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ALEGRIA POR ESTAR COM DEUS

Lc 3,10-18(Sf 3,14-18; Fl 4,4-7)

 

                               “Há gargalhadas que se parecem mais com um soluço

                                do que com uma risada. Prefiro o pranto esperançoso

                                do que a alegria sem futuro “(René Juan Trossero).

 

         No Senhor encontrei a razão da minha alegria

         O terceiro domingo do Advento é conhecido como o Domingo de Alegria. Toda a liturgia deste domingo é um convite à alegria e à festa insistentemente. A liturgia mantém na antífona de entrada o antigo intróito: “Gaudete in Domino semper!”, “Alegrai-vos sempre no Senhor!”. Daí surge o nome “Dominica Gaudete” (Domingo de Alegria).

         Mas surge a pergunta: Será que podemos ainda falar da alegria enquanto um ou mais dos membros de nossa família estão doentes (doenças incuráveis ou drogados, etc.) ou estão com algum problema profissional, financeiro ou familiar/matrimonial? Em que consiste esta alegria? O que é que a Bíblia quer dizer quando convida os homens à alegria? Qual motivo principal da alegria na Bíblia?

         No AT, especialmente nos escritos sapienciais (cf. Ecl 9,7s; 11,9s; Pr 15,13. 15.17; Eclo 30,20-25, ect.), a alegria é mencionada muitas vezes e em várias ocasiões e através de várias expressões para designá-la, como: face brilhante, luz, vestes, relação conjugal, vinho, óleo, água do céu, etc.. Segundo o AT, quem tem a verdadeira alegria é aquele que tem temor de Deus, o justo: “O temor ao Senhor é uma glória, um motivo de glória, uma fonte de alegria, uma coroa de regozijo. O temor ao Senhor alegra o coração. Ele nos dá alegria, regozijo e longa vida” (Eclo 1,11-12). O Deus que se revelou como Criador e Salvador é também um dos motivos de alegria no AT (cf. Sl 104,31. 34; 95,1). Além disso, a alegria/bênção é uma das promessas de Deus (cf. Dt 28,3-8).

         No NT a alegria se acentua muito mais ainda. O substantivo “alegria” (chara em grego) aparece 59 vezes. Especialmente o Evangelho de Lc, de onde é tirado o texto do evangelho para este domingo, é designado como “o Evangelho da alegria”. O verbo “alegrar-se” (chairo) aparece em Lc 7 vezes, enquanto o mesmo verbo não se encontra em outros evangelhos (cf. Lc 1,14. 44.47.58; 2,10; 10,17. 21; 19,37; 24,52s). O tema sobre a alegria se encontra também na sua segunda obra, no Livro dos Atos (cf. At 2,46; 8,8; 13,48; 15,3. 52; 16,34). Em Lc a alegria é um mandamento de Jesus: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). As epístolas acentuam também o tema sobre a alegria (cf. Tg 1,2; 2Cor 13,11; Fl 4,4; 1Ts 5,16). Para São Paulo, por exemplo, nenhum obstáculo ou dificuldade é capaz de impedir a verdadeira alegria, pois ela é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). Trata-se da origem superior, e por isso, está acima de tudo que é passageiro. Tudo pode passar, inclusive o sofrimento, mas a alegria permanece, pois é o fruto da aceitação de Deus na vida do homem, fruto do Espírito Santo.

         Não é por acaso que São Paulo convida cada cristão insistentemente a se alegrar sempre no Senhor, pois ele é a fonte da alegria e nos ama: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4,4). Se interiorizarmos esta rica mensagem de alegria, nada deverá e nada poderá perturbar ou mesmo destruir a nossa paz interior, pois Deus nos ama. Apesar das contrariedades e dos momentos difíceis, o cristão deve levar sempre em seu interior a convicção de estar acompanhado por Alguém que não lhe abandona: “Sendo Deus meu Salvador, confio e não temo, porque minha força e poder são o Senhor” (Is 12,2). A certeza de que Deus olha para nós porque nos ama e de que reside no meio de nós e de que nos acompanha momento a momento (cf. Jo 1,14; Mt 28,20) só pode ter como conseqüência uma imensa alegria no coração de cada um de nós. O olhar amoroso e acolhedor de Deus sobre nós produzem em nós uma sensação profunda de serenidade, alegria e dignidade e nos dá a capacidade de sobreviver até nos ambientes desfavoráveis, mantendo nossa serenidade. Quando nos deixarmos olhar por Deus, as coisas mudarão radicalmente na nossa vida.

