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Viver feliz plenamente



VIVER COM DEUS PARA VIVER FELIZ PLENAMENTE

Jr 17,5-8; 1Cor 15,12. 16-20; Lc 6,17.20-26

 

Nós vivemos em prol da felicidade. E por isso mesmo, podemos ir de decepção em decepção. Todas as criaturas, como nós, seres humanos, são submetidas à relatividade e, portanto, à imperfeição e à limitação. Mas, por outro lado, a Palavra de Deus nos convida à verdadeira felicidade. É patrimônio de quem confia no Senhor. A verdadeira felicidade se experimenta na pobreza, isto é, na abertura total do coração a Deus. Há que fundar, por isso, a vida no Absoluto, no Senhor. Quem funda a vida no Absoluto, no Senhor, nenhuma decepção da vida lhe defrauda. Deus não decepciona. As coisas relativas, com seu valor relativo, nunca são fundantes. É prudente, por isso, aquele que edifica sua casa sobre a rocha, sua vida sobre a Palavra de Deus (cf. Mt 7,24-25). O homem de fé aquilata a perspectiva exata da realidade.

 

O homem que cumpre a Palavra de Deus, verdadeira sabedoria da vida, consegue a autentica felicidade, tal como expressam Jeremias na primeira leitura e o Salmo responsorial: “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos... mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar” (Sl 1,1ss). Os livros sapienciais acentuam o valor da Palavra de Deus como fonte da felicidade humana. A pobreza interior, a humildade e a confiança no Senhor são o fundamento de uma vida autenticamente feliz.  Os hebreus, que entendiam o homem como uma unidade psicofísica, tinham uma concepção ampla da felicidade humana sem fazer uma cortante distinção entre a felicidade humana e a felicidade celestial. Ser feliz era, simplesmente, viver o mais intensamente possível segundo os mandamentos do Senhor.

 

Jesus recorre à velha temática do homem bíblico e praticamente inaugura sua pregação com um discurso cujo eixo central é a felicidade humana. Desde então ele mesmo se apresenta como fonte de felicidade para quem escuta sua Palavra, para quem crê nele, o segue e espera seu dia.

 

No entanto, a mensagem de Jesus rompe decididamente com os esquemas de felicidade do “mundo”: a felicidade não se cifra no poder, nem na riqueza ou no dinheiro e sim em uma conduta cuja essência é o serviço à comunidade para que todos vivam na fraternidade. Se um membro da comunidade não servir o outro, haverá espaço para a rivalidade, para as comparações injustas até para a inimizade. A eucaristia não é para os inimigos ou rivais e sim para os reconciliados (cf. Mt 5,23-24).

 

Por isso, o código de felicidade de Jesus é tremendamente paradoxal e ele mesmo em pessoa será o expoente dessa paradoxal felicidade: na morte de cruz encontrará sua vida plena de ressuscitado. Desde então, Jesus Cristo determina um ponto de vista novo e original que não somente consegue que o homem possa ter momentos de felicidade e sim que possa dar sentido para sua vida. Sem dar sentido à vida, não se pode falar da felicidade. Quem encontra o sentido da vida é feliz.

 

A Palavra de Deus neste dia nos coloca diante das propostas de Deus para nossa plena existência, por um lado, e a tendência ou a tentação para o egoísmo e a auto-suficiência que resultam na desorientação para nossa vida e nossa convivência com os demais, por outro lado.

 

O profeta Jeremias, na primeira leitura, fala dos auto-suficientes e que como tais prescindem de Deus (Jr 17,5-8). Eles olham para a vida somente no seu aspecto material. Adoram as coisas e esquecem-se do Criador das coisas. Por isso, o profeta Jeremias nos recorda que prescindir de Deus significa morte e a perda da felicidade plena e eterna. Mas aqueles que confiam em Deus experimentarão a ressurreição, vida que não acaba com a morte, como enfatiza São Paulo na segunda leitura (1Cor 15,12. 16-20). Por esta razão é que Jesus proclama “felizes” àqueles que vivem sua vida de acordo com os valores propostos por Deus: viver na simplicidade, na humildade, na justiça, na solidariedade, na honestidade, na caridade, na verdade e assim por diante. E Jesus proclama infelizes os que constroem a vida sobre o egoísmo, a arrogância e a auto-suficiência (Lc 6,17. 20-26).

