
MINHA ESCOLHA AGORA É MEU FUTURO
Sb 7,7-11; Hb 4,12-13; Mc 10,17-30.
As leituras deste domingo nos convidam a refletirmos sobre as escolhas que devemos fazer no presente ou nesta vida, pois elas vão direcionar nossa vida e nos levam para algum destino. Em outras palavras a minha escolha agora é o meu futuro. O futuro desejado determina minhas escolhas no presente, ou vice-versa.
Por isso, é importante saber daquilo que estou procurando nesta vida. Se eu não souber o que estou procurando ou o que eu estou querendo que dê sentido à minha vida, também não saberei como devo viver e que tipo de futuro terei. Por isso, não basta viver. É preciso saber para que viver? Não basta buscar apenas subsistir. É preciso buscar objetivos que dêem sentido à vida tanto na sua duração aqui neste mundo como depois de seu fim nesta terra. Sentido é o que nos torna capazes de viver e de ser felizes inclusive em situações não favoráveis.
Para isso, precisamos de uma luz que nos devolva a vontade de viver e afastar o medo de crescer cada dia. Cada dia somos chamados a crescer, pois somos aquilo que somos e aquilo que nos falta: “Só uma coisa te falta”, diz Jesus ao homem rico no Evangelho (Mc 10,21). Por mais que tentemos dar o melhor de nós, sempre falta alguma coisa na nossa vida. Precisamente aquilo que nos falta é que nos estimula a melhorar cada dia nosso modo de viver e de conviver. Nesta busca, precisamos da sabedoria divina para poder fazer escolhas que nos levem a um futuro desejado. Quem tem um porquê para viver, encontrará o como deve viver e quais são escolhas que devem ser feitas.
Na primeira leitura, um "sábio" de Israel nos apresenta um hino sobre sabedoria. O "Livro de Sabedoria" é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento. Ele apareceu durante o séc. I a.C. O seu autor, um judeu de língua grega, provavelmente nasceu e foi educado na Diáspora (fora de Israel). O autor se encontra no meio da cultura grega que se sente superior a outras culturas. A cultura grega (helenista) tenta convencer os judeus a abandonarem a sua fé, a "modernizar-se" e a abrir-se aos brilhantes valores da cultura helenista (grega). É neste ambiente que o autor do Livro da Sabedoria decide defender os valores da fé e da cultura do seu Povo.
O autor quer convidar seus compatriotas a redescobrirem a fé que receberam dos pais, e também quer alertar a todos sobre o perigo da idolatria. Por isso, o autor pretende deixar este ensinamento fundamental: somente Deus garante a verdadeira "sabedoria" e a verdadeira felicidade. E o verdadeiro "sábio" é aquele que escolhe escutar as propostas de Deus, aceitar os seus desafios, e seguir os caminhos que ele indica. A sabedoria simplesmente significa a capacidade de fazer as escolhas corretas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem à sua realização, e à sua felicidade. O autor está consciente de que a "sabedoria" vem de Deus e é um dom que Deus oferece a todos os homens que tiverem o coração disponível para acolhê-la. A sabedoria é um tipo de "luz" que indica caminhos e que permite discernir as opções corretas a tomar. É ela que permite ao homem gozar os bens terrenos com maturidade e equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os nos seu devido lugar e não deixando que sejam eles a conduzir a vida do homem e a ditar as suas opções.
Escolher a "sabedoria", por isso, não significa prescindir de outros valores mais materiais e efêmeros, ou nos fecharmos ao mundo e renunciarmos definitivamente às coisas belas que o mundo nos pode oferecer. Mas viver na sabedoria de Deus significa darmos prioridade àquilo que é realmente importante e que nos assegura não momentos efêmeros, mas momentos eternos de felicidade e de vida plena, pois os valores efêmeros não servem para encher completamente a nossa vida de significado e não nos garantem a vida verdadeira. Têm o seu lugar na nossa existência; mas não podem crescer de tal forma que ocupem todo o espaço livre no nosso coração e na nossa vida. Os valores efêmeros não são maus, por si próprios; mas não podemos deixar que eles tomem conta da nossa vida, condicionem todas as nossas opções, nos escravizem de tal modo que nos levem a esquecer outros valores mais importantes e mais duradouros. Se absolutizarmos os valores efêmeros, construiremos freqüentemente esquemas de egoísmo, de violência, de inimizade, de exploração, de corrupção e de ódio, que desumanizam e magoam aqueles que caminham ao nosso lado.
