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FESTA DE BODAS EM CANÁ E SEU SENTIDO

                                                                                                                       Jo 2,1-11

         O texto do evangelho deste domingo é rico demais para poder se falar em poucas páginas. Por esta razão nesta reflexão encontram-se apenas alguns pontos da riqueza do texto.

 

1. O Evangelho que nos ensina a irmos além das aparências

         O evangelho de João foi escrito em torno dos anos 90-100. Por isso, evangelista João é o autor mais tardio do NT. Por essa razão, ele oferece à Igreja uma das reflexões mais maduras sobre a pessoa e as obras do Senhor. Precisamos, portanto, prestar bastante atenção para os detalhes de cada relato no seu evangelho.

         O evangelista João jamais emprega a palavra milagre (dýnamis, grego: ato de poder e de força) que aparece com muita freqüência nos sinóticos. Em vez disso, ele usa o termo “sinal” (seméion, grego. Cf. Jo 2,1-11; 4,46-54; 5,1-9; 6,1-15; 6,16-21; 9,1-41; 11,1-44). Este termo pertence ao vocabulário técnico do quarto evangelho, onde aparece 17 vezes, sobretudo na primeira metade. Em João, “sinal” é ação/obra realizada por Jesus que, sendo visível, leva por si ao conhecimento de realidade superior. O “sinal” remete a outra coisa, designa um acontecimento que não pertence ao mundo empírico. O “sinal” visa a outra realidade além de si mesmo. Os “sinais joaninos”, porém, não somente apontam para uma realidade que está além da coisa ou acontecimento visível, mas contém já em si mesmos a realidade significada. Eles são, de certo modo, uma manifestação da “glória” de Jesus.  Este termo joanino inclui sempre dois aspectos: demonstrativo, o sinal suscita a fé dos discípulos em Jesus (cf. Jo 2,11b; 4,53b; 6,14; 9,33. 35-37; 11,45) e expressivo, ele manifesta a glória daquele que o opera.

         Por estar cheio de sinais e por ser tão profundo, o quarto evangelho é considerado como evangelho para os cristãos maduros. E para esse evangelho um dos sinais da maturidade é a capacidade de ir além das aparências para descobrir seu verdadeiro significado. A capacidade de penetrar na essência das coisas ou dos acontecimentos nos evita qualquer precipitação nas nossas conclusões e nos nossos julgamentos e pré-julgamentos sobre os outros ou acontecimentos.  A capacidade de penetrar na essência das coisas e acontecimentos freia nosso olhar crítico e nos veste de paciência, de compreensão e de olhar de Deus. A precipitação é o inimigo da perfeição e do amor. Quantas vezes erramos ou complicamos a nossa vida e a dos outros por causa de nossa incapacidade de frear nossos julgamentos e pré-julgamentos. Poderíamos evitar tantas desgraças na nossa vida, se soubéssemos aprender a fazer uma leitura fria, sob a luz divina, dos acontecimentos. Se ficarmos apenas nas aparências, provavelmente somos ainda pessoas superficiais, incapazes de mergulhar na profundeza dos acontecimentos, no seu significado.  O quarto evangelho quer nos dizer: “Antes de sua decisão, de seu julgamento, peça a Deus para que você possa captar o significado de todos os sinais de Deus na sua vida e na vida dos outros. Somente assim você o irmão dos outros”. 

 

2. O nosso Deus é aquele nos mostra logo a vitória final

         O texto diz: “No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galiléia” (v.1). Precisamos entender o sentido do “terceiro dia” neste texto.

        A expressão “no terceiro dia” não funciona apenas para ligar a nova cena a cena anterior, mas para o evangelista é muito mais do que isso. O “terceiro dia” aqui está relacionado também com o “terceiro dia” da Ressurreição de Cristo (veja Jo 2,19-22 em que Jesus usará a expressão “em três dias” = “terceiro dia” para falar de sua Ressurreição; cf. também 1 Cor 15,3-4). O sentido da ressurreição do “terceiro dia” está relacionado com a “Hora de Jesus”: “Mulher... a minha hora ainda não chegou” (v.4). A “Hora de Jesus” para o quarto evangelho designa, como uma realidade única, paixão-morte-ressurreição de Cristo (para ter mais informações detalhadas sobre o sentido da expressão “no terceiro dia”, leia: Maria em Caná e Junto à Cruz, de A. M. Serra, da ed. Paulinas [antiga), uma obra traduzida de italiano: Maria a Cana e Presso La Croce).

