
DEUS QUER NOS RENOVAR NO SEU SANTO ESPÍRITO
At 2,1-11; Rm 8,8-17; Jo 20,19-23
Neste dia celebra-se a festa de Pentecostes, a festa do Espírito Santo. É o dia do aniversário da Igreja. É o início de sua missão com Igreja. O Concílio Vaticano II descreve o sentido de Pentecostes ao dizer: “Para completar sua obra, Cristo enviou o Espírito Santo da parte do Pai, a fim de que, interiormente, operasse sua obra de salvação e propagasse a Igreja... No dia de Pentecostes, ele desceu sobre os discípulos para permanecer eternamente com eles; a Igreja foi manifestada publicamente ante a multidão; e, pela pregação, iniciou-se a difusão do Evangelho entre as nações” (Ad Gentes, 4).
Sobre a importância do papel do Espírito Santo na vida da Igreja como toda e na vida de cada cristão, em particular, Inácio de Laodicéia escreveu: “Sem o Espírito Santo, Deus se torna longínquo; Cristo fica no passado; o Evangelho vira letra morta; a Igreja, uma simples organização; a autoridade, uma opressão; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o comportamento cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, Cristo está presente; o Evangelho é poder de vida; a Igreja torna-se comunhão trinitária; a autoridade, um serviço libertador; a missão, um Pentecostes; a liturgia, um memorial e uma antecipação da glória; e o comportamento torna-se divino”.
Pentecostes era uma festa agrícola que se celebrava para agradecer a Deus pela colheita (Ex 34,22; Nm 28,26). No século I Pentecostes se transformou em festa que celebrava o dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus.
Ao colocar nesta festa o dom do Espírito Santo, Lucas quer nos dizer que o Espírito Santo é a lei da nova aliança. E a Lei do Espírito Santo é o coração novo, é a vida de Deus que, quando penetra no ser humano o transforma e produz naturalmente as obras de Deus. Quando o homem é permeado pelo Espírito Santo, nele acontece algo inaudito: ama com o mesmo amor de Deus. João chega a dizer que o homem animado pelo Espírito Santo é simplesmente incapaz de pecar: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (1Jo 3,9). E o amor é a linguagem que todos entendem (At 2,7-11).
Na festa de Pentecostes a Igreja celebra o Espírito Santo como o dom de Deus dado aos homens: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Somente com o Espírito de Deus, com o Espírito de amor é que a comunidade pode se tornar viva, recriada, nova, renovada e unida. E com a força do amor a comunidade é capacitada para superar seus medos e limitações para viver e testemunhar os ensinamentos de Cristo (veja o discurso de Pedro e seus frutos em At 2,14-41). O Espírito Santo dá vida: “Deus insuflou em suas narinas (do homem) um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7; cf. Jo 20,22). O Espírito Santo renova e transforma o homem/face da terra (cf. Sl 104,30; veja At 2,1ss), constrói comunidade e faz nascer o homem novo (cf. Gl 5,22-23).
Além de tudo que foi dito acima, vamos refletir sobre outros elementos desta festa a partir das leituras deste dia.
1. O Espírito Santo é um dom de Deus que nos convida a vivermos na gratidão
“De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde os discípulos se encontravam... Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,2. 4; cf. Jo 20,20).
O fato de tudo isso “vir do céu” indica que o Espírito Santo não é uma invenção dos cristãos, mas um dom que lhes foi dado, conforme a promessa de Jesus (Jo 14,15-17). Ele é uma força irresistível que foge ao controle e às manipulações humanas. Ele sopra para onde quer (cf. Jo 3,8)
Ao dizer que o ES é o dom o texto quer nos dizer que estamos no Reino da Graça. Vivemos simplesmente por causa da graça de Deus: “Pela graça de Deus sou o que sou”, diz São Paulo (1Cor 15,10). Como dom, Deus derrama seu Espírito e seus dons sobre o seu povo, não como promoção por suas realizações, mas na liberdade de sua misericórdia e graça. Deus não exige um pagamento velado em troca de seus dons. O Dom do Espírito Santo, então, nos faz lembrar que não estamos vivendo num mundo calculista de benefícios conferidos em proporção às condições atendidas, mas no reino de um Pai gracioso, que derrama generosamente seu Espírito, em graça livre e incondicional para todos nós.
Quando tivermos a plena consciência de que vivemos no mundo da graça, porque tudo que somos e temos é o puro dom de Deus, nós viveremos como pessoas agradecidas. A pessoa agradecida é interiormente rica. Quanto mais grata for uma pessoa, maior riqueza interior possui. Mesmo em condições momentaneamente difíceis, uma pessoa agradecida não se sente infeliz, porque descobre sempre mil razões para agradecer a Deus. Crer em Deus significa, neste sentido, receber com gratidão o amor auto-revelado de Deus. A gratidão nos torna sensível e perspicaz. A gratidão faz do cristão um ser eucarístico.
Ao contrário, o ingrato é um ser mesquinho e isolado. Ele pode até ter sua aparente satisfação, mas no fundo, é um infeliz. Pela ingratidão, o homem perde o paraíso da reciprocidade das boas relações. Para o ingrato, a verdadeira beleza e preciosidade dos bens terrenos permanecem escondidas. A festa do Espírito Santo quer convidar cada um de nós a voltar a viver na gratidão pela qual seremos todos felizes novamente.
