas: O que motiva você a procurar Jesus? Você lida com Jesus todos os dias, fala alguns minutos diariamente com ele e sobre ele. Mas, será que a proposta de Jesus tem impacto em você e transforma a sua existência? Que tipo de Deus em quem você supostamente acredita: Um Deus de quem você espera espetáculo em seu favor, ou um Deus que em Jesus Cristo o apresenta uma proposta séria de salvação que é preciso concretizar na sua vida de cada dia?
4. O profeta vive de olhos postos em Deus e na realidade vivida no momento
”Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24), diz Jesus. As palavras de Jesus aqui e em 13,34 refletem uma tradição judaica segundo a qual Israel de rotina rejeitava e perseguia os profetas (2Cr 36,15-16; Sl 78; 105; 106; Lm 4,13; At 7,51-53).
No AT os profetas se apresentam como guias espirituais suscitados por Deus para levar o povo à fidelidade à aliança. A vocação de um profeta é um encontro com Deus e com Sua Palavra (cf. Jr 1,4). A Palavra de Deus marca a vida do profeta e passa a ser a única coisa decisiva na sua vida. O profeta é aquele que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo. É uma pessoa atenta diante de Deus e do mundo. Por isso, um profeta é jamais uma pessoa isolada de Deus nem dos acontecimentos do mundo. Ele vive em comunhão com Deus e intui o projeto que Deus tem para o mundo e confronta esse projeto com a realidade dos homens. Sua função é além de anunciar a Palavra de Deus, também despertar a consciência do povo de que estão sendo infiéis do caminho de Deus. Se o profeta se dirige ao povo infiel, sua primeira palavra será de denúncia. O profeta se distancia da situação e abre os olhos para a verdade do momento. E sendo extremamente fiel à aliança feita outrora com Deus, o profeta é profundamente inovador, pois transmite a palavra do Deus vivo e exige a transformação. A denúncia profética implica a perseguição, o sofrimento, a marginalização e muitas vezes, a própria morte. Por isso, ele é mais facilmente aceito por quem está fora do sistema vigente. Ele nunca é um personagem aplaudido e elogiado pelas multidões, e menos ainda pelos que retém em suas mãos o poder, porque o profeta contempla o mundo com os olhos de Deus.
Jesus é o Messias – profeta, e morreu por ter sido como Messias - profeta. Cada cristão é um profeta, uma função que ele recebeu no batismo, pois Jesus desempenhou também o papel profético. Temos consciência desta vocação? Temos coragem de orientar e de corrigir e de aceitar a orientação e a correção dos outros? Temos medo de dizer a verdade e temos a coragem de aceitar a verdade? Muitos sabem que estão errados, mas querem defender seus erros por causa dos seus interesses ou vantagens pessoais. Mas diante de Deus a verdade triunfa e por isso, a verdade nos libertará.

Festa de Bodas de Caná e seu sentido
FESTA DE BODAS EM CANÁ E SEU SENTIDO
Jo 2,1-11
O texto do evangelho deste domingo é rico demais para poder se falar em poucas páginas. Por esta razão nesta reflexão encontram-se apenas alguns pontos da riqueza do texto.
1. O Evangelho que nos ensina a irmos além das aparências
O evangelho de João foi escrito em torno dos anos 90-100. Por isso, evangelista João é o autor mais tardio do NT. Por essa razão, ele oferece à Igreja uma das reflexões mais maduras sobre a pessoa e as obras do Senhor. Precisamos, portanto, prestar bastante atenção para os detalhes de cada relato no seu evangelho.
O evangelista João jamais emprega a palavra milagre (dýnamis, grego: ato de poder e de força) que aparece com muita freqüência nos sinóticos. Em vez disso, ele usa o termo “sinal” (seméion, grego. Cf. Jo 2,1-11; 4,46-54; 5,1-9; 6,1-15; 6,16-21; 9,1-41; 11,1-44). Este termo pertence ao vocabulário técnico do quarto evangelho, onde aparece 17 vezes, sobretudo na primeira metade. Em João, “sinal” é ação/obra realizada por Jesus que, sendo visível, leva por si ao conhecimento de realidade superior. O “sinal” remete a outra coisa, designa um acontecimento que não pertence ao mundo empírico. O “sinal” visa a outra realidade além de si mesmo. Os “sinais joaninos”, porém, não somente apontam para uma realidade que está além da coisa ou acontecimento visível, mas contém já em si mesmos a realidade significada. Eles são, de certo modo, uma manifestação da “glória” de Jesus. Este termo joanino inclui sempre dois aspectos: demonstrativo, o sinal suscita a fé dos discípulos em Jesus (cf. Jo 2,11b; 4,53b; 6,14; 9,33. 35-37; 11,45) e expressivo, ele manifesta a glória daquele que o opera.
Por estar cheio de sinais e por ser tão profundo, o quarto evangelho é considerado como evangelho para os cristãos maduros. E para esse evangelho um dos sinais da maturidade é a capacidade de ir além das aparências para descobrir seu verdadeiro significado. A capacidade de penetrar na essência das coisas ou dos acontecimentos nos evita qualquer precipitação nas nossas conclusões e nos nossos julgamentos e pré-julgamentos sobre os outros ou acontecimentos. A capacidade de penetrar na essência das coisas e acontecimentos freia nosso olhar crítico e nos veste de paciência, de compreensão e de olhar de Deus. A precipitação é o inimigo da perfeição e do amor. Quantas vezes erramos ou complicamos a nossa vida e a dos outros por causa de nossa incapacidade de frear nossos julgamentos e pré-julgamentos. Poderíamos evitar tantas desgraças na nossa vida, se soubéssemos aprender a fazer uma leitura fria, sob a luz divina, dos acontecimentos. Se ficarmos apenas nas aparências, provavelmente somos ainda pessoas superficiais, incapazes de mergulhar na profundeza dos acontecimentos, no seu significado. O quarto evangelho quer nos dizer: “Antes de sua decisão, de seu julgamento, peça a Deus para que você possa captar o significado de todos os sinais de Deus na sua vida e na vida dos outros. Somente assim você o irmão dos outros”.
2. O nosso Deus é aquele nos mostra logo a vitória final
O texto diz: “No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galiléia” (v.1). Precisamos entender o sentido do “terceiro dia” neste texto.
A expressão “no terceiro dia” não funciona apenas para ligar a nova cena a cena anterior, mas para o evangelista é muito mais do que isso. O “terceiro dia” aqui está relacionado também com o “terceiro dia” da Ressurreição de Cristo (veja Jo 2,19-22 em que Jesus usará a expressão “em três dias” = “terceiro dia” para falar de sua Ressurreição; cf. também 1 Cor 15,3-4). O sentido da ressurreição do “terceiro dia” está relacionado com a “Hora de Jesus”: “Mulher... a minha hora ainda não chegou” (v.4). A “Hora de Jesus” para o quarto evangelho designa, como uma realidade única, paixão-morte-ressurreição de Cristo (para ter mais informações detalhadas sobre o sentido da expressão “no terceiro dia”, leia: Maria em Caná e Junto à Cruz, de A. M. Serra, da ed. Paulinas [antiga), uma obra traduzida de italiano: Maria a Cana e Presso La Croce).
O evangelista João faz uma ligação entre o primeiro sinal de Jesus e sua ressurreição. Jesus começa sua atividade para mostrar logo o fim vitorioso: seu mistério pascal entendido com paixão-morte-ressurreição de Cristo. Desde o início Jesus até o fim Jesus mostra a sua vontade à vontade de Pai e por isso, terminará com a ressurreição- glorificação.
Tudo isto quer nos dizer que precisamos experimentar, em todos os momentos de nossa vida, a presença de Jesus ressuscitado em nossa vida. Experimentar o poder e a força da ressurreição significa ter força mais do que suficiente para encarar a “falta de vinho”, aquilo que nos dá alegria para viver como filhos e filhas de Deus. Para isso, precisamos ser fiéis ou ser justos até o fim a exemplo de Jesus Cristo para merecermos um dia a glorificação.
3. O nosso Deus é Aquele que nos plenifica com seu amor
O primeiro sinal de Jesus acontece num casamento/bodas. Não se pode falar de um casamento sem se falar do amor e da fidelidade. Na linguagem bíblica, o casamento é símbolo da aliança com Deus, sublinhando a relação de amor e fidelidade entre Deus e o povo (Is 49,14-26; 54,48; 62,4-5; Jr 2; Ez 16). A eleição do povo e a aliança foram expressão do amor de Deus por ele (Dt 4,37; 7,7s; 10,15). Os profetas usaram muitas vezes a imagem de casamento para falar do amor mútuo entre Deus e Israel (Is 62,4-5; Os 2,18-22). Portanto, o casamento em Caná é simbólico. O verdadeiro esposo da humanidade é Jesus (3,29). E toda a Igreja é uma esposa.
Nas bodas de Caná “estava ali a mãe de Jesus”. Para o evangelista João, a figura da mãe de Jesus é central, pois a partir dela é que a atenção se projetará sobre Jesus. A manifestação da glória de Cristo passa através da mãe. (No evangelho de João a mãe de Jesus aparece somente duas vezes, mas nos momentos mais importantes. Em primeiro lugar, Maria atua na realização do primeiro sinal de Jesus, no momento em que Jesus inaugura sua missão pública(Jo 2,1-11). Em segundo lugar, Maria permanece ao pé da cruz, no momento da morte de Jesus, no final de sua missão nesse mundo(cf. Jo 19,25-27). O evangelista João quer nos dizer que Maria tem um lugar especial no seu evangelho, pois ela se faz presente nos momentos mais importantes da vida e da missão de Jesus. Tudo que se prefigura no primeiro sinal se cumpre na cena da mãe de Jesus ao lado da cruz).
