VER PARA SEGUIR A JESUS PELO CAMINHO

Mc 10,46-52
“Mestre, que eu veja!”
Não há nada que seja mais belo ou formoso na vida do que poder ver: ver o rosto da mãe ou do pai, ver o sorriso de uma criança, ver os olhos da pessoa amada. Ver o sol, a natureza, a obra dos homens, ver “as obras dos dedos de Deus” (Sl 8,4) e assim por diante. Jesus nos chamou para ver: “Venham e vejam!” (Jo 1,39), disse Jesus aos dois discípulos de João que mais tarde se tornarão discípulos seus. É para ver a vida a partir de uma perspectiva especial para poder caminhar na direção certa.
A cena da cura de Bartimeu de sua cegueira rompe com algo que Marcos sempre fez nos relatos de cura. Desta vez, Jesus não afasta o cego da multidão para curá-lo (cf. Mc 8, 22-26). Ao contrário, é Jesus quem pede que as pessoas tragam o cego até Ele. Em um diálogo público com o cego, Jesus pergunta ao cego por seus desejos. Duas das frases importantes que Marcos gravou para nós: “Mestre, que eu possa ver” e “Anda/vai, tua fé te salvou”. Marcos não termina o relato com o encargo de guardar silêncio como de hábito. No lugar deste encargo lemos esta frase: “Bartimeu seguia a Jesus pelo caminho”. Neste imperativo “anda/ vai” se esconde um convite ao seguimento no caminho, o caminho concreto até Jerusalém, até a Cruz e a ressurreição. Por isso, Marcos elaborou um relato de visão do caminho ou do seguimento.
O milagre da cura do cego adquire um valor simbólico. É um homem que reconhece em Jesus o Messias e o Mestre. A Palavra de Jesus devolve ao cego a vista como símbolo da fé. Por isso, o evangelista Marcos nota que esse homem, depois que ficou curado, “seguia a Jesus pelo caminho”. Precisamente no caminho se realiza o último milagre de cura narrado por Marcos. Somente com fé esse homem pode ficar perto de Jesus e caminhar com Ele até Jerusalém, término do caminho. Isto quer dizer que somente com fé se pode participar do mistério de Jesus Cristo. Não é possível dar um passo neste mundo sem a fé.
(Alguns exegetas ao comentar este texto dizem que estamos diante de um texto simbólico. Jericó é a terra; o cego é a humanidade não redimida; a multidão que impede os gritos do cego são as forças que distraem o homem do cristianismo; o caminho a Jerusalém é o caminho para o mundo celeste).
Uma das razões que nos impedem sermos autenticamente nós mesmos e encontrar nosso caminho é não compreender até que ponto estamos cegos. Mas a tragédia está no fato de que não estamos conscientes de nossa cegueira. Vivemos em um mundo de coisas que captam ou chamam nossa atenção e se impõem. O que é invisível, ao contrário, que não se impõe, nós devemos buscá-lo e descobri-lo. O mundo exterior pretende nossa atenção. Enquanto que Deus se dirige a nós com discrição.
Ser incapaz de perceber o invisível, ou ver somente o mundo da experiência significa ficar-se fora do mundo da experiência, significa ficar-se fora do pleno conhecimento, significa ficar-se fora da experiência da realidade total que é o mundo de Deus e Deus no coração do mundo. O cego Bartimeu era dolorosamente consciente porque, privado da luz dos olhos, não podia captar o mundo visível. Por isso, ele lança seu grito desesperado ao Senhor, sentia uma esperança cheia de angústia que a salvação passava junto a Jesus porque o cego sentia-se estranho e separado dela.
Além de ser incapaz de perceber o invisível, o egoísmo reduz o homem a seus próprios desejos e interesses, lhe fecha os olhos e o coração, o paralisa à margem do caminho por onde percorre a vida. O homem que vegeta em seu egoísmo tem um coração demasiado estreito para acolher o próximo e demasiado estreito para receber Deus. O egoísta não vê os outros homens que vivem ao seu redor nem escuta ao que grita ao seu lado, por isso, tampouco pode ver nem escutar Deus. O encontro com o próximo é indispensável para o encontro com Deus, pois isto é o primeiro que cremos: que Deus se fez homem (Jo 1,14). Não é possível escutar a Palavra de Deus, se não estamos dispostos a escutar os homens. Por isso, a dificuldade da fé não é outra coisa que nosso próprio egoísmo, nossa auto-suficiência, porque a fé é abertura, encontro, aceitação.