2. Quem se deixa guiar pelo Espírito Santo é capacitada a criar relações e a superar o gueto
“Então apareceram línguas como de fogo... e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas...” (At 2,3-4).
“O vento de tempestade” e “o fogo” são símbolos que evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem porque quer se comunicar com o homem. A “língua” neste relato não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo humano ou de uma nação, mas ela significa também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade.
“Falar outras línguas”, por isso, significa criar inclusão e relações baseadas sobre o amor. Somente ao criar relações é que o homem pode superar o gueto, o egoísmo, o sectarismo, a divisão, o racismo, a marginalização, a exclusão, e assim por diante, para formar uma convivência fraterna. Por isso, o texto nos relatou a reação positiva dos ouvintes dos discípulos de Jesus guiados pelo Espírito Santo: “... todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” (At 2,11). Os que se deixam guiar pelo Espírito Santo falam uma língua que todos entendem e a todos une: a linguagem do amor. E os que se amam, se entendem. E o amor é o único meio que em si tem capacidade de convencer os ateus, os pagãos, os decepcionados, os pessimistas e os desesperados sobre a existência de Deus.
3. O Espírito Santo traz união e comunhão fraterna
Os Atos dos Apóstolos contam que os discípulos foram tocados por línguas de fogo. Com esse toque todos os ouvintes entendiam o que os discípulos pregavam (cf. At 2,1-11). O pano de fundo deste texto é a descrição do AT sobre a construção da torre de Babel (cf. Gn 11,1-9). Por causa do seu progresso, os homens acreditavam que pela força das construções e planejamentos, eles podiam se transformar em divindade. Mas os homens não percebem que ao se procurar somente a si mesmo, a busca termina na oposição radical em que ninguém mais entende os outros, termina com o fim da compreensão mútua. O egoísmo não permite compreender a necessidade e os direitos dos outros. Devido à divinização de si mesmo, o homem fica contra o outro e entra na perspectiva falsa, de modo que o homem acaba não entendendo nem a Deus, nem o próximo e nem a si mesmo.
O Espírito Santo traz compreensão porque é o amor que vem da cruz, da renúncia de Jesus a si mesmo. A partir do momento em que soubermos renunciar aos nossos próprios interesses, ao nosso egoísmo fatal, enxergaremos melhor a presença dos outros e compreenderemos melhor sua necessidade e seus direitos. Com essa nova compreensão conviveremos como irmãos e irmãs. As pessoas que se deixam guiar pelo Espírito Santo formam uma fraternidade de pessoas. O ES produz unidade e ao mesmo tempo, promove diferentes maneiras de servir, (1Cor 12,3-7.12-13). Ele é a força criadora de diferenças e de comunhão entre as diferenças. É ele que suscita entre as pessoas os mais diversos dons e nas comunidades os mais diferentes serviços e ministérios, como se ensina nas cartas aos Romanos (Rm 12) e aos Coríntios (12). O Espírito Santo interfere para melhorar e não para atrapalhar a comunicação da Igreja de Jesus Cristo. A verdadeira Igreja guiada pelo Espírito Santo é um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação, de unidade, de acolhimento.
4. O Espírito Santo transforma os cristãos em missionários da paz
Como dom, o Espírito Santo possibilita a confissão de fé em Jesus Cristo e faz compreender o que aconteceu com Jesus Cristo: seu ensinamento, seus sinais, sua vida, sua morte e sua ressurreição. Ele concede diversos dons para o bem de toda a comunidade.
Mas não há dom do Espírito Santo que crie o homem novo e a nova comunidade, sem envio, sem missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). E para realizar essa missão, o Senhor ressuscitado transmite aos discípulos o Espírito Santo: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-23). Este envio se faz num contexto em que se dá e se comunica a paz. A paz que se concede à comunidade cristã é um dom precioso que devemos transmitir e comunicar a todos os homens. O homem e a comunidade no Espírito estão reconciliados consigo mesmo, e por isso são enviados fundamentalmente numa missão de paz. Não há nada que seja melhor para o mundo atual do que a paz. O homem precisa reconciliar-se consigo próprio, com Deus, e com os outros. Os cristãos são enviados para facilitar o alcance deste objetivo. A Igreja recebe o poder de perdoar, de colocar o homem novamente de pé. Mas a paz que provém do Espírito de Jesus não pode cobrir ou justificar o mal ou a injustiça. A paz é o oferecimento de perdão sem limites onde se reconhece o mal. Não se constrói a paz sem a verdade e a justiça.
Os cristãos da comunidade primitiva antes de receber o dom do Espírito Santo eram uma comunidade débil, cheios de medo, calados e fechados. Assim que receberam o Espírito Santo, os que estavam calados começaram a anunciar a Boa Nova de Jesus apesar das proibições. A comunidade se plenificou de iniciativas, e os cristãos se decidiram a atuar com entusiasmo pelo bem de todos.
E você? Você tem consciência de que realmente recebeu o dom do Espírito Santo? O que mudou na sua vida como cristão/cristã? Que o Espírito Santo que nos reuniu nesta celebração para nos alimenta com a Palavra de Deus e com o Pão eucarístico nos fortaleçam para sermos verdadeiras testemunhas dos ensinamentos de Jesus Cristo, e missionários da paz. Assim seja!
Pe. Silvester Anas
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