 

As bem-aventuranças resumem, na verdade, o ensinamento de Jesus e o sentido de sua vida. E por isso também elas são a explicação do que significa ser cristão. As bem-aventuranças contrastam com os valores limitados que estão em uso nas sociedades humanas. As bem-aventuranças nos descobrem que a vida dos homens tem uma dimensão escondida que não pode ser descoberta por aquele que vive unicamente para si mesmo, pois requer um vasto horizonte. As bem-aventuranças pontualizam atitudes humanas fundamentais, o caminho para construir o Reino de Deus, o caminho da nova humanidade. São um programa completa de vida dos que querem de verdade ser seguidores de Cristo. Para construir seu Reino Deus atua nos pobres, nos que tem fome de justiça, nos que choram para defender sua dignidade, nos perseguidos por ser solidários.

 

Mas é importante observar que o que se declara bem-aventurado são as pessoas e não as situações. A observação é importante porque isto significa que as bem-aventuranças não convalidam ou consagram situações sociológicas de injustiça e de dor por falta de respeito pela dignidade humana. As bem-aventuranças não estão de acordo com a alienação, a miséria ou a marginalização. Quem favorece ou consciente a fome, a incultura, a injustiça, a mentira, a opressão e assim por diante, não é cristão. Jesus não dá felicitação àqueles que não são respeitados em sua dignidade humana, porque isso é uma injustiça. As bem-aventuranças estão nas antípodas de pretender a construção de uma sociedade injusta. São bem-aventurados os que lutam por uma sociedade melhor para todos e por isso, tem que sofrer.

 

E Lucas completa as bem-aventuranças com umas maldiçoes com as quais nos alerta a não pormos o coração nos prazeres sem limites, nos poderes e na dominação pela riqueza, pois tudo isto cega o homem.

 

Quem são os ricos, os saciados (os que têm fartura), os que riem, os que buscam apenas os elogios para os quais Jesus lança os ais ou para os quais Jesus proclama infelizes no evangelho deste dia?

 

São os que colocam seu coração em si mesmos e em suas coisas, os que vivem em função de seu prestigio e de seu ego. São os que não têm necessidade de nada, nem de Deus, ainda que falem d’Ele, porque têm “tudo”. Os que só pensam em ser mais importantes do resto. Os que não temem nada porque crêem que com o dinheiro podem resolver “tudo”, mas que se esquecem de que diante do leito da morte riqueza nenhuma tem poder de solução, pois com o dinheiro alguém pode comprar tudo menos a vida eterna. São os que dão daquilo que lhes sobra; os que guardam as aparências por medo ao que os outros dizem, são os que pertencem a uma religião ou crença, mas vivem sem nenhum compromisso com a vida. Em outras palavras, são os que têm horizonte muito vulnerável, reduzido e de precária realidade; horizonte curto como curta é a vida do homem sobre a terra. Uma pessoa, que contempla todas as coisas deste mundo, fechada à transcendência não tem nada mais no futuro do que a morte eterna. Ai radica a imensa tragédia do homem fechado ao infinito e à plenitude.

 

Nestas respostas inclui qualquer um de nós e por isso, estas respostas servem para qualquer um de nós refletir sobre como vive sua vida na sua relativa curta duração sobre a terra. Quais são os caminhos que escolhemos na vida para saber aonde chegaremos. Escolher o caminho é escolher o endereço. O endereço determina o caminho que devemos escolher para ser trilhado. O endereço nos faz caminho certo, mesmo que fiquemos perdidos momentaneamente, mas o endereço fica na nossa memória que nos faz voltarmos para o caminho certo a fim de chegarmos ao endereço desejado e sonhado.

 

A palavra de Deus é o próprio caminho para chegar à felicidade plena. Basta lê-la e meditá-la diariamente para orientar nossa conduta de cada dia. “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos... mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar”. Esta é a mensagem que devemos guardar. A felicidade radica em um constante crescimento, no desenvolvimento da liberdade, da justiça, do amor, mas em um processo de luta, de morte do egoísmo, de perpétua mudança interior, de revisão constante de si mesmo.