         O evangelista João faz uma ligação entre o primeiro sinal de Jesus e sua ressurreição. Jesus começa sua atividade para mostrar logo o fim vitorioso: seu mistério pascal entendido com paixão-morte-ressurreição de Cristo. Desde o início Jesus até o fim Jesus mostra a sua vontade à vontade de Pai e por isso, terminará com a ressurreição- glorificação.

         Tudo isto quer nos dizer que precisamos experimentar, em todos os momentos de nossa vida, a presença de Jesus ressuscitado em nossa vida. Experimentar o poder e a força da ressurreição significa ter força mais do que suficiente para encarar a “falta de vinho”, aquilo que nos dá alegria para viver como filhos e filhas de Deus. Para isso, precisamos ser fiéis ou ser justos até o fim a exemplo de Jesus Cristo para merecermos um dia a glorificação.

 

3. O nosso Deus é Aquele que nos plenifica com seu amor

          O primeiro sinal de Jesus acontece num casamento/bodas. Não se pode falar de um casamento sem se falar do amor e da fidelidade. Na linguagem bíblica, o casamento é símbolo da aliança com Deus, sublinhando a relação de amor e fidelidade entre Deus e o povo (Is 49,14-26; 54,48; 62,4-5; Jr 2; Ez 16). A eleição do povo e a aliança foram expressão do amor de Deus por ele (Dt 4,37; 7,7s; 10,15).  Os profetas usaram muitas vezes a imagem de casamento para falar do amor mútuo entre Deus e Israel (Is 62,4-5; Os 2,18-22). Portanto, o casamento em Caná é simbólico. O verdadeiro esposo da humanidade é Jesus (3,29). E toda a Igreja é uma esposa.

         Nas bodas de Caná “estava ali a mãe de Jesus”. Para o evangelista João, a figura da mãe de Jesus é central, pois a partir dela é que a atenção se projetará sobre Jesus. A manifestação da glória de Cristo passa através da mãe. (No evangelho de João a mãe de Jesus aparece somente duas vezes, mas nos momentos mais importantes. Em primeiro lugar, Maria atua na realização do primeiro sinal de Jesus, no momento em que Jesus inaugura sua missão pública(Jo 2,1-11). Em segundo lugar, Maria permanece ao pé da cruz, no momento da morte de Jesus, no final de sua missão nesse mundo(cf. Jo 19,25-27). O evangelista João quer nos dizer que Maria tem um lugar especial no seu evangelho, pois ela se faz presente nos momentos mais importantes da vida e da missão de Jesus. Tudo que se prefigura no primeiro sinal se cumpre na cena da mãe de Jesus ao lado da cruz).

           Nessa festa a Mãe de Jesus percebe a falta de vinho. O vinho, na Bíblia, simboliza o amor (cf. Ct 1,2; 7,10; 8,2). A antiga aliança, portanto, não tem mais sentido, pois o amor foi substituído pela Lei. Os seis enormes potes de pedra que serviam para os ritos de purificação (v.6) representam a falta de amor na relação com Deus. Além disso, estão vazios, ou seja, não têm mais nada a dar.

         “Eles não têm mais vinho”, são as palavras da Maria dirigidas ao seu Filho, Jesus Cristo. A expressão é semelhante à expressão usada pelos apóstolos antes do milagre da multiplicação dos pães: “Eles não têm mais nada para comer” (cf. Mc 8,2; Mt 15,32; Jo 6,1ss). 