Nessa festa a Mãe de Jesus percebe a falta de vinho. O vinho, na Bíblia, simboliza o amor (cf. Ct 1,2; 7,10; 8,2). A antiga aliança, portanto, não tem mais sentido, pois o amor foi substituído pela Lei. Os seis enormes potes de pedra que serviam para os ritos de purificação (v.6) representam a falta de amor na relação com Deus. Além disso, estão vazios, ou seja, não têm mais nada a dar.
“Eles não têm mais vinho”, são as palavras da Maria dirigidas ao seu Filho, Jesus Cristo. A expressão é semelhante à expressão usada pelos apóstolos antes do milagre da multiplicação dos pães: “Eles não têm mais nada para comer” (cf. Mc 8,2; Mt 15,32; Jo 6,1ss).
Quem são “eles” neste contexto? São aqueles que basearam a relação com Deus numa série de regras, tornando-a fria e paralisada. Ama menos quem se preocupa somente com a regra. Todas as leis devem submeter-se à Lei maior que é o Amor (cf. Jo 15,12). O amor é o vinho da nova e definitiva aliança. Os dirigentes judeus vão responder ao amor pregando Jesus na cruz. Mas o amor é mais forte que a morte. O ódio é vencido em seu próprio terreno por amor.
“Eles não têm mais vinho”. O vinho era essencial para as bodas na época. Por isso, a expressão, “Eles não têm mais vinho” expressa a carência do essencial na vida do homem que cria o mal-estar e desorientação ou confusão. Quando perdermos o essencial na nossa vida ou quando não vivermos mais de acordo com aquilo que é essencial para uma vida digna de um ser humano, aquilo que dá sentido para nossa vida, o resultado só pode ser uma desorientação total e uma complicação para nossa própria vida e a daqueles com quem convivemos.
Diante da carência do vinho, essencial para as festas, Jesus transforma a água em vinho. Se o vinho simboliza o amor que é essencial na vida de um ser humano, isto quer nos dizer que Jesus é Aquele que transforma os homens da lei, que costumam usar a linguagem de julgamento e de condenação, em homens de amor, dos cumpridores das regras em homens enamorados. No evangelho de João Jesus é apresentado como aquele que coloca o serviço de amor como sua missão essencial: “... sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Por isso, o maior mandamento que Jesus deixou é amor: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus nos revelou através de sua vida que a missão de cada cristão não é outra a não ser uma ativação desse amor único à escala da humanidade. O amor é essencial na Igreja, nos grupos, nas pastorais e nos movimentos, já que sem amor não existiria a Igreja e outros grupos. Se o vinho da nova e definitiva aliança é o amor, a missão de cada cristão deve ser como serviço do amor. O amor é essencial à Igreja porque, sem o amor, a Igreja seria nada (cf. 1Cor 13,1ss).
4. É preciso viver aquilo que Jesus ensinou para ter uma vida em abundância
“Fazei tudo o que ele vos disser”, são palavras da Mãe de Jesus aos servidores da festa do casamento em Caná. Como se Maria quisesse lhes dizer: “Vocês querem que aconteçam os milagres na sua vida? Observem, então, as palavras de Jesus! Não tenham medo de fazer aquilo que Jesus manda fazer!”. Pela sua atitude e pelas suas palavras, Maria é modelo para todos os que fazem parte do novo Povo de Deus. Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem o que Deus lhe pede. A perfeita discípula e seguidora de Jesus se torna mestra e guia dos cristãos. Sua frase continua atual. Ela continua nos dizendo hoje: “Vale a pena buscar a vontade de Jesus, ouvir suas palavras e tomar atitudes concretas para que a vida de vocês se torne uma vida feliz e alegre, pois Deus estará sempre ao seu lado”. Maria estimula os seguidores de Jesus a realizarem a vontade de Jesus. Ela ajuda os seguidores a terem fé em Jesus e ficarem junto dele.
Sobre tantos cristãos consagrados no sacramento do matrimônio, sobre tantos religiosos que já perderam o ardor da primeira vocação, sobre tantos sacerdotes que já esqueceram o santo estremecer do dia do chamado por Cristo, sobre tantos casais que não sentem mais o sabor da vida conjugal, precisamos pedir a Maria que interceda por nós todos para que cada vocação, cada profissão seja vivida no amor e com amor.
Revivendo hoje o momento em que o Filho de Deus transforma a água em vinho, precisamos estar conscientes de uma das mais exaltantes mensagens do cristianismo é a mensagem de alegria. Temos que proclamar as razões da alegria, não da tristeza; temos que apontar os motivos do otimismo, não do pessimismo; temos que promover a vida, não a morte; temos que usar a linguagem de amor, não a do julgamento e da condenação. A alegria deveria ser característica de quem vive na fé e caminha para o Reino de Deus. É claro que a fé não nos põe a salvo do sofrimento e dos vários motivos de tristeza. Contudo, é preciso deixar transparecer a certeza de que toda nossa dor se transformará em alegria, pois Deus nos ama. É o testemunho que o mundo espera de nós.

Viver o presente com a lição do passado.
VIVER O PRESENTE COM A LIÇÃO DO PASSADO
CRIANDO UM FUTURO MELHOR
1Jo 2, 18-21; Jo 1, 1-18
Hoje é o ultimo dia do ano no calendário civil. E o evangelho nos mostra Jesus como ponto de referência único da história. Hoje podemos falar de que todo nosso tempo, na vida humana e na fé, tem um único centro e critério: Jesus.
O evangelho nos convida a contemplar este Jesus: nele está toda a graça e o amor de Deus por cada um de nós. Podemos dar graças pelo ano que está terminando, pela salvação que Deus nos dá continuamente; e pedir perdão por tudo que é “anticristo” em nós: somos anticristos, se tivermos critérios de “mentira”, critérios que não são os de Jesus.
Neste último dia do ano, nós como cristãos devemos viver esta mudança de ano a partir de uma triple atitude:
(1). A primeira atitude é a de ação de graças pela vida. Finalizamos mais um ano de nossa vida. E a vida é um dom e uma dádiva de Deus pela qual devemos dar graças. Muitas vezes nos faz falta a vivência de sentir nossa própria vida como uma dádiva que Deus nos fez. Se olharmos para nossa vida a partir do ponto de vista de dádiva, chegaremos a dizer “Como é belo viver!”. Temos que dar graças por um ano vivido na graça de Deus.
(2). A segunda atitude é a de pedir perdão por nossas limitações e debilidades durante o ano que está terminando. É pedir o perdão pela falta de amor nas nossas conversas e em tudo que fizemos. Cada um de nós recebeu um número de talentos, mas nem todos conseguiram render os talentos. Martin Buber dizia: “A grande culpa do homem não é o pecado. A grande culpa do homem consiste em que em todo momento pode se converter, mas não o faz”. "O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer." (Albert Einstein)
(3). A terceira atitude é a de saber que tenho uma missão a cumprir neste ano novo que começa. O mesmo Martin Buber dizia: “Todos nós somos chamados a levar algo à plenitude no mundo”. A partir deste pensamento sabemos que sempre espera em alguma parte deste mundo alguma missão que tenho que realizar. Sempre há alguém em alguma parte deste mundo esperar que eu possa dar-lhe uma esperança nova. Sempre espera em alguma parte deste mundo uma dor que possa morrer em meu amor. Sempre espera em alguma parte da sociedade meu Deus em quem acredito, que me pede o amor para poder encarar tudo na vida, inclusive a dor da perda.
No tempo, existem dois dias acerca dos quais não podemos fazer nada: ontem e amanhã. O passado é observável, mas não é modificável por mais que alguém o tente. O futuro é modificável, mas não é observável, pois ninguém sabe o que vai acontecer amanhã. Os eventos passados contribuem, sim, para o nosso agora. O nosso presente nos ajudará, sim, a determinar o nosso futuro. Porém, não podemos fazer nada a respeito deles, pois ambos estão fora de nosso alcance. A única realidade que temos é o presente. Este instante é tudo que temos. Só podemos agir no momento presente ou nunca mais. E não há como apressar a chegada do próximo instante. É possível que tenhamos tido tempos no passado que foram especiais ou ruins para nós; pode ser que o futuro nos reserve momentos preciosos. Porém, o único tempo realmente “nosso” é este instante em que estamos agora. Cabe a nós decidir o que fazer com ele. Cada momento é meu para torná-lo belo ou doloroso de acordo com minha escolha.
Vitus Gustama, SVD

A Sagrada Familia de Nazaré.
A SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ DEVE SER O ESPELHO DE QUALQUER FAMÍLIA HUMANA (2009)
Eclo 3,33-7.14-17a; Cl 3,12-21; Mt 2,13-15.19-23
A Igreja celebra nesta final de semana, a festa da SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ.
Vamos meditar sobre alguns pontos desta festa como mensagens para nós e para as famílias de todos os tempos olhando para a Sagrada Família de Nazaré.
1. A Presença de Jesus no seu meio enobrece e transcende qualquer Família
A família é uma realidade cardinal na vida. Por isso, João Paulo II disse: “A família é patrimônio da humanidade, porque através dela, de acordo com o desígnio de Deus, se deve prolongar a presença do homem no mundo” (No encontro com as famílias no Rio de Janeiro). A família é o lugar onde, por vontade de Deus e pela natureza se assegura a continuidade de uma humanidade. Além disso, a família é a manifestação de um amor que, tendo sua fonte em Deus, através da comunhão conjugal alcança este mundo e o enriquece.
