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Servir como estilo de vida cristã.



SERVIR COMO ESTILO DE VIDA CRISTÃ

Mc 10,35-45

 

"Mestre, concede-nos que nos sentemos na tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda”. Este é o pedido dos irmãos João e Tiago a Jesus (Mc 10,37).

 Para um dos grandes psicanalistas, Adler, a mais forte pulsão humana é a vontade de poder. O desejo pelo poder é um problema que tem suas raízes na tendência praticamente instintiva que todos temos a dominar e que se manifesta em qualquer das ordens da vida. Cada um gosta de ter os demais debaixo. O serviço é, por isso, uma negação a esse instinto e o poder é uma negação ao serviço.

 

Tiago e João formulam seu pedido a partir dos modelos habituais do poder: a glória mundana. Mas para onde conduzem esses modelos? A resposta que o evangelista dá é esta: É para matar. O evangelista Marcos quer nos levar logo à cena da crucificação de Jesus. Ali aparecem, à direita e a esquerda, outros dois crucificados. O estar à direita ou à esquerda não é efetivamente algo que dependa de Jesus; é o poder que reserva estes postos. Por isso, João e Tiago não sabem o que pedem: “Não sabeis o que pedis”, retorquiu Jesus. É uma crítica muito fina ao poder. Crítica explicita se encontra no v. 42: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”.

 

Um alerta muito forte dirigido aos Doze para não exercerem sua missão segundo os modelos habituais do poder é este: “Entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servidor/servo, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Mc 10,43-44). Nessa altura a exortação de Jesus adquire toda a grandeza e a força dramática da ultima vontade de uma pessoa. Com efeito, o v. 45: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos", contêm as ultimas palavras do ensinamento de Jesus aos seus discípulos. São um grito e um oferecimento. Jesus quer dizer de outra maneira: “Vocês tem que levar em consideração a minha vida, pelo menos a razão da minha morte para não ficarem disputando quem manda e quem é mandado. Que meu Corpo morto seja sinal daquilo que o poder é capaz de fazer. Que esse Corpo os faça tomar consciência da necessidade de sair de um sistema mortífero. Que esse Corpo os resgate desse sistema”. São Paulo entende perfeitamente tudo isso quando faz da cruz o emblema cristão: “A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina” (1Cor 1,18). 

 

Para corrigir os discípulos ambicionados pelos modelos habituais do poder Jesus faz a seguinte afirmação: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir”. Jesus quer lhes dizer: “Se vocês quiserem alcançar a verdadeira glória, sejam como eu e façam o que eu faço! As pessoas sejam colocadas como centro de suas atividades. Não trabalhem pelo trabalho. Trabalhem, sim, pelas pessoas”.

 

Quem quiser ser grande, seja vosso servo”, recomenda Jesus. O serviço não é somente um conjunto de boas obras, pequenas ou grandes, de ajuda aos demais. Estas boas obras, por si mesmas, não são nada porque muitas vezes as realizamos como “méritos” para obter um bom posto ou determinado privilégio. O que conta é a atitude de serviço como atitude de vida. Ou seja, o desejar uma vida gozosa e plena para todos, e orientar toda a própria atividade para consegui-la: nas pequenas ajudas e serviços, em ter uma atitude que descubra o bom que os demais fazem e não em descobrir o mal ou algo negativo que os outros fazem, em não crer que somente é valida a própria maneira de ser cristão, etc.. “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

 

O serviço cristão se caracteriza primeiramente por ser redentor ou salvador. Ele serve o outro para que outro possa viver. É a experiência histórica de Jesus que veio para servir e dar sua vida como resgate para muitos. Servir torna-se, então, um estilo de vida, e não é apenas uma atividade em determinado momento da vida diante dos demais. O serviço cristão é também participativo. Ao servir o outro, o cristão estará participando da vida e da missão de Jesus. Cristo servo deseja viver e estar em meio de uma comunidade de servos. Por isso, entre os cristãos o primeiro há de ser o servo de todos, isto é, há de ser o primeiro no serviço. Além disso, o serviço cristão é eficaz e fecundo. Foi eficaz na vida do Servo de Deus que “por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita” (Is 53,11). Foi fecundo e eficaz entre os primeiros cristãos que se consideravam, como Paulo, servos de Cristo no serviço aos irmãos, e que formaram comunidades fundadas no amor e na solidariedade. Foi eficaz e fecundo em Jesus que tirou a humanidade de um futuro sem esperança.

 

Para os cristãos servir, então, não é opcional e sim é lei constitutiva da comunidade cristã. Por esse caminho e vivendo este estilo de vida, cada cristão será um sinal vivo de Cristo para os outros.

 

O que acontece quando o serviço não é uma atitude de vida? Para responder a esta pergunta, Jesus utiliza como exemplo de não-serviço o estilo de vida de governantes absolutos de seu tempo: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam” (v.42). O abuso do poder é um fato facilmente comprovável em todas as nações. É por isso que Jesus fez essa afirmação. Para Jesus todo governo comporta domínio, e todo político tem no seu interior certa ânsia de domínio. Os que mandam são capazes de fazer o mal ou matar, pois o próprio Jesus será vítima disso. O poder sempre será perigoso, mas o poder absoluto será com toda segurança perigosíssimo, tem tentação de empregá-lo em seu próprio interesse. Por isso, vem aqui a advertência de Jesus: “Mas entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Mc 10,43-44). “Entre vós não deve ser assim”. Esta frase marca a necessidade de uma linha divisória. Entre vós não deve existir a maior grandeza do que a grandeza de servir os demais.

 

Por isso, a aspiração de seus discípulos e de cada cristão em particular não há de ser o poder sobre os demais e sim o serviço aos demais. No serviço pelo bem de todos consiste a única grandeza de um cristão. Mas o que oprime os demais é um miserável.

 

Se uma comunidade cristã católica cair na tentação de organizar a comunidade a partir dos princípios de poder, de predomínio, automaticamente e conseqüentemente ela abandonará sua missão de evangelizar e ela deixará de ser uma comunidade crível. Uma comunidade que não se preocupa com o amor, a justiça e o serviço, ela deixa de ser uma comunidade cristã, uma comunidade de Jesus. Se, na comunidade cristã, um deixar de servir o outro, a rivalidade, a disputa para ser quem manda mais vão ter um lugar bem fértil na comunidade. Quando a Igreja em geral e cada cristão em particular se afastarem de uma estrutura fraternal e adaptando-se às formas deste mundo, então se converterá em um instrumento de poder e conseqüentemente se afastará de Jesus.

 

Ao contrário, uma vida vivida na simplicidade, na humildade, no sacrifício, na entrega e no dom de si mesmo é uma vida fecunda e plenamente realizada, que trará libertação, verdade, esperança e amor à comunidade e ao mundo em geral. Na comunidade cristã não deve haver donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras. Deve haver, sim, comunidade de irmãos onde um deve servir o outro. O que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu e de dividir aquilo que se tem para os que nada têm se quisermos continuar a ser chamados de cristãos.

 

Uma pergunta para cada um refletir: “Será que eu sirvo minha comunidade como estilo de vida? De que maneira eu concretizo isso?”.


Oração pelas famílias:

Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.

Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.

Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém

Padre Silvester Anas.