         Quem são “eles” neste contexto?  São aqueles que basearam a relação com Deus numa série de regras, tornando-a fria e paralisada. Ama menos quem se preocupa somente com a regra. Todas as leis devem submeter-se à Lei maior que é o Amor (cf. Jo 15,12). O amor é o vinho da nova e definitiva aliança. Os dirigentes judeus vão responder ao amor pregando Jesus na cruz. Mas o amor é mais forte que a morte. O ódio é vencido em seu próprio terreno por amor.

         “Eles não têm mais vinho”. O vinho era essencial para as bodas na época.  Por isso, a expressão, “Eles não têm mais vinho” expressa a carência do essencial na vida do homem que cria o mal-estar e desorientação ou confusão. Quando perdermos o essencial na nossa vida ou quando não vivermos mais de acordo com aquilo que é essencial para uma vida digna de um ser humano, aquilo que dá sentido para nossa vida, o resultado só pode ser uma desorientação total e uma complicação para nossa própria vida e a daqueles com quem convivemos.

         Diante da carência do vinho, essencial para as festas, Jesus transforma a água em vinho. Se o vinho simboliza o amor que é essencial na vida de um ser humano, isto quer nos dizer que Jesus é Aquele que transforma os homens da lei, que costumam usar a linguagem de julgamento e de condenação, em homens de amor, dos cumpridores das regras em homens enamorados. No evangelho de João Jesus é apresentado como aquele que coloca o serviço de amor como sua missão essencial: “... sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Por isso, o maior mandamento que Jesus deixou é amor: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus nos revelou através de sua vida que a missão de cada cristão não é outra a não ser uma ativação desse amor único à escala da humanidade. O amor é essencial na Igreja, nos grupos, nas pastorais e nos movimentos, já que sem amor não existiria a Igreja e outros grupos. Se o vinho da nova e definitiva aliança é o amor, a missão de cada cristão deve ser como serviço do amor. O amor é essencial à Igreja porque, sem o amor, a Igreja seria nada (cf. 1Cor 13,1ss).

 

4. É preciso viver aquilo que Jesus ensinou para ter uma vida em abundância

            “Fazei tudo o que ele vos disser”, são palavras da Mãe de Jesus aos servidores da festa do casamento em Caná. Como se Maria quisesse lhes dizer: “Vocês querem que aconteçam os milagres na sua vida? Observem, então, as palavras de Jesus! Não tenham medo de fazer aquilo que Jesus manda fazer!”. Pela sua atitude e pelas suas palavras, Maria é modelo para todos os que fazem parte do novo Povo de Deus. Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem o que Deus lhe pede. A perfeita discípula e seguidora de Jesus se torna mestra e guia dos cristãos. Sua frase continua atual. Ela continua nos dizendo hoje: “Vale a pena buscar a vontade de Jesus, ouvir suas palavras e tomar atitudes concretas para que a vida de vocês se torne uma vida feliz e alegre, pois Deus estará sempre ao seu lado”. Maria estimula os seguidores de Jesus a realizarem a vontade de Jesus. Ela ajuda os seguidores a terem fé em Jesus e ficarem junto dele.

      Sobre tantos cristãos consagrados no sacramento do matrimônio, sobre tantos religiosos que já perderam o ardor da primeira vocação, sobre tantos sacerdotes que já esqueceram o santo estremecer do dia do chamado por Cristo, sobre tantos casais que não sentem mais o sabor da vida conjugal, precisamos pedir a Maria que interceda por nós todos para que cada vocação, cada profissão seja vivida no amor e com amor.

         Revivendo hoje o momento em que o Filho de Deus transforma a água em vinho, precisamos estar conscientes de uma das mais exaltantes mensagens do cristianismo é a mensagem de alegria. Temos que proclamar as razões da alegria, não da tristeza; temos que apontar os motivos do otimismo, não do pessimismo; temos que promover a vida, não a morte; temos que usar a linguagem de amor, não a do julgamento e da condenação. A alegria deveria ser característica de quem vive na fé e caminha para o Reino de Deus. É claro que a fé não nos põe a salvo do sofrimento e dos vários motivos de tristeza. Contudo, é preciso deixar transparecer a certeza de que toda nossa dor se transformará em alegria, pois Deus nos ama. É o testemunho que o mundo espera de nós.