Boa Noite! Hoje é 03 de Setembro de 2010
Banner
Banner

Informativos

Inscreva-se e receba gratuitamente nossas novidades diretamente em seu email.





Banner
Banner
Banner


AQUELE QUE VEM PARA SALVAR POR AMOR É REJEITADO

REVER O NOSSO CAMINHAR COMO CRISTÃOS

Lc 4,21-30(Jr 1,4-5.17-19; 1Cor 12,31-13,13)

 

           O texto do evangelho deste domingo é a continuação do evangelho do domingo anterior. Estamos ainda no discurso programático de Jesus em Nazaré e as reações diante do mesmo. Coloco aqui apenas alguns pontos do texto para nossa reflexão.

 

1. A atualidade da Salvação: Jesus está presente no hoje

           Depois que Jesus fez a leitura do livro do profeta Isaías que contém promessa de salvação para o povo (Is 61,1-2a), Jesus diz: “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. O advérbio “hoje” (sèmeron) é usado aqui para enfatizar a atualidade da salvação oferecida por Deus em Jesus Cristo. Este termo é encontrado também em outras partes do evangelho de Lucas. No nascimento de Jesus, o anjo diz aos pastores: “... Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,11). Na última etapa da sua subida a Jerusalém, Jesus diz a Zaqueu: “Zaqueu, desce depressa. Hoje eu devo ficar na tua casa” (Lc 19,5). E no fim da visita onde se relata a conversão de Zaqueu, Jesus diz: Hoje a salvação entrou nesta casa...” (Lc 19,9). E pouco antes de morrer, a penúltima palavra dita por Jesus na cruz foi a que disse a um dos dois criminosos crucificados ao lado de Jesus: “Hoje tu estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).

         Palavra característica da soteriologia lucana “hoje” significa que a profecia de Isaías se torna realidade: aquele de quem falava outrora o profeta chegou. Ele está ai e, com ele, começou o Reino de Deus. Os últimos tempos da história da salvação estão abertos, inaugurados oficialmente pela vinda de Jesus a Nazaré. É um “hoje” de Deus no tempo humano, isto é, um momento excepcional de “graça” (kairos) no desenrolar-se da história dos homens (kronos), um momento decisivo na história da salvação. Por isso, “hoje” não tem dimensão puramente cronológica. Dizer que “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura...” não somente significa que uma antiga promessa se cumpre ou que um texto toma vulto repentinamente, mas, sobretudo, que a humanidade encontrou Deus em Jesus Cristo. Ele é o Emanuel, Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Ele é o Messias, Palavra do Deus vivo. Para acolher a Palavra do Deus vivo e deixar-se modelar por ela, importa apenas seguir Jesus, pois ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Jesus é o único caminho que pode fazer o homem chegar à sua verdadeira dignidade.

         “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Lucas lê sempre a Escritura na dimensão do presente e desta maneira a atualiza. Segundo Lucas, não podemos ler o Evangelho como se fosse uma coisa do passado. Temos que lê-lo na fé. A leitura da Palavra de Deus na fé significa escutar a Deus que nos diz: “Hoje...”. Deus não se situa nem no passado nem no futuro. Ele nos chama hoje e hoje nos salva. E o Hoje de Deus está cheio de força e de conteúdo particular, pois ele nos chama à salvação. Com efeito, o Evangelho não é uma expressão bela que se fica no ar e sim é uma chamada à vida, e à transformação do coração. Por isso, é um Hoje que define nosso tipo de existência; portanto, é um Hoje no qual encontramos nossa identidade. É o Hoje de um nascimento como pessoas e como comunidades responsáveis. A Palavra de Deus é o critério que estabelece o limite, o alcance, o sentido e o objetivo de nosso fazer. Por isso, precisamos escutá-la no nosso hoje, pois, segundo São Paulo, para podermos anunciá-la, precisamos escutá-la primeiro (cf. Rm 10,14-16).