A família não somente cumpre a missão transcendental de transmitir a vida e prolongar assim a humanidade, mas também é motor da humanidade: “Longe de ser um obstáculo para o desenvolvimento e crescimento da pessoa, a família é o âmbito privilegiado para fazer crescer todas as potencialidades pessoais e sociais que o ser humano leva inscritos em seu ser”, disse João Paulo II no mesmo encontro. A família é o ambiente em que cada um dos filhos descobre e inicia a caminhada de sua vocação humana e cristã. A experiência de comunhão e participação que caracteriza a vida diária da família representa sua primeira e fundamental contribuição à humanização e socialização da pessoa. A família é primeira e insubstituível escola criadora de humanidade, exemplo e estímulo para as relações comunitárias mais amplas, mediante a transmissão de virtudes e valores. Numa sociedade que corre o perigo de ser cada vez mais despersonalizada e massificada, e, portanto, inumana e desumanizadora, a família possui e comunica, portanto, hoje energias formidáveis capazes de tirar o homem do anonimato, de mantê-lo consciente de sua dignidade pessoal, de enriquecê-lo com profunda humanidade. Através das relações que se vivem no seio da família, se desperta a experiência da paternidade de Deus e da fraternidade de Cristo.
Por isso, a família, ainda que relativizada, mantém todo seu valor singular e intercambiável. Diversos fatos contemporâneos o confirmam. A experiência dos países onde se levaram ao máximo a socialização e os estudos psicanalíticos mostram a decisiva transcendência que para toda a vida tem a relação paterno-filial.
A fé cristã nos apresenta a família como o primeiro lugar e a primeira experiência da vocação que todos nós seres humanos temos: a construir e integrar-nos na grande família humana (Gaudium et Spes, 2), isto é, a grande família dos filhos de Deus.
A festa de Natal nos recorda que Cristo, o Filho de Deus, escolheu uma família para fazer presente sua Encarnação e sua Boa Notícia no meio da família humana. Para Jesus uma família foi o espaço físico e humano onde consolida e desenvolve sua humanidade: “Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens” (cf. Lc 2,52). Maria e José foram testemunhas e promotores do crescimento vital e pessoal do Filho de Deus encarnado na humanidade e que eles servem de guia para os esposos e as famílias para que sua caminhada alcance a plenitude de sua vocação. O mistério da Encarnação está associado com a vida de uma família concreta, e partir dela com todas as famílias que com sua entrega e testemunho enriquecem a humanidade.
A vida familiar é um valor importantíssimo, mas não absoluto. A encarnação de Deus no seio de uma família quer nos dizer que para que uma família possa chegar à sua plenitude, à sua felicidade completa Jesus deve ser um dos membros permanentes da família. Por isso, mais tarde ele vai nos dizer: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Jesus buscou, antes de tudo, a vontade de seu Pai. Os laços familiares estavam subordinados à missão que ele recebeu do Pai.
Por isso, a família deve ser amada, apreciada, estimada e recordada porque ela é o lugar de Deus e dos homens. A família não se mede pelo número de pessoas, mas pela paz aí reinante. Quando os pais e os filhos não se amam, a casa se torna um hotel. A família- hotel é um lar de desconhecidos. Os hotéis enchem-se de hóspedes, mas nem sempre são amigos. No hotel estão próximos apenas por causa das paredes, mas suas almas estão isoladas e fechadas. Uma família- hotel é o lugar onde ninguém se interessa pelas pessoas, apenas pelo negócio rendoso.
2. A Sagrada Família ensina cada família a deixar-se conduzir por Deus
Natal é um tempo familiar. E isto tem uma importância religiosa e psicológica: necessitamos voltar às origens, às raízes, à nossa família. Os valores recebidos na família são os valores vividos na convivência com os demais, fora da família. No plano espiritual fazemos isto em nossas celebrações litúrgicas, renovando nossas “origens sagradas” quando celebramos o nascimento do Senhor. Todos são chamados a valorizar e a salvar sua família a exemplo da Sagrada Família de Nazaré.
A figura de José na fuga para o Egito ocupa um dos lugares importantes no relato. O Egito era o lugar idôneo de refúgio político. Nos primeiros anos da era cristã calculava Filón em um milhão os judeus que viviam no Egito. O Egito era província romana governada por um prefeito e fora da jurisdição de Herodes.
Herodes faz planos para tirar a vida do Menino Jesus do seio da família de Nazaré. E José se levanta e faz tudo o que o anjo do Senhor disse no Sonho para fugir ao Egito. Somente uma pessoa muito exercitada na busca da vontade de Deus em sua vida, como São José, pode levar à prática uma ordem como a que José recebeu. O texto quer nos dizer que José está plenamente orientado para Deus. Por isso, o Deus-Pai pode atuar facilmente e ser escutado. É o que acontece sempre com uma pessoa cheia do Espírito de Deus. O anjo do Senhor não indica a José sobre quanto tempo deve ficar no Egito. O anjo o deixa na incerteza. José tem que se limitar em fazer aquilo que lhe é indicado em cada momento. É assim que Deus atua na vida de cada um de nós. Cada um tem que saber o momento de Deus sem pressa, pois o tempo é de Deus. O importante é que cada um esteja sempre em sintonia com Deus e seus planos, como São José. Muitas vezes somos tentados a interpretar Deus e sua vontade de acordo com nossos próprios interesses. Para conhecer os planos de Deus sobre o mundo em geral e sobre cada família em particular são necessárias a plena disponibilidade, a oração e a meditação da Palavra de Deus, o estudo das Escrituras e o silêncio. Não há obra prima e perfeita que não seja fruto de um silêncio. De tudo isto brota a verdadeira ação cristã. Ação que nos levará constantemente ao estudo e à oração no silêncio interior e vice-versa.
Além de refletir sobre a obediência de José, também somos chamados a contemplar o silêncio de Maria e José neste relato. Na vida não basta contemplarmos somente o que as pessoas fazem e falam, mas também o seu silêncio, aquilo que elas não falam, mas dizem muito. Para entender o silêncio do outro é necessário criar o próprio silêncio. Neste relato Maria e José não falam, mas fazem tudo em silêncio. Dizem que quem faz muito barulho porque faz muito pouco ou talvez nada faça. A presença de Maria é sublinhada quatro vezes no relato. Ela é denominada, significativamente, não pelo seu nome próprio, mas como mãe: “o menino e sua mãe” (cf. Mt 2,13. 14.20.21). A vida e a história, a vocação e a missão de Maria são inseparáveis das de Jesus. E José? É ele quem recebe a ordem de fugir para o Egito e de voltar para a terra de Israel (vv.13.19-10); é ele quem as executa pronta e fielmente (vv.14.21.23). É ele quem protege Jesus dos que o buscam para matá-lo e que o traz de volta para a Galiléia. O que é que o silêncio produtivo de Maria e de José diz para nós?
Em Maria e José podemos também ver o rosto de todas as mães e pais que cuidam e criam os filhos com muito sacrifício, muita dedicação por causa do amor que eles têm por eles. Tudo isso nos faz lembrar de tantas mães que muitas vezes não dormem a noite inteira para estar com o filho doente ou ficam impotentes perante a doença incurável de um filho que está à beira da morte ou as mães que enfrentam uma fila enorme nos hospitais para evitar o filho da ameaça da morte. O Natal certamente é um momento oportuno para ver o nosso natal (nascimento) pelo qual podemos ver os nossos pais e seus sofrimentos ao nos criarem e a dívida que temos por eles.

Natal e suas mensagens.
NATAL E SUAS MENSAGENS
“O Verbo se fez carne e habitou entre nós”
1. A encarnação é o mistério do amor apaixonado de Deus por nós
A encarnação do Filho de Deus desafia a lógica humana ou do mundo porque ela só poderá ser aceita a partir da fé no amor de um Deus que ama os homens até o extremo de se tornar igual a eles para que cada ser humano se torne um filho ou uma filha de Deus: “Deus tanto amou o mundo, que entregou seu Filho único, para que quem crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Fora do amor deste Deus apaixonado pela humanidade não entenderíamos nada da encarnação. A encarnação é uma mensagem forte do amor de Deus por nós todos. E Jesus levará seriamente este amor até aceitará ser crucificado na cruz. O mistério da encarnação é o mistério do amor de Deus que assume a condição humana para salvá-la e divinizá-la. O amor sempre fascina e atrai qualquer ser vivo e o transforma em criatura amigável e amável. O amor dá a segurança, facilita o crescimento humano e cria a harmonia entre as pessoas ou entre os seres vivos.
2. Na encarnação Deus se humaniza
No Natal celebramos a humanização de Deus. Na encarnação Deus introduziu o germe divino em nossa natureza mortal para que não ficássemos entregues à efemeridade e debilidade da natureza humana. Ao se encarnar Deus quer ensinar o ser humano a descobrir sua dignidade divina, pois Deus se torna um deles. O Papa Leão no seu sermão de Natal dizia: “Cristão, reconhece tua dignidade! Tomaste parte na natureza divina, não regresses à velha indigência, e não vivas abaixo de tua dignidade!” Isto nos desafia a viver de acordo com nossa dignidade divina.
A encarnação de Deus também nos ensina a sermos mais humanos. Para podermos servir bem os outros, para podermos trabalhar com muito ardor devemos ser muito humanos. A encarnação nos mostra como podemos nos tornar verdadeiramente humanos. Cristo desceu do céu até o nível da humanidade. Por isso, para sermos muito humanos o primeiro passo consiste em ter coragem para descer à nossa humanidade e terrenidade. Nós fomos tirados da terra. Cristo desceu até nós para que, por ele, como por uma escada, possamos subir até Deus. A meta desta descida é a nossa elevação pelo Espírito de Deus. Apenas quem aceita a sua humanidade é que pode subir ao céu. Se Deus não nascer em nós, permaneceremos alienados de nós mesmos e dos outros. Cristo pode nascer até mil vezes em Belém, mas se nenhuma vez em nós, em nosso coração, em nosso lar, permaneceremos eternamente perdidos e seremos muito desumanos para com os outros. Mas se Cristo nascer em nós, entraremos em contato com o nosso próprio ser, com a imagem intocada e genuína de Deus. Conseqüentemente, nossa vida ficará verdadeiramente nova, sã, iluminada e mais humana.
