
ENTRE A TENTAÇÃO PELO PODER E A EXIGÊNCIA PELO SERVIÇO NO EXERCÍCIO DA VERDADEIRA AUTORIDADE
Mc 9,30-37
Dar a Própria Vida Para o Bem de Todos é a Vida Ressuscitada e Por isso, é Eterna.
Pela segunda vez, Jesus revela aos seus discípulos sua muito próxima Paixão ou morte (Mc 9,31). Ao mesmo tempo, ele abandona deliberadamente a pregação à multidão (Mc 9,30), decididamente incapaz de compreendê-Lo, para se dedicar exclusivamente à formação definitiva de seus discípulos.
No evangelho do domingo anterior (Mc 8,27-35), Jesus anunciou aos discípulos que a vida nova, a vida que Deus quer, a vida cheia de sentido se realizaria através do dom da vida aos outros, levado e vivido até as últimas conseqüências: a morte na cruz, a morte pelo bem de todos. A vida dada para o bem de todos é a vida recebida, vida ressuscitada, e por isso é a vida eterna. Pedro reagiu negativamente porque queria ter poder para mandar e, por isso, foi chamado por Jesus de Satanás. No evangelho deste dia, como continuação do evangelho do domingo anterior, a reação dos discípulos diante do anúncio de Jesus é lamentável e entristecedora: eles nem sequer escutaram os ensinamentos de Jesus. Suas preocupações estão em torno do êxito pessoal, em poder estar em destaque diante dos demais.
“Quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. “Servo” é aquele que está em prontidão para servir. É aquele que não espera nada em troca pelo serviço prestado para o bem de todos. A própria Mãe de Jesus se considera como “serva do Senhor”: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Quando Jesus fala em servir e dar a vida, os discípulos não concordam e fecham-se num silêncio porque que cada um está em disputa para conseguir o poder para mandar e para ser admirado pelos demais. Aquilo que os preocupa não é o cumprimento da vontade de Deus, mas a satisfação dos seus interesses próprios, dos seus sonhos pessoais. Para eles, ser seguidor de Cristo significa estar em destaque e manipular tudo para estar em visível diante dos demais. “É mais fácil simular as virtudes que possuí-las. Por isso, o mundo está cheio de farsantes”, dizia Santo Agostinho.
Na comunidade de Jesus não há uma cadeia de grandeza, onde uns estão no topo para observar os outros e outros na base para serem observados e reprimidos ou censurados. Na comunidade de Jesus, só é grande aquele que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos. Todos são importantes e por isso, todos são iguais. O discípulo de Jesus é grande, não quando tem poder sobre os outros, mas quando ama que se traduz no serviço aos pequenos, aos pobres, aos marginalizados, àqueles que o mundo rejeita e abandona, pois todos são os filhos e as filhas do mesmo Pai do céu. Honrar os filhos é honrar o Pai. Desonrar os filhos é desonrar o Pai. Não é possível fazer parte da comunidade de Jesus, se não estivermos dispostos a realizar este processo. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço e um dom aos irmãos tanto dentro da comunidade como fora dela.
O caminho de serviço aos demais até dar a vida se opõe radicalmente ao domínio sobre os demais até não deixar-lhes viverem. Por isso, é tão difícil compreender o caminho de Jesus porque a ambição sem limite e a vontade de poder estão arraigadas fortemente em cada um de nós.
Por isso, o poder e a autoridade são dois conceitos totalmente diferentes até opostos na comunidade cristã.
Poder e Autoridade
Autoridade e poder não são iguais. Para ter “poder” basta com que um possa impor aos outros suas decisões mesmo que sejam usados meios injustos como opressão, repressão, tortura, ameaça, execução etc. Para ter autoridade, um tem que contar com a aceitação dos outros. O poder se recebe de cima; a autoridade se obtêm de baixo. O poder pode ser exercido despoticamente; a autoridade somente pode ser exercida como serviço. O serviço da autoridade não é mandar e sim servir. Não são aptos para o exercício da autoridade os que servem para mandar, e sim os que estão capacitados e tem vontade firme de servir.