         Portanto, o motivo principal da alegria na Bíblia é a salvação que se aproxima e que já começou em Jesus Cristo, amor encarnado de Deus e realizador de todas as promessas do AT. Quem tem Deus, sua vida tem futuro. Por isso, a alegria é a característica do cristão que vive na esperança, na expectativa e na certeza da ressurreição; que vive na certeza de uma vitória final que será realizada apesar dos sofrimentos, do fracasso aparente e da morte no presente: “Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se a nós” (Rm 8,18). Por esse futuro garantido os cristãos jamais podem desistir de lutar por um mundo mais fraterno, mais justo, mais solidário e mais humano, onde um se preocupa com o outro, apesar das perseguições constantes. O futuro define por antecipação o presente. Este modo de viver chama-se um modo de viver numa alegria proléptica ou antecipadora, pois a raiz de nossa alegria é a escatologia, a esperança. Com efeito, a tristeza e o desânimo não são apenas sintomas de um profundo cansaço, e sim é um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo tem sua origem na falta de fé em Deus. Toda a nossa existência, qualquer gesto de nossa parte como cristãos, deve manifestar ao mundo que temos origem na transbordante bem-aventurança de Deus que nos chamou e continua nos chamando a concelebrar com Ele o festim eterno de Sua felicidade e da Sua alegria. A firme intenção de sermos portadores de alegria e o empenho em contagiar os outros com uma alegria santa, alegria no Senhor, são uma defesa muito eficaz contra a perda da mesma.

 

Atitudes básicas para se manter na alegria do Senhor

         O que devemos fazer para que Deus, fonte de alegria, esteja sempre em nosso coração?  “O que devemos fazer” é também a pergunta de três categorias de pessoas para João Batista no evangelho deste domingo a fim de eles poderem receber o Messias esperado.

         A pergunta “O que devemos fazer” é habitual nas obras de Lucas (cf. At 2,37; 16,30; 22,10. veja também Lc 10,25. 28.37). Esta pergunta é a expressão que revela a atitude correta de quem está aberto para mudar de vida (conversão) a fim de alcançar a alegria plena. É uma pergunta que expressa a disponibilidade para questionar a própria vida, primeiro passo para uma efetiva tomada de consciência do que é necessário transformar.

         João Batista propõe três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência do verdadeiro encontro com o Senhor, fonte da verdadeira alegria. A primeira atitude concreta é esta: é preciso sair do nosso egoísmo e aprender a partilhar: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3,11), diz João Batista para o povo em geral. Os bens que temos à nossa disposição são sempre um dom de Deus. Ninguém tem o direito de se apropriar desses bens em seu benefício exclusivo deixando o irmão morrer de fome. As desigualdades chocantes, a indiferença que nos leva a fechar o coração aos gritos de quem vive abaixo do limiar da dignidade humana, o egoísmo que nos impede de partilhar com quem nada tem para sobreviver, são obstáculos intransponíveis que impedem o Senhor de estar no nosso coração. Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa faltar o trigo, mas porque nós deixamos que falte o amor. Ninguém é tão feliz e livre como aquele que ama. E nunca o egoísmo é tão prejudicial, como quando se disfarça de amor. Você cometerá a maior injustiça quando não ama, pois todas as outras injustiças são fruto da falta do amor. “Enquanto a alma não se liberar de todas as coisas, não poderá ter a capacidade de receber o Espírito de Deus na pura transformação” (São João da Cruz).

         A segunda atitude concreta é esta: é preciso quebrar os esquemas de exploração, de imoralidade, de branqueamento de dinheiro sujo, das falcatruas e de enriquecimento ilícito, e proceder com justiça: “Não cobreis mais do que foi estabelecido” (Lc 3,13), ordena João batista aos publicanos. A honestidade nos negócios e equidade na aplicação da justiça é o melhor modo para mudar as estruturas injustas e o melhor caminho para a felicidade chegar ao nosso coração e à nossa família. O comportamento ético é a fase prévia para eliminar a injustiça. “O defeito moral não se define pelo mal que se isenta, mas pelo bem que se abandona” (Santo Agostinho).

         A terceira atitude concreta é esta: é preciso renunciar à violência e à prepotência e respeitar absolutamente a dignidade dos nossos irmãos: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário” (Lc 3,14), diz João Batista aos soldados. João Batista chama a atenção sobre “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus. Quem o comete, está fechando o seu coração e a sua vida para a proposta libertadora que Jesus veio trazer.

         Estas três atitudes podem resumir-se numa palavra só: amor. Em primeiro lugar, precisamos estar conscientes do amor que Deus tem por nós. Esta consciência de que Deus nos ama, muito mais além de nossas falhas e fraquezas e que o seu amor nos transforma, nos torna menos egoístas e mais humanos e fraternos. Por isso, o amor ao próximo é uma exigência geral. Sem a conversão de amor, não terá sentido a penitência, e a alegria ficará cada vez mais distante de nosso coração. Ser cristão é ser batizado no Espírito, isto é, ser portador da vida de Deus que nos permite testemunharmos Jesus e sua proposta de amor. O amor vivido na convivência com os demais é uma das mais belas constatações que nós, cristãos, podemos fazer. O que renova o mundo e o transforma, não é o medo, mas o amor. Se o medo provoca insegurança, pessimismo, angústia e bloqueamento, o amor, ao contrário, cria dinamismo de superação, nos torna mais humanos e fraternos, nos faz confiar e potencia nosso encontro e nossa comunhão com os outros e atrai a alegria para nós. “A alma que ama a Deus vive mais na outra vida do que nesta; ela vive mais onde ama do que onde vive” (São João da Cruz).