3. Deus se manifesta como uma criança
No Natal Deus vem ao nosso mundo como uma criança e não como um adulto. Ninguém resiste diante de uma criança. A criança é uma criatura frágil, desamparada, indefesa e dependente totalmente dos pais ou dos adultos. Por ser frágil não podemos agarrá-la com força. Ao contrário precisamos nos aproximar dela com carinho e mansidão. Para uma criança não fazemos discursos inteligentes, mas usamos somente palavras que vêm do coração ou alguns gestos carinhosos. A criança quer sempre aprender. Ela confia nos outros e se envolve. Vive o momento presente sem se preocupar o que vem a ser porque confia nos pais. Está sempre aberta ao novo. Quando duas crianças se brigam, em poucos minutos elas voltam a brincar juntas novamente como se nada acontecesse anteriormente.
Se Deus vem ao nosso encontro como uma criança é porque Ele quer nos libertar de nossa megalomania e de querermos ser sempre fortes e independentes. A nossa força tem limites, por isso nenhum ser humano pode ter pretensão de se sentir forte, dispensando a ajuda dos outros. O Natal pretende nos lembrar a criança divina em cada um de nós. No fundo do coração cada um carrega uma criança divina. Quando cada um entrar em contato com a criança dentro de si, sua vida ganha um pouco de leveza e se torna autêntica. O Natal, pela encarnação do Filho de Deus através de uma criança, nos ensina a olhar para dentro de nós. Dentro de nós não encontramos apenas problemas, divisão, confusão, desejos, ilusões frustradas, feridas e mágoas. Dentro de nós há também Cristo (cf. 1Cor 3,16s). Por isso, o que celebramos hoje não é um fato passado que dorme na história. O mistério do Deus-feito-homem tem lugar hoje, no agora da festa. Em cada Eucaristia entramos em comunhão com Ele e ao terminar a missa nós não vamos sair sozinhos, e sim nó vamos sair com ele, pois ele é o Deus-Conosco.
4. Pela encarnação aprendemos a encontrar Deus nas pequenas coisas
O nascimento de Jesus é atestado por Lucas quando escreve que Maria “envolveu seu filho em faixas” (v.7). Esse detalhe é tão realístico a ponto de o anjo do Natal divulgá-lo entre os pastores como sinal para poder reconhecer o filho de Maria (v.12). Graças a esse sinal que “os pastores, às pressas, vão vê-lo”, reconhecem e encontram o menino Jesus. O nascimento de Jesus, então, é descrito com a maior simplicidade.
Tudo isso é o mistério da nossa fé que proclamamos como cristãos: nas coisas pequenas revelam-se as grandes; no pequeno pão está presente o Filho de Deus. No cálice está presente o sangue de Jesus; na comunhão eucarística que recebemos, Deus nos abraça e vem ao nosso encontro; na doença que nos faz sofrer e na morte que nos impõe medo, há a presença misericordiosa do Filho de Deus que nos convida a entrarmos com ele em seu Reino. Em todas as circunstâncias da vida do dia-a-dia, mesmo as mais infelizes, mediante as incompreensões, as doenças, e a monotonia da vida, está sempre presente o lado amoroso, o lado da alegria, do Espírito Santo, da abertura do coração. O fascínio do Natal, mais forte que todas as luzes multicoloridas acesas pelo consumismo, está aqui: encontra-se o sentido da vida, do homem, das coisas simples, sentido do qual ninguém deveria afastar-se, porque nele reside o verdadeiro, o autêntico. Quem souber olhar bem longe com os olhos do coração e com a inteligência da fé, ali encontrará um germe da Presença divina que situa o homem na plena verdade de si mesmo.
O Natal nos ensina a buscarmos e a vermos o inefável mistério divino não em coisas incomuns e maravilhosas, mas naquilo que tem aspecto cotidiano, simples e terreno. Isto quer dizer que, a partir do Natal, tudo que é humano simplesmente pode ser como que manifestação divina, sinal visível da presença de Deus. Minha relação com o aspecto cotidiano desta vida será o critério para saber se eu descobri ou não o sentido do Natal.

Maria que nos traz o Salvador.
MARIA QUE NOS TRAZ O SALVADOR
Lc 1,39-45
A figura de Maria, chamada por Isabel de “Mãe do meu Senhor” (Lc 1,43) está em destaque no quarto domingo do Advento. Maria, a Mãe do Senhor, é a terceira personagem do Advento (além de João Batista e o profeta Isaías). Nela culmina e adquire uma dimensão toda maravilhosa a esperança do messianismo. Maria espera a chegada do Senhor cooperando na obra redentora. De certo modo pode-se dizer que o Advento é o mês litúrgico mariano, pois neste tempo Maria aparece nos textos bíblicos, especialmente na última semana. Sua atitude de disponibilidade, de colaboração na obra redentora, de confiança incondicional em Deus e de esperança ativa é um modelo que merece ser seguido pelos cristãos.
O texto do evangelho para este domingo faz parte do “evangelho da Infância” com um gênero literário especial porque não pretende ser um relato fidedigno sobre acontecimentos, mas é uma catequese cuja finalidade é proclamar as realidades salvíficas: que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o Deus conosco. E dentro desse quadro teológico Maria tem sua participação ativa.
1. Maria que partiu “apressadamente”
A expressão “apressadamente” não descreve a presteza externa com que parte nem descreve o estado psicológico de Maria. Lc quer sublinhar a atitude interior de fé e de obediência de Maria. Sua “pressa” está dinamizada pelo fervor interior, pela alegria e, sobretudo, pela fé (cf. Lc 1,38. 45). “Apressadamente” significa, por isso, seriedade, empenho, solicitude, zelo, entusiasmo, ardor, prontidão etc.. No sentido teológico, então, a pressa de Maria é um reflexo da sua obediência, como serva e discípula fiel, em relação ao plano que lhe foi revelado pelo anjo, um plano que previa a gravidez de Isabel (cf. Lc 1,36).
Segundo M. Descalzo, a viagem de Maria para visitar Isabel foi “a primeira procissão do Corpus Christi”. O corpo de Maria foi o ostensório vivo e precioso que carrega por primeira vez o Corpo de Cristo. Mas se nos mergulharmos um pouco mais no mistério, descobriremos que, na verdade, Maria é levada por Aquele que ela leva no seu ventre.
Quando Jesus, Deus-conosco, entra e atua na história de uma pessoa e O tem realmente no coração, esse mesmo Jesus vai levar essa pessoa ao encontro dos outros, especialmente aos necessitados para partilhar a alegria e a esperança e irradiará e santificará os que dela se aproximarem. Jesus não deixa ninguém paralisado. Ele faz todos missionários.
2. Maria que “se põe a caminho” enfatiza o aspecto missionário da fé
O Evangelista Lc não descreve que Maria simplesmente “andou”, mas que ela “partiu” /põe-se a caminho”. Nos Evangelhos a idéia de viagem, de caminho, está intimamente ligada à obediência a Deus e ao discipulado de Jesus. O verbo “pôr-se a caminho” tem em Lucas o significado teológico de disponibilidade e obediência aos planos de Deus; pôr-se a caminho significa aceitar total e existencialmente o caminho proposto por Deus, pois esse caminho nos conduz sempre à felicidade embora tenhamos que atravessar vários obstáculos, mas no coração ressoa sempre uma certeza de que Deus está sempre caminhando conosco (Maria foi com Jesus no ventre).
Maria se põe a caminho significa que a partir daquele momento começou a sua vida como resposta à proposta ou aos planos de Deus. É a resposta ao anúncio feito por Deus, que se funda, sobretudo, a leitura de Maria como modelo do discípulo perfeito, como a alma fiel por excelência.
A fé de Maria é uma fé missionária. Depois de dizer o seu “sim”, leva-o através dos caminhos do nosso mundo para suscitar a alegria e o louvor. A viagem de Maria à Judéia, por isso, é um símbolo do caminho da fé que precisa ser testemunhada, compartilhada, que precisa servir; porque a fé não é somente o dom de Deus, mas também é uma resposta humana, e com todo ato humano. Dessa fé é que faz encontro e serviço. E quando a Palavra de Deus é ouvida com autenticidade, como Maria, não pode deixar de ser profundamente criativa e dialogante.
E esta viagem interior, que é o caminho da fé, sempre se caracteriza por certa precariedade, mas esta precariedade nos leva a uma profissão da fé de que não há outras certezas ou outros absolutos nesta vida a não ser o Senhor que é fiel às suas promessas, pois ele é o nosso Deus caminha conosco, o Deus conosco e que para Deus nada é impossível (Lc 1,37).
E caminhar na fé implica mover-se na obscuridade, convencido das realidades que não se vêem (Hb 11,1). E aquele que acredita que existe o Absoluto e sabe aonde vai tem muitas possibilidades de ser feliz e de usufruir de todas as coisas boas que Deus lhe oferece diariamente. E cada felicidade que experimentamos é sempre um prelúdio da felicidade eterna que já deve começar aqui nesta terra.
Não é fácil acreditar, especialmente quando se exige de nós contrariarmos o nosso “bom senso”. Maria nos ensina que vale a pena confiar sempre constantemente nas Palavras do Senhor, “pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1,45), porque o nosso Deus é o Emanuel, o Deus conosco (cf. Mt 1,23).
3. Maria é a primeira discípula que sabe partilhar o que é salvífico
Na anunciação (cf. Lc 1,26-38), Maria se tornou a primeira discípula entre os primeiros cristãos, porque ela ouviu a Palavra de Deus e a aceitou incondicionalmente (Lc 1,38). Na Visitação, ela se apressa em partilhar esta palavra do evangelho com os outros e, no Magnificat, temos sua interpretação dessa palavra que se assemelha à interpretação que seu Filho tinha dado em seu ministério.
