Boa Madrugada! Hoje é 07 de Setembro de 2010
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A PUREZA DO AGIR DEPENDE DA PUREZA DO CORAÇÃO

Mc 7,1-23

 “Guarda teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam as fontes da vida”( Pr 4,23), pois “A saúde da alma na santidade e na justiça vale mais que o ouro e a prata”(Eclo 30,15). Mas “o homem do coração mesquinho só pensa em vaidade”( Eclo 16,23).

 
         A questão levantada do Evangelho deste domingo é sobre o que torna profano o homem. E dentro de toda a polêmica sobre o assunto Jesus coloca um novo conceito do profano.

         Na mentalidade do judaísmo, Israel era o povo consagrado por Deus ( Dt 7,6;14,2; Dn 7,23.27); todos os demais povos eram profanos. E para manter-se no âmbito do sagrado era preciso observar a Lei porque a Lei expressava a vontade de Deus. Daí estabelecia-se um critério de avaliação sobre a vida das pessoas: pertenciam ao povo “santo/consagrado” os que observavam fielmente a Lei; e eram “profanos” os que não praticavam minuciosamente a Lei. Conseqüentemente, o contato com uma pessoa “profana” ou o mundo profano põe em perigo a própria consagração a Deus. Por isso, antes de comer, era preciso lavar ritualmente as mãos que tinham tocado qualquer coisa do mundo exterior. Só assim, se assegurava o próprio caráter sagrado.

         No Evangelho de hoje nos relatou que os fariseus escandalizados pela conduta dos discípulos, que não lavaram as mãos antes de comer, se dirigiram a Jesus para censurar a atitude dos seus discípulos: “Por que seus discípulos comem o pão sem lavar as mãos?”.

           Na sua resposta, Jesus se coloca na linha dos profetas para atacar a hipocrisia dos fariseus porque eles desempenham apenas o papel de bons atores de uma religião de exterioridade sem compromisso com a vida e o amor para com o próximo. Jesus critica uma religião desligada da vida e dos problemas humanos. E não existe uma hipocrisia mais sutil e perigosa do que aquela que tem sua origem na manipulação religiosa, pois ela usa a vontade de Deus como instrumento para controlar os mecanismos humanos de reação. Fazer tudo por motivo puramente humano o que é divino significa atentar contra a absoluta santidade de Deus.  Muitos transformam o relativo em absoluto por causa da banalização do verdadeiro Deus.

           Para provar ainda mais a hipocrisia de uma religião alienada do compromisso pela defesa da vida humana, Jesus fala do quarto mandamento onde se acentua o Corbã (oferta). O Corbã é o compromisso que uma pessoa tem para consagrar a Deus os próprios bens (Lv 2,1-15; 27,28-29). Aparentemente é um ato louvável, mas Jesus critica o motivo que está por trás deste ato, porque ao fazer isso, os filhos deixam os pais ficarem privados do sustento necessário. A oferta ou a esmola é um mal necessário, enquanto vivermos na injustiça.  Por outro lado, a Lei de Moisés é clara ao ordenar “honrar” pai e mãe( Ex 21,17). “Honrar” significa também sustentar os pais economicamente. Jamais uma pessoa pode procurar Deus para se livrar das obrigações familiares. Nenhuma pessoa pode entregar os bens para “Deus” deixando os pais numa miséria. Nenhum filho de Deus pode tirar o pão da boca dos pais para oferecê-lo a Deus. Mas ao mesmo tempo, ninguém pode ficar alheio da obra da evangelização enquanto tiver condições para apoiá-la, pois todos nós somos instrumentos ou “sócios” de Cristo. Se acreditar realmente em Deus, ninguém pode ficar neutro e permanecer à margem: ou se compromete com o bem ou acaba comprometido com o mal. No final de sua vida, não lhe perguntarão se você viveu muitos anos ou poucos anos, mas se você amou ou não.

         Depois que atacou a hipocrisia dos fariseus, Jesus expõe para todos o princípio sobre o santo e o profano: o que separa o homem de Deus não é o que procede de fora dele. O puro e o impuro não devem ser procurados fora do homem, mas no seu coração. Quando Jesus fala do “coração”, não no sentido biológico e sim no sentido de toda a interioridade da pessoa, o centro da vida, das decisões e do encontro pessoal com Deus. Se o coração for bom, os gestos do relacionamento humano obedecem aos imperativos de humanizar e de santificar a convivência. A pureza do agir depende da pureza do coração. Mas se o coração for mau, a vida é envenenada pela insatisfação, pela inveja, pelo ciúme, pela disputa, pela discriminação, pelo sensualismo e pelas más intenções. Para Jesus, o teste decisivo para saber se o coração está perto de Deus é o comportamento fraterno para com o próximo. O homem vale pelo que vale seu coração. O coração é o lugar onde o homem se revela. Em outras palavras pode-se dizer que a vida cristã se resume em uma palavra: AMOR. E o amor é uma atitude que consiste em uma entrega total e desinteressada de nossa pessoa a Deus e aos irmãos, especialmente aos necessitados. A antítese do amor cristão é o ritualismo que utiliza Deus e os demais para o proveito próprio, ou um ritualismo que se desliga dos compromissos com a vida e com os problemas humanos.

           Em segundo lugar, a relação com Deus não depende da observância de normas ou de gestos religiosos, mas da atitude para com os demais seres humanos. Neste Evangelho Jesus mesmo produz uma razoável lista de 12 vícios que causariam a impureza para qualquer pessoa ou para qualquer convivência: prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades; malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância e insensatez. A partir desta lista cada um pode-se julgar se está com um coração puro ou impuro, se está envenenando a convivência ou se está a humanizando.

           O que podemos aprender como lição de tudo que foi dito? Muitas vezes, somos fiscais do comportamento alheio, gente sempre pronta a julgar, a criticar, a condenar o próximo a partir de detalhes, muitas vezes, mínimo. Às vezes são até pessoas aparentemente boas, que acabam estragando a convivência porque adoram exibir o seu estrito cumprimento de todas as regras, sociais e religiosas, com o intuito de diminuir os demais. Muitas vezes também nós andamos a toda hora medindo a piedade alheia pelos padrões das nossas próprias normas, sem perceber que, ao fazermos isso, estamos bloqueando o acolhimento, o testemunho de comunhão e de fraternidade que são alguns dos valores importantes na Igreja e na vida cotidiana. Precisamos estar conscientes de que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. Tudo é puro quando sai de um coração limpo. Mas tudo pode ser inútil, se for contaminado pela vaidade, pelo exibicionismo ou pela hipocrisia. Por isso, a conversão do coração e as vitórias interiores sempre são necessárias, pois elas acabam melhorando a conduta de qualquer um de nós e a qualidade de convivência.

A todos nós que queremos nos aproximar de Deus, Jesus pede uma única purificação: purificar o coração antes de purificar a mão para que amemos mais os outros do que os julguemos.  Este é o meio eficaz para convencer o mundo que somos verdadeiros cristãos. Assim seja.



Oração pelas famílias:

Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.

Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.

Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém

Padre Silvester Anas.