 

2. Hoje Ele vem nos mostrar o caminho do amor

         Jesus Cristo é o amor encarnado do Pai. Ele vem para realizar a missão do amor. São João expressa muito bem este pensamento ao dizer: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8. 16). Jesus foi enviado para ensinar a humanidade a amar com palavras, gestos e ações concretas. Tudo que Jesus diz e faz na Bíblia é movido por um amor desinteressado. Se ele cura é curar por amor. Se ele perdoa é perdoar por amor. Se Ele chama atenção com palavras duras é movido por amor. Se ele liberta os cativos é libertá-los por amor e para o amor (cf. Lc 4,18-19).

         Se tudo que Jesus Cristo, nosso Mestre, disse e fez era movido por amor, conseqüentemente todos os seus seguidores devem viver a mesma missão: fazer e dizer tudo por um amor desinteressado. O amor cristão é sempre um amor que procura o bem do outro por pura gratuidade a exemplo de Cristo. O amor desinteressado, segundo São Paulo (1Cor 13,1-13), é a essência da experiência cristã. Por isso, ele repete como refrão esta frase: “Se não tivesse caridade, eu não seria nada” (1Cor 13,1-3) O amor gratuito faz nascer uma comunidade de irmãos e une seus membros. O amor gratuito é o único capaz de acabar com ciúmes, rivalidades egoístas, e lutas de interesses. Na medida em que o nosso viver não é/não for amor, trairemos a nossa própria fé, atentaremos contra a nossa própria essência ou nosso próprio ser. Para um cristão viver sem amor é um “suicídio” contra a vida cristã. É recusar Jesus, o Amor Encarnado do Pai que faz tudo por nós até aceitar ser crucificado por amor.

         O amor gratuito, o amor cristão é a única coisa perfeita e por isso, permanece para sempre: “As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá, pois o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. Mas a caridade não acabará nunca” (1Cor 13,8-9). Por isso, se praticarmos a caridade como estilo de vida, então, estaremos vivendo a eternidade já aqui neste mundo. O amor gratuito vivido na sua profundidade nos dá capacidade de penetrar na essência das coisas para tirar delas o seu sentido. O grande milagre que se espera dos cristãos e de pessoas de boa vontade é caridade. Além disso, nós cristãos somos chamados a reconhecer e a nos alegrar de tantos sinais de bondade que encontramos entre os homens, independentemente de sua crença, entre aqueles que não pensam como nós, porque toda esta bondade é um sinal de que Deus opera neles a salvação e, conseqüentemente somos chamados a dar graças a Deus por esta bondade.

 

3. A Presença Salvífica Baseada no Amor é Recusada: Um Deus que busca os homens comprometidos com Sua causa

           O caminho de amor oferecido por Deus em Jesus Cristo foi recusado pelos nazarenos. Eles querem somente um Deus milagreiro.

         O evangelho da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2) registra respostas e reações diferentes de pessoas diante do mistério e da experiência da Encarnação. João Batista ainda no ventre de sua mãe, Isabel, pulou e dançou de alegria no encontro com Jesus que estava no ventre de Maria (Lc 1,44). Os pastores e os magos adoraram e prestaram homenagem ao recém-nascido, Jesus Cristo (Lc 2,8-20; Mt 2,1-12). O velho Simeão e a profetisa Ana encontraram o menino Jesus e o chamaram de Redentor e profetizaram sobre ele (Lc 2,22-38). Mas Herodes e sua corte tremeram de medo diante das notícias do nascimento de Jesus e planejaram matar a criança (Mt 2,13-23). As mais espantosas e dramáticas reações diante da Encarnação partiram dos próprios conterrâneos de Jesus, os nazarenos. O evangelista João, no prólogo do seu evangelho, resume de maneira precisa essas reações negativas ao dizer: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Mas a todos aqueles que O receberam, aos que crêem em seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,11-12).