Maria é a arca da nova aliança, o lugar da presença de Deus no meio de nós. Como a arca da nova aliança, ela não é um lugar que encerra Deus e sim um lugar que O dá. Ela não é uma arca que esconde o mistério, mas uma arca que o irradia. Maria é Aquela que, habitada pelo mistério, o dá.
Quando na fé se dá espaço ao absoluto primado de Deus, a conseqüência lógica de ser habitado, de ser amado por Deus é sair de si, viver o êxodo sem regresso, que é o amor. O acolhimento da gratuidade do amor eterno torna-se a doação gratuita de tudo que se recebeu. Quem crê e vive da fé, tem capacidade de olhar para fora, aprecia o dom e o comunica. Certamente, respeitamos o dom de Deus quando nos tornamos arca irradiante e quando o restituímos a Deus, que nos estende a mão nos nossos irmãos.
Maria como a primeira discípula cristã exemplifica a tarefa essencial de um seguidor de Cristo. Depois de ouvir a Palavra de Deus e aceitá-la, devemos reparti-la com os outros, não simplesmente repetindo-a, mas interpretando-a, de modo que todos possam vê-la como uma Boa Notícia. O nome “Boa Notícia” traz em si a notícia alegre porque Deus está conosco e com Ele nossa vida tem futuro apesar de tudo.

Alegria por estar com Deus
ALEGRIA POR ESTAR COM DEUS
Lc 3,10-18(Sf 3,14-18; Fl 4,4-7)
“Há gargalhadas que se parecem mais com um soluço
do que com uma risada. Prefiro o pranto esperançoso
do que a alegria sem futuro “(René Juan Trossero).
No Senhor encontrei a razão da minha alegria
O terceiro domingo do Advento é conhecido como o Domingo de Alegria. Toda a liturgia deste domingo é um convite à alegria e à festa insistentemente. A liturgia mantém na antífona de entrada o antigo intróito: “Gaudete in Domino semper!”, “Alegrai-vos sempre no Senhor!”. Daí surge o nome “Dominica Gaudete” (Domingo de Alegria).
Mas surge a pergunta: Será que podemos ainda falar da alegria enquanto um ou mais dos membros de nossa família estão doentes (doenças incuráveis ou drogados, etc.) ou estão com algum problema profissional, financeiro ou familiar/matrimonial? Em que consiste esta alegria? O que é que a Bíblia quer dizer quando convida os homens à alegria? Qual motivo principal da alegria na Bíblia?
No AT, especialmente nos escritos sapienciais (cf. Ecl 9,7s; 11,9s; Pr 15,13. 15.17; Eclo 30,20-25, ect.), a alegria é mencionada muitas vezes e em várias ocasiões e através de várias expressões para designá-la, como: face brilhante, luz, vestes, relação conjugal, vinho, óleo, água do céu, etc.. Segundo o AT, quem tem a verdadeira alegria é aquele que tem temor de Deus, o justo: “O temor ao Senhor é uma glória, um motivo de glória, uma fonte de alegria, uma coroa de regozijo. O temor ao Senhor alegra o coração. Ele nos dá alegria, regozijo e longa vida” (Eclo 1,11-12). O Deus que se revelou como Criador e Salvador é também um dos motivos de alegria no AT (cf. Sl 104,31. 34; 95,1). Além disso, a alegria/bênção é uma das promessas de Deus (cf. Dt 28,3-8).
No NT a alegria se acentua muito mais ainda. O substantivo “alegria” (chara em grego) aparece 59 vezes. Especialmente o Evangelho de Lc, de onde é tirado o texto do evangelho para este domingo, é designado como “o Evangelho da alegria”. O verbo “alegrar-se” (chairo) aparece em Lc 7 vezes, enquanto o mesmo verbo não se encontra em outros evangelhos (cf. Lc 1,14. 44.47.58; 2,10; 10,17. 21; 19,37; 24,52s). O tema sobre a alegria se encontra também na sua segunda obra, no Livro dos Atos (cf. At 2,46; 8,8; 13,48; 15,3. 52; 16,34). Em Lc a alegria é um mandamento de Jesus: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). As epístolas acentuam também o tema sobre a alegria (cf. Tg 1,2; 2Cor 13,11; Fl 4,4; 1Ts 5,16). Para São Paulo, por exemplo, nenhum obstáculo ou dificuldade é capaz de impedir a verdadeira alegria, pois ela é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). Trata-se da origem superior, e por isso, está acima de tudo que é passageiro. Tudo pode passar, inclusive o sofrimento, mas a alegria permanece, pois é o fruto da aceitação de Deus na vida do homem, fruto do Espírito Santo.
Não é por acaso que São Paulo convida cada cristão insistentemente a se alegrar sempre no Senhor, pois ele é a fonte da alegria e nos ama: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4,4). Se interiorizarmos esta rica mensagem de alegria, nada deverá e nada poderá perturbar ou mesmo destruir a nossa paz interior, pois Deus nos ama. Apesar das contrariedades e dos momentos difíceis, o cristão deve levar sempre em seu interior a convicção de estar acompanhado por Alguém que não lhe abandona: “Sendo Deus meu Salvador, confio e não temo, porque minha força e poder são o Senhor” (Is 12,2). A certeza de que Deus olha para nós porque nos ama e de que reside no meio de nós e de que nos acompanha momento a momento (cf. Jo 1,14; Mt 28,20) só pode ter como conseqüência uma imensa alegria no coração de cada um de nós. O olhar amoroso e acolhedor de Deus sobre nós produzem em nós uma sensação profunda de serenidade, alegria e dignidade e nos dá a capacidade de sobreviver até nos ambientes desfavoráveis, mantendo nossa serenidade. Quando nos deixarmos olhar por Deus, as coisas mudarão radicalmente na nossa vida.
Portanto, o motivo principal da alegria na Bíblia é a salvação que se aproxima e que já começou em Jesus Cristo, amor encarnado de Deus e realizador de todas as promessas do AT. Quem tem Deus, sua vida tem futuro. Por isso, a alegria é a característica do cristão que vive na esperança, na expectativa e na certeza da ressurreição; que vive na certeza de uma vitória final que será realizada apesar dos sofrimentos, do fracasso aparente e da morte no presente: “Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se a nós” (Rm 8,18). Por esse futuro garantido os cristãos jamais podem desistir de lutar por um mundo mais fraterno, mais justo, mais solidário e mais humano, onde um se preocupa com o outro, apesar das perseguições constantes. O futuro define por antecipação o presente. Este modo de viver chama-se um modo de viver numa alegria proléptica ou antecipadora, pois a raiz de nossa alegria é a escatologia, a esperança. Com efeito, a tristeza e o desânimo não são apenas sintomas de um profundo cansaço, e sim é um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo tem sua origem na falta de fé em Deus. Toda a nossa existência, qualquer gesto de nossa parte como cristãos, deve manifestar ao mundo que temos origem na transbordante bem-aventurança de Deus que nos chamou e continua nos chamando a concelebrar com Ele o festim eterno de Sua felicidade e da Sua alegria. A firme intenção de sermos portadores de alegria e o empenho em contagiar os outros com uma alegria santa, alegria no Senhor, são uma defesa muito eficaz contra a perda da mesma.
Atitudes básicas para se manter na alegria do Senhor
O que devemos fazer para que Deus, fonte de alegria, esteja sempre em nosso coração? “O que devemos fazer” é também a pergunta de três categorias de pessoas para João Batista no evangelho deste domingo a fim de eles poderem receber o Messias esperado.
A pergunta “O que devemos fazer” é habitual nas obras de Lucas (cf. At 2,37; 16,30; 22,10. veja também Lc 10,25. 28.37). Esta pergunta é a expressão que revela a atitude correta de quem está aberto para mudar de vida (conversão) a fim de alcançar a alegria plena. É uma pergunta que expressa a disponibilidade para questionar a própria vida, primeiro passo para uma efetiva tomada de consciência do que é necessário transformar.
João Batista propõe três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência do verdadeiro encontro com o Senhor, fonte da verdadeira alegria. A primeira atitude concreta é esta: é preciso sair do nosso egoísmo e aprender a partilhar: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3,11), diz João Batista para o povo em geral. Os bens que temos à nossa disposição são sempre um dom de Deus. Ninguém tem o direito de se apropriar desses bens em seu benefício exclusivo deixando o irmão morrer de fome. As desigualdades chocantes, a indiferença que nos leva a fechar o coração aos gritos de quem vive abaixo do limiar da dignidade humana, o egoísmo que nos impede de partilhar com quem nada tem para sobreviver, são obstáculos intransponíveis que impedem o Senhor de estar no nosso coração. Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa faltar o trigo, mas porque nós deixamos que falte o amor. Ninguém é tão feliz e livre como aquele que ama. E nunca o egoísmo é tão prejudicial, como quando se disfarça de amor. Você cometerá a maior injustiça quando não ama, pois todas as outras injustiças são fruto da falta do amor. “Enquanto a alma não se liberar de todas as coisas, não poderá ter a capacidade de receber o Espírito de Deus na pura transformação” (São João da Cruz).
A segunda atitude concreta é esta: é preciso quebrar os esquemas de exploração, de imoralidade, de branqueamento de dinheiro sujo, das falcatruas e de enriquecimento ilícito, e proceder com justiça: “Não cobreis mais do que foi estabelecido” (Lc 3,13), ordena João batista aos publicanos. A honestidade nos negócios e equidade na aplicação da justiça é o melhor modo para mudar as estruturas injustas e o melhor caminho para a felicidade chegar ao nosso coração e à nossa família. O comportamento ético é a fase prévia para eliminar a injustiça. “O defeito moral não se define pelo mal que se isenta, mas pelo bem que se abandona” (Santo Agostinho).
