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Abra-te!



FALAR NA VERDADE E COM CARIDADE FRATERNA

Mc 7,31-37 

  Os milagres mostram o projeto Divino de Jesus sobre o homem. 
  O evangelho nos relata o milagre da cura do surdo-mudo operado por Jesus. O valor dos milagres não reside em que sejam ações “contrárias às leis da natureza”. Ao contrario eles são sinais da chegada do homem a uma plena realização pessoal, sem enfermidade, como a ressurreição é a realização plena do homem sem morte. Portanto, quando Jesus opera milagres, ele não realiza “coisas estranhas” para demonstrar que ele é Deus, e sim mostra a fundo o projeto do homem que Deus tem, como fala o profeta Isaias (cf. Is 35,4-7). O profeta Isaias consola seu povo, em horas difíceis e lhe assegura que Deus vai infundir forças aos covardes e a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a fala aos mudos e águas abundantes para o deserto.
  Jesus é alguém que se preocupa com todo mal que pode destruir o homem e faz tudo que está em suas mãos para libertar o homem. Jesus é alguém que mostra que Deus e seu Reino são a libertação de toda dor que oprime o homem, de toda a escravidão que faz o homem infeliz. Jesus é alguém que mostra que nele atua Deus precisamente nisto: em fazer o bem aos que dele necessitam. Jesus é alguém que cria alegria ao seu redor.
  A construção do projeto Divino do homem não se faz por decreto nem tem sentido sem a participação pessoal de cada homem. Jesus Cristo, fazendo tudo isso, não vem para resolver magicamente as limitações e as contradições humanas e sim para deixar sinais sobre os quais devemos manter Sua obra. Isto quer dizer que nós, como a Igreja de Cristo, temos a tarefa de continuar essa obra: ajudar a levantar os que estão caídos na vida, mostrar o caminho certo para os perdidos pela confusão na escolha de caminhos errados, ajudar os outros a viverem uma vida digna. Tudo isto é o verdadeiro milagre. E nisto tudo Jesus está presente para nos apoiar e pelo qual todos reconhecerão que somos de Jesus Cristo (cf. Jo 13,35).

O Cristão é chamado a se comunicar e a comunicar o bem 

  O personagem central da cena do evangelho de hoje é um surdo-mudo. O homem foi criado para se comunicar. Por isso, mudez e surdez são dois empecilhos para a comunicação fluente. Esta era a situação do homem que foi apresentado para Jesus.
  Boca e ouvido tem um rico simbolismo na Bíblia. O ser humano precisa da boca para cantar os louvores de Deus e proclamar Suas maravilhas e narrar às gerações futuras a misericórdia de Deus. Através dos ouvidos o homem é instruído nos caminhos de sabedoria. Mas a língua pode levar o homem a perder-se. Daí o provérbio: “Falar com sabedoria é prata, ouvir com amor é ouro”.
  Ao relatar que o personagem central da cena é um surdo-mudo, o evangelista Marcos quer nos dizer que esse homem se encontra em dificuldade para se relacionar com os demais (contato, comunicação, dialogo, laços de amizade, etc.). Ele vive fechado no seu mundo. Ele vive solitário em um mundo isolado. Ele pode ver tudo, mas não pode escutar nem tem condições para falar aquilo que vê ou viu.
  Para o evangelista Marcos, esse homem representa aqueles que vivem fechados no seu mundo sem partilha, sem diálogo, são dominados pela auto-suficiência. Os auto-suficientes sempre colocam barreiras diante da novidade e das propostas de Deus. Eles formam um mundo a parte no meio do mundo de Deus. O surdo-mudo representa aqueles que não se preocupam em comunicar, em partilhar a vida, em dialogar, em deixar-se interpelar pelos outros. O surdo-mudo representa aqueles que vivem instalados, no seu egoísmo, nas suas certezas e nos seus preconceitos, convencidos de que é dono absoluto da verdade. Uma pessoa que está cheia de si paradoxalmente é uma pessoa vazia.  

Ser cristão é aquele que sabe escutar, falar e calar a seu tempo 

  No processo da cura do surdo-mudo, Jesus abre primeiro os ouvidos do homem, depois desata sua língua. Com isso, Jesus coloca o homem em situação de escutar primeiro para depois falar. Todos nós sabemos que a capacidade de falar depende também da capacidade que o homem tem para escutar. Por isso, as crianças, antes de começar a falar, antes de poder falar, necessitam desenvolver sua capacidade auditiva. Falar significa abrir o próprio interior, colocar-se ao lado de alguém de igual a igual. Escutar é estar em sintonia com o outro para entender sua mensagem. Escutar supõe a existência do silêncio. Se você nunca pode calar-se, pergunte-se o que é que você quer esconder. Uma conversa sem silêncios é desperdício de monólogos sem destinatários. “Para o sábio é difícil falar de sua sabedoria e para o tolo é difícil calar suas tolices” (René Juan Trossero). Um cristão tem que saber escutar, saber falar e saber calar a seu tempo, levando a sério a verdade e a caridade fraterna. Quando buscarmos a verdade e levarmos em consideração a caridade fraterna, falaremos e escutaremos com responsabilidade: saber escutar quando há de escutar; saber calar quando há de calar e saber falar quando, como e o que há de falar. Para isso, precisamos manter nosso ouvido e coração abertos à Palavra de Deus.
  “Abre-te!”, Jesus dá a ordem ao surdo-mudo. E o homem começou a se comunicar com os demais.
  Pode ser que não sejamos surdos fisicamente. Mas hoje em dia ficamos cada vez mais duros de ouvido porque todos nós temos que filtrar o que ouvimos a fim de não sentirmos oprimidos pela superabundância de informação. Podemos ficar tristes ou alegres, animados ou desanimados por aquilo que ouvimos e pelo modo como ouvimos. Tudo o que ouvimos, para poder compreendê-lo temos que organizá-lo em um determinado horizonte, o qual é distinto de pessoa a pessoa. Tal horizonte se produz a partir de decisões vitais para nossa vida: o que preciso ouvir e o que eu preciso evitar de ouvir.
  “Abre-te”, diz Jesus ao surdo-mudo, e ele saiu de seu isolamento e silêncio mortal. Este “abre-te” é também dirigido a cada um de nós.  A ordem “abre-te” existe porque há dentro de nós algo fechado. O que é que está muito fechado em você? Você que vive isolado, abra seu coração aos demais que necessitam de sua ajuda. Abra seu coração a quem lhe oferece a amizade. Abra-se aos que necessitam de seu carinho. Abra seus ouvidos e mova sua língua para aqueles que necessitam de suas palavras de consolo e de conforto. Quem tem ouvidos novos e os lábios libertados do mal tem também olhos abertos para os demais, mão estendida para os necessitados e coração limpo para testemunhar o verdadeiro amor. Quem faz o bem não faz barulho. Como dizia o Papa Pio XI: “O bem não faz barulho e o barulho não faz bem”.
  “Abre-te!”, diz Jesus a cada um de nós. Cada um precisa se perguntar: “O que é que está fechado em mim que preciso do toque de Jesus para eu poder ser libertado?”.

Oração pelas famílias:

Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.

Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.

Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém

Padre Silvester Anas.