         Em Nazaré Jesus coloca seu programa de ação, no qual coloca os menos favorecidos em primeiro lugar (cf. Lc 4,18-19). Jesus quer mostrar o caminho de amor, único capaz de transformar todos em irmãos, mas os nazarenos não aceitam esse caminho. Os nazarenos esperavam um messias espetacular e poderoso capaz de ações mágicas e miraculosas. Eles queriam apenas milagres. Eles querem somente um Deus milagreiro. Os nazarenos querem que Jesus faça milagres em sua terra: “Faz também aqui na terra o que ouvimos falar que fizestes em Cafarnaum”. Esta é a atitude de quem procura Jesus para ver o seu espetáculo ou para resolver os seus probleminhas pessoais, sem se comprometer com a causa de Jesus. Mas Jesus se recusa a ser ídolo de abundância, do prestígio, do poder e da riqueza (cf. Lc 4,1-12), pois como diz São Paulo: “Tudo cessará” (cf. 1Cor 13,1ss). Ele não é um exibicionista que esteja querendo se afirmar para ganhar prestígio. Em Nazaré ele não faz milagres porque os nazarenos não reconhecem a pessoa que ele é.

         Os nazarenos julgam conhecer Jesus porque o viram crescer no meio deles, sabem identificar a sua família e os seus amigos, mas eles não perceberam a profundidade do seu mistério. Eles são incapazes de ver no aspecto cotidiano da vida a presença de Deus no meio deles. Trata-se de um conhecimento superficial, teórico que não leva a uma verdadeira adesão à proposta de Jesus.

         A partir deste pensamento precisamos responder as seguintes perguntas: O que motiva você a procurar Jesus? Você lida com Jesus todos os dias, fala alguns minutos diariamente com ele e sobre ele. Mas, será que a proposta de Jesus tem impacto em você e transforma a sua existência? Que tipo de Deus em quem você supostamente acredita: Um Deus de quem você espera espetáculo em seu favor, ou um Deus que em Jesus Cristo o apresenta uma proposta séria de salvação que é preciso concretizar na sua vida de cada dia?

 

4. O profeta vive de olhos postos em Deus e na realidade vivida no momento

         ”Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24), diz Jesus. As palavras de Jesus aqui e em 13,34 refletem uma tradição judaica segundo a qual Israel de rotina rejeitava e perseguia os profetas (2Cr 36,15-16; Sl 78; 105; 106; Lm 4,13; At 7,51-53).

         No AT os profetas se apresentam como guias espirituais suscitados por Deus para levar o povo à fidelidade à aliança. A vocação de um profeta é um encontro com Deus e com Sua Palavra (cf. Jr 1,4). A Palavra de Deus marca a vida do profeta e passa a ser a única coisa decisiva na sua vida. O profeta é aquele que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo. É uma pessoa atenta diante de Deus e do mundo. Por isso, um profeta é jamais uma pessoa isolada de Deus nem dos acontecimentos do mundo. Ele vive em comunhão com Deus e intui o projeto que Deus tem para o mundo e confronta esse projeto com a realidade dos homens. Sua função é além de anunciar a Palavra de Deus, também despertar a consciência do povo de que estão sendo infiéis do caminho de Deus. Se o profeta se dirige ao povo infiel, sua primeira palavra será de denúncia.  O profeta se distancia da situação e abre os olhos para a verdade do momento. E sendo extremamente fiel à aliança feita outrora com Deus, o profeta é profundamente inovador, pois transmite a palavra do Deus vivo e exige a transformação. A denúncia profética implica a perseguição, o sofrimento, a marginalização e muitas vezes, a própria morte. Por isso, ele é mais facilmente aceito por quem está fora do sistema vigente. Ele nunca é um personagem aplaudido e elogiado pelas multidões, e menos ainda pelos que retém em suas mãos o poder, porque o profeta contempla o mundo com os olhos de Deus.

           Jesus é o Messias – profeta, e morreu por ter sido como Messias - profeta. Cada cristão é um profeta, uma função que ele recebeu no batismo, pois Jesus desempenhou também o papel profético. Temos consciência desta vocação? Temos coragem de orientar e de corrigir e de aceitar a orientação e a correção dos outros?  Temos medo de dizer a verdade e temos a coragem de aceitar a verdade? Muitos sabem que estão errados, mas querem defender seus erros por causa dos seus interesses ou vantagens pessoais. Mas diante de Deus a verdade triunfa e por isso, a verdade nos libertará.