A terceira atitude concreta é esta: é preciso renunciar à violência e à prepotência e respeitar absolutamente a dignidade dos nossos irmãos: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário” (Lc 3,14), diz João Batista aos soldados. João Batista chama a atenção sobre “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus. Quem o comete, está fechando o seu coração e a sua vida para a proposta libertadora que Jesus veio trazer.
Estas três atitudes podem resumir-se numa palavra só: amor. Em primeiro lugar, precisamos estar conscientes do amor que Deus tem por nós. Esta consciência de que Deus nos ama, muito mais além de nossas falhas e fraquezas e que o seu amor nos transforma, nos torna menos egoístas e mais humanos e fraternos. Por isso, o amor ao próximo é uma exigência geral. Sem a conversão de amor, não terá sentido a penitência, e a alegria ficará cada vez mais distante de nosso coração. Ser cristão é ser batizado no Espírito, isto é, ser portador da vida de Deus que nos permite testemunharmos Jesus e sua proposta de amor. O amor vivido na convivência com os demais é uma das mais belas constatações que nós, cristãos, podemos fazer. O que renova o mundo e o transforma, não é o medo, mas o amor. Se o medo provoca insegurança, pessimismo, angústia e bloqueamento, o amor, ao contrário, cria dinamismo de superação, nos torna mais humanos e fraternos, nos faz confiar e potencia nosso encontro e nossa comunhão com os outros e atrai a alegria para nós. “A alma que ama a Deus vive mais na outra vida do que nesta; ela vive mais onde ama do que onde vive” (São João da Cruz).

A Palavra de Deus é dirigida a todos.
A PALAVRA DE DEUS É DIRIGIDA A TODOS
Lc 3,1-6(Br 5,1-9; Fl 1,4-6.8-11)
1. A Palavra de Deus que foi dirigida a João é dirigida também a mim
“A Palavra de Deus foi dirigida a João no décimo quinto ano do império de Tibério César...” (Lc 3,1), assim começou o texto do evangelho deste domingo.
A palavra pontua nossa vida cotidiana. Ela nos acompanha quase o tempo todo. Até mesmo o silencio tem significado por causa dela. A palavra nos vincula aos outros e também nos liga a nós mesmos. Por isso, a palavra está no âmago de nossa vida pessoal, social e profissional. Se tomamos a palavra é simplesmente porque temos alguma coisa a dizer e porque isso tem alguma possibilidade de ser entendido. No nível espiritual/teológico, Deus também quer se comunicar com a humanidade através da palavra: “A Palavra de Deus foi dirigida a João”, com a possibilidade de a humanidade entendê-la.
A expressão “a Palavra de Deus foi dirigida a...” é usada freqüentemente no AT para sublinhar a vocação dos profetas (cf. Jr 1,2. 4; Zc 1,1; Mq 1,1; Ez 1,3; Os 1,1 ect.). Isto quer nos dizer que João Batista está na linha profética, mas que para Lc ele é o último profeta que marca a transição de um tempo novo, o tempo de Jesus. Esta expressão (a Palavra de Deus foi dirigida a) quer destacar também a soberania da Palavra de Deus, sua força e seu caráter de acontecimento. Quando Deus fala, faz história. A Palavra de Deus cria acontecimentos ou fatos: “’Faça-se a luz! ’ E a luz foi feito” (Gn 1,3 etc.); “’Vai, seja-te feito conforme a tua fé’. Na mesma hora o servo ficou curado” (Mt 8,13, etc..). Com a vinda da Palavra de Deus sobre João Batista, o Precursor, abre-se o espaço em que a história da salvação de Deus chegou ao seu ponto alto em Jesus Cristo: a promessa se tornou um fato/realidade, pois Deus “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14; cf. Mt 1,23).
Portanto, esta expressão (“a Palavra de Deus foi dirigida a”) é uma expressão do amor de Deus pela humanidade. Deus se faz Palavra de salvação e de justiça ali onde o povo se encontra, onde há opressão, onde há injustiça. A Palavra de Deus dirigida à humanidade funciona não somente como uma mensagem de esperança, mas também como o grito de Deus para que os homens parem de praticar a injustiça e de fazer os outros sofrerem. Deus quer que todos formem uma família em que cada um se torna protetor do outro, pois se sente irmão do outro. Somente desta maneira todos verão a salvação de Deus.
Deus continua dirigindo Sua Palavra para cada um de nós em todos os momentos de nossa vida como resposta DELE para cada situação em que cada um se encontra. Mas só se tomamos consciência de nossa situação é que desejamos ouvir uma palavra de esperança de Deus. A Palavra de Deus é dirigida a nós quando somos responsáveis, quando estamos dispostos a escutá-la e quando não abandonamos o lugar que nos corresponde. Se Deus dirige a Palavra a mim é porque Ele quer me comunicar algo sobre a minha vida. Por isso, eu preciso ouvi-la atentamente toda vez que ela for proclamada e dirigida a mim, e meditá-la seriamente a fim de eu poder viver com outra intensidade. Eu preciso me nutrir desta Palavra, pois somente a Palavra de Deus é capaz de mudar minha mentalidade e meu modo de viver. Somente a Palavra de Deus é capaz de satisfazer meus anseios profundos e não apensa meus desejos. “A Palavra de Deus é comprovada; é um escudo para quem nele se abriga”, diz o Livro do Provérbio (Pr 30,5).
2. A Palavra de Deus dirigida a mim exige a minha conversão
Mas a história da salvação, a história da Palavra divina dirigida a mim, que é sempre a história de diálogo de Deus com comigo, não acontece sem a minha conversão. Por isso, João Batista, ao citar o profeta Isaías, chama todo mundo à conversão: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas”. Quanto mais se afasta do pecado, mais próximo o homem fica de Deus e maior será sua visão sobre a vida e a salvação a ele oferecida. E a nova vida começa quando cada um é capaz de ver no outro o próprio irmão de quem ele deve cuidar e proteger.
Por isso, a humanidade transformada é a humanidade reconciliada na qual a igualdade deve ser realizada/deve acontecer, pois todos são irmãos do mesmo Pai do céu e são integrados em uma família de fé. Este é um dos significados das palavras do profeta Isaías (Is 40,3ss) citadas por Lc: “Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados” (Lc 3,5). Uma humanidade mais igualitária e respeitosa da dignidade de todos é o melhor caminho para que Deus chegue trazendo a salvação para nós. Quando todos se sentem irmãos e formados uma família de fé na qual Deus é o Pai de todos, conseqüentemente “todas as pessoas verão a salvação” (Lc 3,6). O abismo que criamos entre nós é o abismo que criamos entre nós e Deus. A ponte que criamos entre nós e nosso próximo é a ponte que construímos entre nós e Deus. Por isso, todos verão a salvação não somente quando nós recebemos a amizade de Deus e sim quando difundimos essa amizade entre os homens.
3. A Palavra de Deus me coloca a serviço de Deus
Depois que João Batista ouviu e aceitou a Palavra de Deus dirigida a ele, o texto diz: “Ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados...” (Lc 3,3).
A Palavra de Deus ouvida e meditada nos faz falar, nos faz novos anunciadores da mesma. Todos os cristão são chamados a participar do mesmo mistério e ministério profético, do serviço da Palavra de Deus. A Igreja existe para servir a Palavra de Deus e não para se servir dela. Todos nós estamos sob a Palavra de Deus. Não podemos dispor da Palavra de Deus como se fosse nossa. Não podemos ser cristão mudo da Palavra de Deus. Santo Agostinho dizia: “Deus não leva em conta teus talentos, mas tua disponibilidade. Faze o que podes. Deus não te pede mais. Escutando a Palavra de Deus, deixa-a aninhar em tua alma. Mas não te contentes em tê-la contigo. Ajuda-a a crescer e a dar fruto em ti”. Quando Deus pronuncia sua Palavra para nós, que é promessa, nasce a esperança, a esperança que não se frauda. Mas a esperança se faz caminho, pois ela tem uma grande força de mobilização.
Portanto é bom cada um responder esta pergunta: “Depois que você ouviu e meditou a Palavra de Deus dirigida a você hoje, o que você vai fazer com ela nesta semana?”.

Ele vem para nos salvar!
ELE VEM PARA NOS SALVAR
Lc 21,25-28.34-36
1. É Preciso Viver a Vida na Espera
Com o Advento estamos entrando no ano litúrgico “C” durante o qual refletiremos sobre o Evangelho de São Lucas. O termo “advento” é cristão, mas de origem profana/pagã, pois significava chegada, vinda; aniversário de uma chegada, de uma vinda; ou visita oficial de uma personagem importante no tempo de sua posse. Nos escritos cristãos dos primeiros séculos (especialmente a partir do século IV) o termo tornou-se termo clássico para designar a vinda de Cristo.
O tempo do advento tem uma dupla característica. Em primeiro lugar, é o tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se recorda a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens. O advento nos lembra a dimensão histórico-sacramental da salvação. Deus do advento é o Deus da história, o Deus que veio plenamente para a salvação do homem em Jesus de Nazaré em que se revela o Deus de amor (Jo 3,16; 1Jo 4,8. 16). A história é o lugar da realização das promessas de Deus. Em segundo lugar, simultaneamente é o tempo no qual, através desta recordação, o espírito é conduzido à espera da segunda vinda de Cristo no final dos tempos. Entre o tempo da primeira vinda e o tempo da segunda vinda do Senhor há o tempo para a humanidade; é o tempo em que a humanidade faz sua peregrinação terrena, preparando-se para o encontro definitivo com o Senhor do Tempo. Os cristãos, na sua peregrinação terrena, vivem continuamente a tensão do já da salvação toda realizada em Cristo e o ainda-não da sua realização plena e de sua plena manifestação na volta gloriosa do Senhor, juiz e salvador.