Ao saber que Jesus estava passando perto dele, o cego Bartimeu começou a gritar: “Filho de Davi, tem piedade de mim!”. A salvação para todos consiste em fazer que a voz chegue a quem está passando. Pode ser uma voz de desespero, mas que é nossa. E não do coro. Jesus ama Bartimeu porque este não duvida em gritar a pleno pulmão o que os outros se limitam a sussurrar: Messias. Ele não tem medo de se comprometer, de exagerar desde alcance Jesus, Salvador.
A fé que confia supera todos os obstáculos postos por outros. E diante desta fé Jesus intervém para possibilitar o encontro pessoal e o pedido direto. Jesus parou e disse a seus acompanhantes, que antes mandaram o cego calar-se: “Chamai-o!”.
Esses acompanhantes mudam de atitude. Agora ajudam o cego e insistem que se levante e vá para Jesus: “Coragem! Levanta-te, Jesus te chama!”.
Deus quer que saibamos dizer aos outros: “Jesus te chama”. Mas que saibamos também escutar quando alguém ou um livro ou uma voz interior nos diz: “Jesus te chama”.
Bartimeu jogou fora o manto para ir ao encontro de Jesus. Uns deixaram seus barcos, Bartimeu deixou seu manto. Bartimeu fez isso sem pensar demasiadamente e sem demora. Aquele manto, que em certo modo o qualificava, que em certo modo era testemunho de sua invalidez e para se defender do frio da noite, não serve mais para nada no momento em que encontrou Jesus que o salvou. Aqui a imagem é dinamizante. Despojar-se de todo estorvo/embaraço, despertar-se da vida cômoda, separar-se de tudo que afasta cada um de Deus. Para seguir Jesus é inevitável deixar ou abandonar algo.
“Mestre, que eu veja”. Este foi o pedido de um cego sem luz e sem caminho. “Vai, a tua fé te salvou!”, respondeu Jesus ao pedido do cego que a partir daquele momento começou a enxergar.
Bartimeu é o símbolo de todos os homens que desejam ver, caminhar e viver. Sobretudo é um símbolo para todos em tempos de crise, de obscuridade, de desorientação. É um símbolo para o homem que, apesar de tudo, busca e continua buscando sua direção ou seu guia para sua vida. Junto ao homem que busca, Jesus passa como a Vida, a Luz e o Caminho para o homem. Com Jesus o homem se encontra consigo mesmo e com Deus que direciona a vida para sua plenitude. A fé em Jesus é uma luz que ilumina a vida. A luz da fé ilumina e dá sentido à nossa vida porque põe claridade na origem, de onde viemos e no término, no fim de nosso destino.
Você tem certeza de que está seguindo a Jesus? Bartimeu jogou fora seu manto sem pensar demasiadamente e sem demora. O que é que você largou para seguir Jesus livremente? O cego Bartimeu pediu a Jesus para que pudesse ver. O que é que você pode pedir essencialmente nesta altura de sua vida para Jesus?
Oração pelas famílias:
Senhor Jesus Cristo, Vós que, fazendo-Vos homem, quisestes ser membro da família humana, ensinai às nossas famílias as virtudes que resplandeceram na casa de Nazaré.
Fazei que elas permaneçam unidas, como Vós e o Pai sois Um, e sejam testemunho vivo de amor, de justiça e solidariedade; fazei que sejam escolas de respeito, perdão e ajuda recíprocos, para que o mundo creia; fazei que sejam fonte de vocações para o sacerdócio, para a vida consagrada e para todos os demais modos de decidido compromisso cristão.
Com a imposição da minha mão sacerdotal que Deus abençoe toda a sua família: + Em nome do Pai, Filho e Espírito Santo . Amém
Padre Silvester Anas.
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