A própria palavra “autoridade” vem do latim: “augere” que quer dizer “crescer”. Por isso, a autoridade está ligada ao crescimento. Se a autoridade está ligada ao crescimento, então cada membro da comunidade cristã deve aprender a exercer a autoridade de modo cristão e comunitário. “Por vós sou bispo; convosco sou cristão”, dizia Santo Agostinho. Na comunidade cristã a autoridade tem como função ajudar cada membro a ser ele mesmo e a exercer seus dons próprios para o bem de todos. Se numa comunidade tiver apenas o esquema patrão/empregado, oficial/soldado, poder/executante, não poderemos compreender o que é uma comunidade cristã. O maior perigo para alguém que tem autoridade é manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder.
Exercer a autoridade cristã é sentir-se realmente responsável pelos outros e pelo seu crescimento, sabendo que eles não são nossa propriedade a serem manipulados de qualquer maneira, mas pessoas que tem um coração, pessoas nas quais existe a luz de Deus, e que são chamados a crescer na liberdade da verdade e do amor.
Uma pessoa que tem autoridade é aquela que está pronta a dar sua vida, que não aceita nenhum compromisso com o mal, com a mentira e com as forças da opressão que esmagam as pessoas, principalmente os pequenos. Autoridade sempre tem conotação de justiça, verdade, amor e crescimento de todos. Na linguagem bíblica a autoridade é fonte da água da vida, da água que purifica, perdoa e alimenta. Aquele que tem autoridade ensina mais com sua vida do que com suas palavras. O verdadeiro mestre não é aquele que dá lição, mas aquele que conta a experiência.
Que experiência que você pode contar para os outros?
Ser O Último Para O Mundo e Ser O Último Para Jesus
“Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos” (Mc 9,35).
Estamos acostumados a ouvir estas palavras de Jesus, e por isso não nos causam surpresas. Mas se as escutássemos pela primeira vez nos soariam algo absurdo, ilógico e estúpido. Não podemos negar que ser o último em nossa sociedade é uma tragédia: o último da classe é que leva broncas de mestres; o último na oposição faz a risada de todos; o último em dinheiro é quase um exemplar de museu; o último em beleza nos é repugnante; o último em fama é um pobre desgraçado; o último em amor é idiota ou tonto; ser último numa fila grande é um desespero. Você ainda quer ser o último desse jeito? Creio que você diria: “Não!”. Mas Jesus diz aos seus: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos”. Quem pode entender isso? Ninguém na sociedade, ou muito poucos, porque todos querem ficar em primeiro lugar, ser primeiro na fila etc.
Mas a fé em Jesus é uma vivência, uma experiência, uma relação pessoal e comunitária com Ele e não um costume social nem uma rotina ou ativismo tradicional nem uma soma de ritos ou de práticas superficiais, ou de atos semi-mágicos. Enquanto relação pessoal, o mais importante é uma Pessoa, um Alguém com quem convivemos, com quem entrelaçamos nossa vida. Um alguém com quem contamos, a quem consultamos na hora de tomar decisões em nossa existência; um Alguém cujas idéias influem e informam nossas idéias, e portanto, nossa vida; um Alguém cuja vida é um modelo a seguir e imitar: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso, a fé transpassa o nível de meramente pensado, racionado ou razoável, e é algo muito mais profundo, mais sério e mais vital. Este Alguém é que nos diz hoje: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”. Por isso, o difícil é converter-se em homem de fé, em homem crente, um homem que serve de exemplo na doação da própria vida para que outros possam viver.
Por isso, colocar pessoa como centro de qualquer atividade seja dentro da própria comunidade cristã como fora dela é a suprema aspiração de quem segue Jesus. Esta é a atitude daquele que quer ser “o primeiro” seguindo a Jesus. Jesus fez sua atividade não pela atividade, mas pelas pessoas. Trabalhar pelo trabalho e não pelas pessoas será uma agitação estéril de quem não tem nada para fazer e ainda atrapalha a obra de Deus de salvar a humanidade.
É bom cada um se perguntar: “Qual é o foco de sua atividade na comunidade cristã”?
Oração pelas famílias:
Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.
Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.
Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém
Padre Silvester Anas.
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