Por esta dupla característica, o advento celebra o Deus da esperança (Rm 15,13) e vive a alegre esperança (cf. Rm 8,24s) com fé. A fé une o homem a Cristo, e a esperança abre esta fé para o vasto futuro de Cristo. A fé transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé ampla e lhe dá a vida. Daí a necessidade de cada um viver na vigilância permanentemente para não se pegar de surpresa.
2. É Preciso Erguer a Cabeça para Acolher o Senhor que Vem
O texto do evangelho que se lê neste primeiro domingo do Advento é o de Lc 21,25-28.34-36. Este texto pertence ao chamado “Apocalipse sinótico” (cf. Mc 13; Mt 24-25; Lc 21,5ss). No gênero literário apocalíptico, que se usa freqüentemente no AT, fala-se de cataclismo/sinais catastróficos (cf. Is 13,10) na terra e no céu (as potências do céu são as estrelas que os antigos pensavam solidamente cravadas no firmamento) como sinais antecedentes da vinda do “Dia do Senhor” (cf. Is 24,17-23; 34,4), isto é, o dia em que Deus intervirá na história para libertar definitivamente o seu Povo da escravidão e ao mesmo tempo para inaugurar um tempo de vida cheio de fecundidade e de paz sem fim (cf. Is 13,10; 34,4). Por isso, a descrição catastrófica nesse discurso escatológico-apocalíptica não tem nenhuma intenção de amedrontar ninguém, mas é um convite, ou uma ordem/imperativa para cada cristão abrir o coração à esperança ou à libertação: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21,28).
Os evangelistas sinóticos (Mt, Mc e Lc), ao encerrar a atividade de Jesus em Jerusalém, antes de sua prisão, adotam também um discurso escatológico/apocalíptico nos seus respectivos evangelhos. Lucas e Mateus inspiram seu discurso do Mc 13.
Mas Lucas tem seu próprio estilo, pois seu evangelho foi escrito depois do ano 70 d.C. Para ele a destruição de Jerusalém é um fato passado. Por isso, ele distingue claramente a parusia de Jesus dos eventos ligados ao destino de Jerusalém. Além disso, ele leva em consideração o aspecto histórico e eclesial do discurso dentro do contexto da história da salvação. No discurso ele projeta a sua visão da história da salvação em três momentos: primeiro, a destruição de Jerusalém (julgamento sobre Jerusalém) como o fim de toda uma etapa da história salvífica, mas não é o sinal da chegada do fim; segundo, tempo da missão da Igreja e terceiro, a segunda vinda do Filho do Homem (parusia) que trará a plenitude do Reino de Deus. Ao redimensionar a perspectiva escatológica deste discurso Lucas quer chamar a atenção de dois grupos, seja o dos fanáticos que esperam com impaciência o fim, seja o dos decepcionados e resignados, que não esperam mais nada pela demora, para a necessidade do empenho presente, no Tempo da Igreja. Este é o tempo oportuno do testemunho em meio às perseguições violentas, a confiança e a esperança perseverante na espera da libertação com a vinda gloriosa do Senhor Ressuscitado, o Filho do Homem.
Nesse discurso Lc descreve simultaneamente a catástrofe (vv. 25-26) e a vinda gloriosa do Filho do Homem (vv.27-28). O caos fantástico que Lc descreve aqui nos remete ao caos dos começos (cf. Gn 1,2) em que a Palavra de Deus foi introduzida para estabelecer a harmonia, a beleza e a bondade (do caos para o cosmos pelo poder da Palavra de Deus). Ao final das histórias voltará a ressoar esta mesma Palavra poderosa, porém, será a Palavra Encarnada, Jesus de Nazaré (cf. Jo 1-3.14). Essa Palavra Encarnada recriará a harmonia, a beleza e a bondade. Lucas chama tudo isto de “Libertação”: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (v.28). A palavra “libertação” (apolytrosis: resgate de um cativo) é uma palavra característica da teologia paulina (1Cor 1,30; cf. Rm 3,24; 8,23; Cl 1, 14, etc.) que define o resultado da ação redentora de Jesus em favor dos homens. Jesus veio para resgatar a humanidade prisioneira do egoísmo, do pecado, do caos interior que resulta no caos da convivência e da morte eterna. Em outras palavras, Jesus veio para libertar os homens de todo tipo de escravidão que os impede de viver na dignidade de filhos de Deus.
Por isso, a mensagem desse discurso é bem clara: “... levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (v.28). Lucas quer nos dizer em outras palavras: “Não vos deixeis afundar no desespero porque Jesus, vosso Salvador, vem”. “Levantar-se” e “erguer a cabeça” é a atitude própria de uma sentinela. Para os cristãos “levantar-se” e “erguer a cabeça” são características de quem tem fé e esperança. Essa posição vertical (“levantar-se” e de “erguer a cabeça”) é típica do homem e exprime a sua dignidade como homem, marcando assim a diferença entre todos os outros seres vivos. Para manter a dignidade como homem é preciso manter a diferença diante de outros seres vivos. A Palavra de Deus proclamada neste dia, na verdade, é um grito de Deus a todos que vivem na escravidão e vivem nos seus vícios que só afundam sua dignidade.
Através desse discurso apocalíptico Lc quer dizer que os cristãos não podem entregar-se à utopia futurista, perdendo o laço com a realidade histórica e cotidiana, a realidade do presente embora ela esteja cheia de mentiras, violências, perturbações absurdas que podem levar a desejar o fim. Para Lc, se o Senhor aceitou ser pregado na cruz por amor e venceu a morte através de sua ressurreição, a comunidade cristã não está caminhando rumo a uma utopia anônima, pois Cristo é garantia e primícia da libertação humana. A nossa esperança, por isso, não será fraudada pois ela tem um nome: Jesus Cristo. Por isso, São Paulo diz: ”Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem nos separará do amor de Cristo? Em tudo isto, somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou” (Rm 8,31. 35.37).
Lucas é o evangelista que convida todos os cristãos a viverem constante e conscientemente na esperança baseada na fé com o olhar posto na meta que é a união plena com seu Salvador, Jesus Cristo. No meio das dificuldades, Lc quer levantar o ânimo e a esperança dos cristãos. Por isso, nesse discurso de caráter apocalíptico (escatológico) Lc não dá ênfase no cataclismo e sim na presença majestosa do Filho do Homem quando a esperança puramente humana termina: “Então, eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória” (Lc 21,27). Diante da desesperança humana, a presença gloriosa de Jesus Cristo devolve para os que se apóiam em Deus o que parecia impossível do ponto de vista humano. Por esta razão pede-se de cada cristão que mantenha a cabeça erguida independentemente da gravidade dos problemas existentes.
Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Lucas não fornece informações sobre o fim, mas refunda a esperança no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Ele convida os cristãos a olharem para a história para decifrar seus sinais, que fazem pressagiar/prever já agora a passagem da morte à vida, da escravidão à liberdade (vv. 29-30). O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.
3. É preciso ser vigilante e rezar na espera da vinda do Senhor
A libertação, trazida por Jesus para transformar a nossa existência de escravos do pecado em estado de filhos de Deus, não deve ser esperada de braços cruzados. A esperança libertadora é feita de esperas ativas (vv.34-36). A esperança final preparada por Deus para seus fiéis deve ser nutrida de esperas ativas manifestadas numa vida vivida no Senhor: na oração e na caridade. A esperança final nos faz evitarmos todo modo de existência que impeça a visibilidade do horizonte de Deus. A falta dessa visibilidade faz qualquer pessoa perder as expectativas e acaba vivendo somente em função do presente sem uma visão futura da vida: “Carpe diem, quam minimum credula postero”, dizia Horácio (= Aproveita o dia [de hoje], confiada o menos possível no de amanhã). Porém, para nós cristãos que temos uma visão futura de nossa existência, é preciso “estarmos atentos” a Jesus que sempre vem oferecer-se como dom. São Bernardo dizia: “Existem três vindas do Senhor. De fato, uma vinda escondida acontece entre as duas que conhecemos. Só os eleitos vêem o Senhor como Salvador dentro de si mesmo. A vinda intermédia é, por assim dizer, o caminho que une a primeira à última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, se manifestará como nossa vida; na intermédia, é nosso repouso e nossa consolação”.
Para essa vinda, são necessárias duas atitudes fundamentais: Vigilância/conversão e oração constante.
Vigiar significa estar atento e pronto para acolher o Senhor quando vier. Toda a moral evangélica está fundada na vigilância. De certa forma, o cristão é sinônimo de pessoa vigilante. Ele tem consciência de estar inserido na história da salvação como receptor e como cooperador da graça. O cristão vigilante vive profundamente imerso na história da salvação, isto é, no aqui-e-agora, descobrindo tudo o que lhe oferece e respondendo tudo o que lhe exige o momento presente. O cristão vigilante não se lamenta perante os momentos espinhosos e sufocantes, mas sabe decifrar seu sentido para torná-los em oportunidades preciosas. Ele sempre procura decifrar o sentido das coisas. Vigilância, por isso, significa acordar para os fatos, despertar do sono das ilusões para enfrentar a realidade. O vigilante está sempre em contato com Deus e com a realidade. Ele tem uma intuição do que significa viver, respirar, ver, reunir-se com as pessoas e degustar o mistério de cada momento. A vigilância é a qualidade de quem emprega todo cuidado naquilo que deve ouvir, olhar, pensar, falar e fazer. A vigilância não permite o relaxamento moral e espiritual. Quem precisa satisfazer toda necessidade imediatamente fica dependente, e acaba determinado por suas necessidades, e por isso, perde a liberdade.