Se é um dom, é preciso, portanto, termos os ouvidos atentos para escutar e o coração disponível para acolher a "sabedoria" que Deus quer oferecer a todos os homens. Mas, sem dúvida, ela não chega a quem se situa diante de Deus numa atitude de orgulho e de auto-suficiência; ela não atinge quem se fecha em si próprio e constrói uma vida à margem de Deus; ela não encontra lugar no coração e na vida de quem ignora Deus, os seus desafios, as suas propostas. O "sábio" é aquele que, reconhecendo a sua finitude e debilidade, se coloca nas mãos de Deus, escuta as suas propostas, aceita os seus desafios, e segue os caminhos que ele indica. Uma vez acolhida no coração do homem, ela o transforma, renova-o, ajuda-o a discernir o bem e o mal e a fazer as opções corretas, e indica-lhe o caminho certo para chegar à vida plena e definitiva, pois “a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes... Ela julga os pensamentos e as intenções do coração. E não há criatura que possa ocultar-se diante dela. Tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas” (Hb 4,12-13). A Palavra de Deus ajuda-nos a discernir o bem e o mal e a fazer as opções corretas. Ela ressoa no nosso coração, confronta-nos com as nossas infidelidades, critica os nossos falsos valores, denuncia os nossos esquemas de egoísmo e de comodismo, mostra-nos o sem sentido das nossas opções erradas, grita-nos que é preciso corrigir o nosso rumo/direção, desperta a nossa consciência, indica-nos o caminho para Deus. É preciso que a Palavra de Deus esteja no centro da nossa experiência de fé e da nossa caminhada existencial, pois é ela que nos questiona, que nos transforma, que nos indica caminhos, que nos permite discernir a vontade de Deus.
O oposto da sabedoria divina se encontra na opção feita por uma pessoa rica no evangelho de hoje que se fecha diante da proposta de Deus, porque não aceita o convite de Jesus para que ele escolha o caminho de partilha, de solidariedade, de doação, de amor, pois segundo Jesus, somente por esse caminho é que o homem se realiza plenamente e encontra a vida eterna. O homem de que se fala nesta cena, é um piedoso observante da Lei; mas não tem coragem para renunciar às suas seguranças humanas e aos bens terrenos que lhe escravizam o coração. Esse homem procura conservar o que possui. E todo conservador não tem futuro porque procura conservar o que é caduco, finito e que perece. Não se pode conservar o que acaba.
A história do homem rico que não está preparado para viver no amor, na partilha, na entrega da própria vida aos irmãos, serve a Jesus para dar uma exortação para todos: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”. Jesus não condena a riqueza, mas a ansiedade de acumular fortunas de forma gananciosa. O ideal do cristão não é a pobreza nem a fome nem a nudez, mas a divisão fraterna dos bens que Deus pôs à disposição de todos. Pecado não é ficar rico, mas ficar rico só por si, deixando os outros sem nada para sua sobrevivência. O alerta de Jesus sobre os perigos da riqueza não é somente para os ricos de fato, mas para todos quantos queiram ser seus discípulos e herdar a vida eterna. O dinheiro é o deus que tem seu altar em cada coração humano. Seria ingênuo negá-lo. É um ensinamento para todos, pois todos temos “alma de rico”, incluindo os pobres que são cobiçosos, avarentos e apegados ao pouco que possuem. Em todos os níveis sociais se busca a riqueza material, freqüentemente com espírito de cobiça, e se põe nele a confiança mais que em Deus.
“O que preciso fazer para alcançar a vida eterna” é uma questão que inquieta todos os que acreditam em Deus. A vida eterna é sempre um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade, da sua misericórdia, do seu amor pelo homem; no entanto, é um dom que o homem aceita, acolhe e com o qual se compromete. A vida eterna é uma realidade que deve marcar cada passo da nossa existência terrena e que atingirá a plenitude na outra vida, no céu. Nós, cristãos, sabemos que os bens deste mundo, embora nos proporcionem bem estar e segurança, não nos oferecem a vida eterna; essa vida eterna que buscamos ansiosamente está no caminho de amor, de serviço, de dom da vida que Cristo nos ensinou a percorrer. O cristão não é um pobre coitado condenado a passar ao lado da felicidade; mas é uma pessoa que renuncia a certas propostas falíveis e parciais de felicidade, pois sabe que a vida plena está em viver de acordo com os valores eternos propostos por Jesus. Sem dúvida, as nossas opções cristãs são criticadas, incompreendidas, e apresentadas como realidades incompreensíveis e ultrapassadas por aqueles que representam a ideologia dominante, que fazem a opinião pública. Precisamos, todavia, estar conscientes de que a perseguição e a incompreensão são realidades inevitáveis, que não podem desviar-nos das opções que fizemos. A vida eterna, a felicidade não está no ter e sim no ser. E para ser é indispensável a liberdade interior. E a liberdade interior se manifesta na doação, na partilha, na solidariedade, na compaixão. Enfim, no amor vivido na convivência com os demais. Por este caminho só há felicidade.
Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.
Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.
Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém
Padre Silvester Anas.
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