Além da vigilância, no seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada dos cristãos. Ela é a expressão mais viva da fé. Quem crê, precisa rezar e quem reza porque acredita. A oração é a alma da espera, o vigor espiritual de quem crê. A oração exige uma relação em que nós permitimos ao Outro (Deus) entrar no centro de nossa pessoa, permitimos que Ele fale ali, permitimos que Ele toque o núcleo sensitivo de nosso ser e permitimos que Ele veja tudo o que nós preferiríamos ocultar na escuridão, pois queríamos que ninguém o soubesse. Por isso, sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos. Além disso, através da oração aprendemos a viver no mundo sem ser do mundo. É na oração que a vida se fortalece. A vida sem um lugar deserto torna-se facilmente destrutiva. Na oração, descobrimos que nossa vida é uma dádiva a agradecer e a compartilhar.
Jesus continuamente visita e freqüenta o coração daqueles que sabem crer, esperar e amar. Se na vida jogarmos sementes de egoísmo, de violência e de orgulho, de arrogância e de prepotência, estes serão nossos companheiros da viagem e por isso, nunca seremos felizes e nunca faremos ninguém feliz. Se jogarmos sementes da justiça, do amor, da fraternidade e da esperança e da fé em Cristo, Cristo será nossa herança feliz e com ele teremos a experiência da libertação. Importa viver sempre na presença de Cristo. Por isso, ”ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (v.36).

Realeza de Cristo E Defesa da Verdade
Realeza de Cristo E Defesa da Verdade
Celebramos nesse final de semana a solenidade de Cristo Rei do Universo. E o texto bíblico para esta celebração é de João 18,33-37 que pertence ao Relato da Paixão de Jesus (Jo 18-19). Este texto quer responder as seguintes perguntas importantes: Qual é o sentido da realeza de Jesus? E por que os judeus e Pilatos a recusam? E qual verdade que Jesus quer testemunhar?
1. A realeza de Jesus Cristo
Pilatos faz a Jesus esta pergunta: “Tu és o Rei dos judeus?” (v.33). Aos olhos de Pilatos, o título “rei dos judeus” podia designar quer um chefe de bando buscando tomar o lugar das autoridades locais reconhecidas por Roma, quer um revolucionário zelote querendo expulsar os pagãos da Terra Santa. Pilatos estava certamente informado de que o povo judeu esperava um rei, chamado “Messias”, que ia restaurar a soberania de Israel (cf. Mt 27,22; Lc 23,2; Mc 15,32).
Ao perguntar a Jesus se era rei, Pilatos queria saber se Jesus pretendia ser um rei terreno, político, com corte, ministros e exércitos. Caso a pergunta de Pilatos tivesse esse sentido, e Jesus respondesse “sim”, estaria configurado o crime de subversão. Conseqüentemente Pilatos teria razão para condenar Jesus.
Mas antes da resposta solene de Jesus para a pergunta de Pilatos, o evangelista João quer chamar a atenção dos leitores para um detalhe importante: Jesus não responde à pergunta imediatamente, mas formula, por sua vez, uma pergunta para Pilatos: “Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros te disseram isto de mim?” (v.34). Ao formular esta pergunta João quer mostrar que quem, na verdade, conduz a discussão é Jesus, e não Pilatos.
Jesus responde solenemente à pergunta de Pilatos nos vv. 36-37. Três vezes ele diz: “o meu reino”.
Essa primeira pergunta de Pila tos (Tu és o Rei dos judeus?) não nasce de uma avaliação pessoal dele (v.34), mas é formulada por sugestão dos judeus. Pilatos não percebe a advertência implícita que ele pode estar sendo manipulado. Com sua pergunta, Jesus quer induzir Pilatos a fazer a pergunta certa: “... O que fizeste?” (v.35). Daí é que se deve partir, da atuação de Jesus, não da interpretação que os judeus lhe conferem. Sua atuação mostra que ele é rei, mas de maneira totalmente diferente de como os judeus queriam dar a entender.
Por isso, Jesus insiste na origem de sua realeza: “O meu reino não é deste mundo” (v.36). Em que consiste, então, a realeza de Cristo se não é deste mundo?
Não há nada em comum entre a realeza de Cristo e a do mundo. A realeza do mundo manifesta-se no poder, na riqueza, na ambição, na imposição, na prepotência, no autoritarismo, na busca de si e é defendida pelas armas. Possuir, conquistar, exterminar, são, para a realeza mundana, provas de força, mas para Jesus, são manifestação da fraqueza. A tirania ou ditadura é a força dos fracos. A realeza do mundo gera como conseqüência, opressão, injustiça, corrupção, e sofrimento, escravidão e morte para o povo.
A realeza de Jesus manifesta-se na doação de sua vida para que o povo possa viver (cf. Jo 10,10) e, por isso é que a realeza de Jesus tem seu ponto alto na cruz. A realeza de Cristo se manifesta no amor e no serviço à verdade, e a única coisa que pretende é a obediência à verdade. A verdade não precisa de outra defesa senão ela mesma. Não precisa das armas de que os homens se valem para defender a precariedade de suas conquistas. Jesus não elimina ninguém. Ao contrário, ele é que se entrega à morte para salvar os homens. Não faz alianças com os grandes e poderosos, mas põe-se ao lado dos indefesos. A realeza de Cristo é uma realeza que toca os corações e que em vez de produzir opressão e morte, produz vida e liberdade. A realeza de Cristo consiste não na imposição e sim na proposição de um mundo novo para os homens numa lógica de amor, de doação, de entrega e de serviço. A realeza de Cristo se concretiza na luta contra o egoísmo que impede o homem de ser feliz e livre. A realeza de Cristo se manifesta e se consuma na proposição de uma vida feita dom, amor e doação para Deus e os irmãos. Se Deus é amor (1Jo 4,8. 16) que se manifesta na atuação de Jesus, conseqüentemente, a realeza de Cristo não se apaga pelo tempo, pois “seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,14). Tudo isto não se alcança pela lógica de poder e de força, mas através do amor, da partilha, do serviço simples, humilde e silencioso em favor dos irmãos. Por isso, o reino de Cristo cresce onde se manifesta a atitude de serviço, de amor, de doação generosa em favor do irmão; cresce onde há respeito pelos outros; cresce onde a vida se defende no seu início, na sua duração e no seu fim.
2.2. Jesus veio para testemunhar a Verdade
O texto termina com um apelo de Jesus a decidir-se pela verdade: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (v.37b). O que é verdade? Será que coincide com a verdade que sai da boca de Jesus? De que maneira Jesus a testemunha?
Na filosofia a verdade se define como conformidade da inteligência com seu objeto (Adaequatio intellectus ad rem), ou, ontologicamente como conformidade da coisa com a inteligência (Adaequatio rei ad intellectum). Por isso, há a verdade lógica que é uma propriedade da inteligência que conhece, e há também a verdade ontológica que é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal (alétheia, termo grego que define a verdade como revelação do ente).
Biblicamente (cf. Jo 1,14; 14,6), a verdade significa lealdade, fidelidade, coerência e firmeza no pacto, na amizade, no amor. Ela significa a experiência do encontro com Deus, e por isso, envolve o ser humano todo em sua inteligência, vontade, ação e sentimento. Ela significa a fidelidade a esse encontro, que a Bíblia chama de Aliança. Ela significa a sabedoria, isto é, o gosto da presença e vivência de Deus cotidianamente da criatura humana. Por isso, quando o Salmo diz: “Ensina-me a tua verdade” (Sl 25(24), 5) é o mesmo que pedir: “Ensina-me a sabedoria; ensina-me a ser fiel; ensina-me a seguir seus passos”. A verdade envolve, então, todo o comportamento vivencial do homem e todo o mistério de Deus no seu relacionamento com as criaturas. É o contrário da mentira que é a incredulidade, a recusa de Jesus, a pretensão de ter Deus sem passar pelo caminho que é Jesus, uma vez que ele se dá a conhecer, que Jesus desmascarou em Jo 8, e que se manifesta nas intenções homicidas (cf.Jo 5,18ss; 8,37. 40; 18,31).
O que Jesus vem testemunhar é exatamente para tornar visível eternamente o amor indefectível de Deus para os homens e recriar as coisas através de um novo relacionamento estável e inquebrável entre Deus e suas criaturas.
E o preço que Jesus pagou para dar o testemunho da verdade é o derramamento do seu sangue na cruz por amor. Por isso, para os cristãos, trono e cruz são inseparáveis. A cruz não é, por isso, um momento de fracasso ou de fraqueza, mas um dom livre e consciente de si mesmo à vontade de Deus que se traduz no amor ao próximo. Por isso, o reinado da verdade é a prática do mandamento que Jesus legou como marca da pertença: o amor (cf. 15,9-17; 13,35). Quem vive desta maneira é reinar com Cristo eternamente. Quem falsifica a verdade, dando-lhe a cor que deseja, escurece a face de Cristo. Portanto, nem diante de si mesmo, nem diante dos outros homens, nem diante de Deus, finge ser ou ter o que não é nem tem.
Se pretendermos que Cristo nos reine, temos que ser coerentes, começando por entregar-lhe o nosso coração. Se deixarmos que Cristo reine no nosso coração, não nos converteremos em dominadores e prepotentes ou donos da verdade, mas seremos servidores de todos os homens. Servir os outros, como Cristo, exige que sejamos muito humanos. Se a nossa vida for desumana, Deus nada edificará sobre ela, pois normalmente não constrói sobre a desordem, sobre egoísmo e sobre a prepotência. Se não o fizermos, falar do reinado de Cristo será uma manifestação externa de uma fé inexistente.
Oração pelas famílias:
Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.
Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.
Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém
Padre Silvester Anas.
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